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CÓPIA FIEL

A cópia pode ser tão boa quanto o original?


James Miller é um famoso escritor inglês que está na Itália para o lançamento de seu novo livro sobre originalidade e cópia em obras de arte onde ele aconselha que, na falta do original, fique com a cópia mesmo. Elle, por sua vez, é uma francesa dona de uma galeria de arte que há anos mora na Itália com seu filho “aborrecente”.

Antes de voltar para seu país de origem, James aceita o convite de Elle para conversarem sobre seu livro durante um café. No café, os dois são confundidos como marido e mulher pela garçonete. Elle entra na “brincadeira”, não corrigindo-a e seguindo sua conversa como se realmente fossem casados. Ao saírem do café, eles encarnam a brincadeira e viram “de verdade” um casal em crise. Ora a crise é causada por ela, ora causada por ele. Às vezes, a discussão se dá em inglês, às vezes, em francês. Numa cena, ele fala em inglês e ela responde em francês (!?).

É realmente complicado fazer uma interpretação "única" de Cópia Fiel, isso dependerá da bagagem individual de cada um. Reduzi-lo a uma espécie de Antes do Amanhecer (95) e Antes do Entardecer (04) da meia-idade é uma burrice sem tamanho. O que está em jogo não é a crise daquele casal e sim a discussão do que é original e do que é cópia. Do que é real e do que é ficção. Do meio para o fim, você já esqueceu que aqueles dois são estranhos que acabaram de se conhecer e passa a acreditar fielmente que eles são um casal em crise. Na verdade, você começa a duvidar da veracidade da primeira parte do filme. Eles são realmente dois estranhos que nunca se encontraram antes?

Cópia Fiel é um filme que te convida para uma revisão, depois de saber o ponto final para poder interpretar melhor as nuances, mas é algo que até agora não fiz, mas que espero poder fazer em breve.


A+
Copie Conforme (Abbas Kiorastami, FRA/BEL/ITA, 2010)
Quando: Agosto/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

UM LUGAR QUALQUER

Melancholie mode on.


Johnny Marco é um jovem ator de blockbusters de Hollywood no auge de sua fama que leva, fora das filmagens, uma vida totalmente desregrada e vazia, bebendo todos os dias até cair, participando de festas, transando com estranhas, assistindo performances particulares de pole dance com duas gêmeas e por aí vai. Um belo dia, ele acorda e vê sua filha Cleo, de 11 anos, ao seu lado. Enquanto sua mãe viaja, os dois passarão algum tempo junto.

Se ainda existia qualquer dúvida sobre o talento como diretora de Sofia Coppola, ela prova mais uma vez que é capaz de fazer mais um filme com sua marca autoral: visões intimistas de seus personagens descobrindo pequenas coisas da vida. De um ator decadente e uma “namorada de um fotógrafo” perdidos em Tóquio (Encontros e Desencontros, 03), passando por uma rainha arrancada de sua casa na adolescência (Maria Antonieta, 06), agora é a vez de um ator no auge de sua fama e sua filha, que o fará reavaliar o modo como encara sua própria vida.

Um Lugar Qualquer é um filme menor se comparado aos dois anteriores, mas mesmo assim você se deixa levar pelo lirismo e pelos detalhes, seja um simples desenho de uma filha no gesso do braço de seu pai, seja um “chá de panela” fictício em baixo d’água. Sofia não tem pressa em contar a sua história, em certa medida, pessoal, pois ela viveu um bom tempo naquele mesmo hotel, o Chateau Marmont, ao lado do pai, Francis Ford Coppola. Inclusive, o porteiro é o mesmo.

Destaque pelo “piti” de Cleo que, prestes a ser deixada no aeroporto pelo pai, não quer ir à colônia de férias, por se sentir rejeitada tanto pelo pai como pela mãe. As “férias” no acampamento, para ela, seria apenas um lugar onde seria despejada como um objeto qualquer para que ambos pudessem continuar vivendo suas vidas.

A cena final é subjetiva demais. Não dá para interpretá-la literalmente. Ninguém em sua sã consciência faria aquilo. Mas parece perfeito como um “final feliz” onde é apresentado o momento em que aquele astro que movimenta milhões e mexe com o imaginário de tanta gente, mas tem uma vida vazia e sem sentido, muda a forma de viver.


B+
Somewhere (Sofia Coppola, EUA, 2010)
Quando: agosto/11 (Cine São Luiz)
Sítio Oficialsomewherethemovie.com

THE MAN FROM EARTH

“Who do you think I am?”


John está de mudança e quer ir sem se despedir de ninguém. Entretanto, seus colegas, professores universitários das mais diversas ciências (da filosofia à biologia, passando pela literatura sacra, psicologia, antropologia e arqueologia), resolvem fazer uma festa de despedida em sua casa.

Lá pelas tantas, John resolve propor uma discussão sobre a possibilidade de um ser humano viver por 14.000 anos. No início, seus colegas pensam que é um jogo, mas depois, John revela que não sabe porque ele parou de envelhecer por volta dos 35 anos, aproximadamente 140 séculos atrás. Nesse período, ele andou pelos quatro cantos do mundo. Conheceu o Buda, esteve na palestina na época de Jesus Cristo, viajou com Cristóvão Colombo, sobreviveu à peste bubônica, ganhou um quadro de presente de um tal de Van Gogh...

É preciso muita concentração para “comprar” a idéia desse filme, pois ele é num tom mais lento, introspectivo, limitado a uma sala de estar com um sofá e algumas cadeiras, com perguntas e respostas e muita especulação entre esses amigos/cientistas, que ficam entre os mais céticos e os mais empolgados com a possibilidade da história de John ser verdade.

Ou não...

Há canastrões entre os atores, a maioria atuante na tv (de onde dá para reconhecer um rosto ou outro), mas o roteiro é envolvente, apesar da pequena derrapada que poderia ter sido evitada ao cortar os últimos 2 ou 3 minutos do filme. Entretanto, nada disso tira o seu mérito, que faz valer a pena sua conferência.


B
The Man From Earth (Richard Schenkman, EUA, 2007)
Quando: Julho/08 (DivX)
Sítio Oficial: manfromearth.com

TRANSYLVANIA

Perder... e se reencontrar.


Em Exílios (04), Tony Gatlif mostrou a viagem de um jovem argelino, mas que vivia na França desde muito pequeno, de volta ao seu país de origem em busca de suas raízes. Aqui, o diretor volta ao expediente do road movie e à busca interna de um personagem, mas num contexto bem diferente. Zingarina mora no sul da França e parte para a Tansilvânia com uma amiga atrás de seu "grande amor" que era imigrante ilegal e tinha sido deportado de volta ao seu país antes de descobrir que seria pai.

Por um motivo que não cabe a mim revelar antes que você veja o filme, Zingarina endoidece o cabeção e, na viagem de volta, foge de sua amiga. Ela se recusa a voltar para casa. Começa, então, sua viagem interna em busca de um propósito para o seu futuro. Externamente, tem-se um pouco dos costumes e, sobretudo, das belíssimas paisagens da "terra do Conde Drácula", enquanto Zingarina tenta voltar à sanidade.


B+
Transylvania (Tony Gatlif, FRA, 2006)
Quando: Outubro/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: ficha imdb

SUNSHINE - ALERTA SOLAR

O mundo está acabando e não é por ação do homem. É o Sol que está perdendo a sua força..


Cinqüenta anos no futuro, o sol está enfraquecido. Para reacendê-lo, a última esperança da Terra é a nave Ícaro II, enviada rumo ao sol com todo o material de fissão existente na Terra. O objetivo é lançar uma bomba nuclear para criar uma estrela dentro da estrela e, com a reação em cadeia, reacender o astro-rei. A viagem é longa e o stress é potencializado pelo fato dos 8 tripulantes não saberem o que vão encontrar pela frente, pois a missão anterior, a Ícaro I, não atingiu o seu objetivo. Para complicar ainda mais, trata-se de uma missão praticamente suicida, pois há apenas uma pequena chance deles sobreviverem à explosão.

Eu passei por uma verdadeira via-crúcis para poder ver esse filme no cinema. Praticamente um mês e meio depois de sua estréia nacional, ele estreou nas salas recifenses em horários pouco convidativos (sendo que um deles, o menos ruim de todos, estava errado nos guias de programação e só fui descobrir na boca do caixa). Na segunda semana, ele já estava confinado a apenas duas sessões de um único cinema lá na putaquepariu de Jaboatão dos Guararapes (para onde tive que me deslocar). Entretanto, o resultado final mais do que compensou o calvário. O filme pode chupar todo e qualquer enredo dos filmes de ficção científica anteriores (me lembrei até mesmo de Blade Runner em vários momentos, basicamente pela trilha sonora), mas o apuro visual é embasbacante. O personagem principal, o Sol, quando aparece, toma a sala de cinema de tal forma que 99% de sua grandiosidade estaria totalmente perdida na televisão. O elenco está afinadíssimo, cada um com a sua personalidade própria, uns mais dispostos a escolhas racionais do tipo "uma vida na nave por bilhões na Terra" do que outros e foi uma pena que apenas um deles sobreviveria para poder "entregar o presente" ao Sol.

Eu gosto de Danny Boyle e exceto A Praia (00), vi todos os seus filmes no cinema e não me decepcionei com nenhum deles. Apesar da saraivada de críticas extremamente negativas que o filme levou, tê-lo visto no cinema foi uma experiência única. O enredo tem problemas, claro. O "quinto elemento" perto do final é totalmente desnecessário, mas o subtexto filosófico por trás de todas aquelas imagens me botou para pensar. Me senti num Estado Alfa do início ao fim (ou melhor, quase no fim, pois Danny cagou ao colocar o desnecessário "quinto elemento").

Para quem viu um imitador barato, as críticas que o filme levou faz sentido. Para mim, que prefiro acreditar sempre nas boas intenções de quem realiza um filme, eu aceito essas chupadas como algo do tipo "tomar emprestado" conceitos já utilizados.



Assisti ao filme na semana passada e agora, relembrando-o, estou com um gostinho de "quero vê-lo de novo", mas, infelizmente, vou ter que controlar meu desejo, pois na terceira semana, ele já saiu de cartaz em Recife. Um verdadeiro crime.


A
Sunshine (Danny Boyle, ING, 2007)
Quando: Maio/07 (Box Guararapes)
Site Oficial: sunshinedna.com

SOB O EFEITO DA ÁGUA

Sobreviver no limite


Cate Blanchett (Tracey) é uma ex-viciada em heroína que está "careta" há quatro anos e trabalha em uma locadora de vídeos. Seu irmão, Martin Henderson (Ray), é um traficante de drogas que perdeu uma perna por causa delas e, às vezes, recebe sua "mercadoria" através de Tracey. Ambos moram com sua mãe, um típica mãe super-protetora. Hugo Weaving (Lionel) é um ex-jogador de rugbi que se droga 24 horas por dia, sete dias por semana e tem uma intensa relação de amizade com Tracey. Sam Neil, é um "empresário" de sucesso que está se aposentando e tem um affair com Lionel. Dustin Nguyen (Johnny), que já esteve na série "Anjos da Lei" ao lado de Jonny Depp, é um grande amigo de Ray que sumiu de repente por muito tempo e volta para trabalhar no mercado de ações.

Lá se foi boa parte do filme e você ainda não tem noção exata da relação entre todos esses personagens. Você sabe que Tracey e Lionel tem um passado em comum e que a mãe dela o odeia, da mesma forma que ela apenas se resigna e "aceita" a amizade entre Johnny e Ray. Com o tempo, é revelado que foi Lionel quem "apresentou" a heroína à Tracey, enquanto tinha com relacionamento com sua mãe. Johnny, se revela como sendo um ex-drogado, responsável pelo acidente que amputou uma perna de Ray, que já namorou Tracey e que não trabalha no mercado de ações.

Tracey tenta levantar um empréstimo para abrir uma lan house, mas o seu crédito nunca é liberado. A cada fracasso, ela vive no limite entre voltar ao mundo das drogas e batalhar por uma nova possibilidade. Na n-ésima tentativa, descobrimos que ela fraudou o cartão de crédito no passado e por essa razão é praticamente impossível conseguir o empréstimo. Terá sido uma fraude para comprar drogas ou em decorrência do uso delas? O roteiro não entrega isso de bandeja, cabe a cada um decidir.

Assim como o destino final de cada personagem, que após uma fracassada negociação de drogas, vão a uma praia, entram na água e, a partir de então, todos têm a possibilidade de sair de lá zerados. Não sabemos o que cada um fará com essa segunda chance, mas a esperança de que o futuro seja melhor existe.


A
Little Fish (Rowan Woods, Austrália, 2005)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: littlefishmovie.com

TRANSAMERICA

- We love you.
- But we don't respect you!



Há filmes sobre pais que descobrem que possuem filhos já adultos, há filmes sobre filhos que sonham um dia em encontrar seu verdadeiro pai, há road movies, há filmes sobre preconceito em relação à orientação sexual, há filmes sobre pessoas que não conseguem se sentir satisfeitos com o seu corpo, há filmes sobre transexuais (embora muito raros) e há Transamerica, que reúne todos esses filmes num só.

Bree, que nasceu Stanley, aprende a entonar a sua voz feminina durante os créditos iniciais. Ele está prestes a se tornar definitivamente ela graças à uma operação de mudança de sexo na Califórnia. Tudo está mais ou menos pronto quando ele/ela recebe uma ligação de um reformatório juvenil em Nova York dizendo que um meliante acaba de ser preso por roubar uma rã e que alega ser filho de Stanley.

Bem, apesar de ter um pinto, Bree o considera nojento e se lembra que na época da faculdade teve um sexo "quase lésbico" com uma colega, que vem a ser a mãe de Toby, o delinqüente juvenil, michê e drogado do parágrafo acima. Bree pensa em esquecer essa história, mas sua analista a intima a conhecer o garoto, caso contrário, ela não assinará a autorização para a operação.


A operação está marcada para ocorrer em menos de uma semana. Ela só pode ser submetida à operação se a sua analista lhe der a autorização. A autorização só será concedida se Bree conhecer o seu filho. Solução: os dois partem para A Cidade dos Anjos de carro.

Entre os vários "pequenos detalhes" do roteiro, que transporta para a tela uma história que poderia ser "difícil" aos mais puritanos de uma forma bem natural (tanto que até o meu pai gostou), me chamou a atenção o diálogo acima. O pai, que parece ser amoroso, porém fraco, diz que eles o/a amam. Mas a mãe dominadora fala logo em seguida que eles não o/a respeitam.

Será que Bree terá um final feliz? Assista e descubra.


B+
Transamerica (Dunkan Tucker, EUA, 2005)
Quando: janeiro/07 (DVD)
Site Oficial: www.transamerica-movie.com

O TEMPO QUE RESTA

Você recebe a notícia que vai morrer em três meses. E aí? O que você faria com o tempo que te restasse?


Romain é um jovem fotógrafo de moda bonito, gay, arrogante e drogado que desmaia no meio de uma sessão de fotos. Após os exames, ele recebe a notícia que, aos 31 anos, tem um câncer generalizado em vários órgãos do seu corpo e a change de um tratamento bem sucedido é inferior a 5%. O médico lhe dá 3 meses de vida, mas isso é uma estimativa: tanto pode ser 1 mês como 1 ano.

Aí está o ponto de partida para o filme que te faz refletir sobre o que você faria se a você fosse dada tal notícia. Romain procura "seguir o instinto" como confidencia à sua avó (Jeane Moureau, a "moça" da foto acima), a única a quem ele conta sobre a o tumor. Por que? "Porque você também vai morrer em breve", ele responde.

E esse é o Romain "normal". Não espere uma redenção ou algo do tipo, com ele fazendo "o bem" e "consertando" tudo de ruim que ele possa ter feito. No jantar em que ele pretendia contar aos pais e à irmã, depois de cheirar cocaína no banheiro, ele perde a coragem de contar o que está acontecendo e briga mais uma vez com a irmã. Você sente vontade de ter pena do personagem, mas ele não deixa. Mesmo em seus "últimos momentos", ele continua o mesmo.

Mas ele ensaia uma rendenção. Um dia, depois de receber uma carta da irmã perguntando porque eles se separaram, porque ele não lhe dava nenhum tipo de abertura e dizendo que ela sente saudades da época em que eles tinham uma cumplicidade, ele a espiona num parque com seus dois filhos. É a primeira foto que o tio tira de um de seus sobrinhos.

Ele deixa bem claro que era terminantemente contra crianças, no dia do jantar acima, numa conversa com uma garçonete que lhe faz uma "proposta indecente": seu marido é estéril e ambos concordam que, por ele ser bonito, ele daria um ótimo "doador de esperma". Inicialmente ele não aceita a proposta, mas volta atrás, contanto que o marido participasse. [Acho que entendi agora porque os cineastas fazem essas cenas "incômodas" durarem: eu me contorcia na poltrona durante a "proposta" e durante a "concretização do ato", que duraram uma eternidade cada uma]

O fim, bem melancólico, se dá na praia. Uma cena forte com ele estendido na areia (definitivamente, a moda-praia francesa é um horror). Ao entardecer, todos indo embora e ele, ficando....


A
Le Temps Qui Reste (François Ozon, FRA, 2005)
Quando: novembro/06 (UCI Recife)
Site Oficial: ficha imdb
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