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A LESTE DE BUCARESTE

Uma comédia, mas que serve para o diretor passar a sua mensagem.



Fui ver esse filme com uma única recomendação: prestar atenção na hora da "entrevista". A tal entrevista é um programa de televisão de uma rede de tv meio mambembe de uma cidadezinha ao leste da capital romena, Bucareste, que discute os 16 anos da derrubada do ditador Nicalae Ceausescu.

O mote do programa é: houve ou não houve uma revolução. Nesse caso, a hora de 12h08 é a hora-chave. Foi nesse momento que a TV estatal parou de transmitir um pronunciamento oficial em razão dos protestos que tomavam a praça em frente à sede do governo.

Inicialmente, o filme nos mostra seus três personagens principais: o produtor do programa, que se inspira num dicionário de filosofia grega para os seus pronunciamentos -- ditos -- filosóficos, o professor alcólatra que deve para meio mundo para poder continuar o seu vício e o velhinho simpático da esquerda, que foi escalado de última hora porque o outro entrevistado faltou.

No programa propriamente dito, podemos notar que o idioma romeno não só é parecido com o italiano como os costumes do povo romeno em nada diferem de um típico elenco felliniano. Com direito a xingamentos ao vivo pelo telefone, intromissão na vida alheia (nada mais... "latino") e xenofobia.

Nesse último ítem, interessante a participação do chinês, que foi o único a defender o professor (já que ele foi escorraçado por todos os demais). Quando ele se meteu a falar dos romenos, que deveriam prestar mais atenção às suas próprias vidas do que às vidas alheias, foi uníssona a saraivada de críticas que ele levou (inclusive do próprio professor que ele havia defendido).

No fim, a mensagem. Não foi uma revolução instantânea a que aconteceu naquele dia. Foi como o ascender das luzes de uma cidade. Uma de cada vez, pouco a pouco, até que toda a população foi chamada às ruas para pedir o fim do regime.


B
A Fost Sau N-a Fost? (Corneliu Porumboiu, Romênia, 2006)
Quando: Janeiro/08 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

MARIA

Sobre acreditar.


Para muitos, esse é aquele filme em que a atriz que interpreta Maria Madalena em um filme surta e passa a viver como ela em Jerusalém.

Errado.

Há vários temas dentro desse filme, mas aquele que captou minha atenção e me magnetizou até o final foi : Você sabe por que Jesus Cristo foi crucificado?

Era para eu ter visto esse filme antes, em setembro ou em outubro, quando ele entrou em cartaz aqui no Recife, mas não pude ir. Me penitenciei muito por isso. Agora, posso dizer que para o meu próprio bem, só pude vê-lo no último dia do ano, pouco antes da queima dos fogos e vi um filme que poucos viram. Poucos prestaram atenção no personagem de Forest Withaker, o entrevistador da tv que está fazendo uma série de programas sobre Jesus Cristo, dando voz a todas as religiões.

Seu personagem é o que podemos chamar de "pecador" (entre aspas porque eu não acredito em pecado). Trai a mulher, lhe dá pouca atenção às vésperas do nascimento do filho, faz acordos "escusos" para ter o que quer.... até que a sua mulher entra em trabalho de parto antes do previsto, entra em coma e o seu filho está entre a vida e a morte numa encubadora.

É nesse momento que ele presencia a queda. É após esse momento que ele finalmente entende o que significa a crucificação de Cristo. Sobre alguém abrir mão da sua própria vida em favor de outro. Chegamos ao clímax do filme. Theodore Younger, na busca de um milagre para seu filho e sua esposa, passa a acreditar.

E nisso, Marie, toda contente com sua nova espiritualidade, participa de um ritual judeu e quase nem se abala com um atentado palestino na hora de uma oração.

Se eu tivesse visto esse filme nos cinemas, tenho certeza que não teria captado nem a metade de tudo isso (e pode ter certeza, aqui eu não abordei nem 10% da discussão que o filme traz à tona).

Um filme que vale muito a pena ver para poder discutr internamente qual a sua fé.


AMaria (Abel Ferrara, ITA/FRA/EUA, 2006)
Quando: 31/12/07 (DVD)
Sítio Oficial: mary-lefilm.com

THE BUBBLE

Tragédia shakespeareana na Terra Santa.


A "bolha" do título é Tel-Aviv, a capital administrativa e a cidade mais cosmopolita de Israel. Algo como uma Nova York do Oriente. Entretanto, apesar de ser permeável ao "novo", a cidade não pode se desvencilhar totalmente da região e, por causa disso, sofre ataques terroristas de homens-bomba palestinos e tem entre seus habitantes os extremistas israelenses que gostariam de exterminar todos os árabes do planeta.

Nesse ambiente, surge o "amor" entre Noan e Ashraf. O primeiro, um ex-soldado da fronteira entre Israel e os territórios ocupados e esse último, um palestino. Eles se conhecem em mais uma das humilhantes revistas pelas quais os palestinos têm que passar para poderem entrar em Israel e acabam se apaixonando. Ashraf se muda para o apartamento que Noan divide com um casal de amigos e tudo está bem até que descobrem que ele é palestino em seu trabalho. Ele foge de volta para a sua cidade natal e fica por lá para o casamento da irmã.

Até aí, tudo bem, mas o caldo começa a entornar quando o colega de apartamento de Noan está num café que sofre um atentado de um homem-bomba e é seriamente ferido. Ashraf liga para ele para poder saber de notícias, mas Noan deliberadamente não atende.

Pouco tempo depois, a irmã de Ashraf é morta "acidentalmente" por uma bala "perdida" após uma incursão de soldados israelenses nos territórios ocupados. Noan fica sabendo e tenta ligar para Ashraf. Agora é a vez dele não atender ao telefone.

Agora vou falar do final. Se não quiser saber, pare por aqui.

Até o final do dia, instantaneamente, Ashraf virará um homem-bomba para vingar a morte da irmã, rumará a Tel-Aviv, mas encontra Noan no café que ele deveria explodir. Ele hesita e vai para o meio da rua. Noan o segue. Os dois explodem e morrem sozinhos.

Eytan Fox não acredita no amor entre gays e, pela segunda vez, mata seus protagonistas (se bem que em Yossi & Jagger, ele matou apenas um deles). Talvez ele quisesse passar a mensagem que nem mesmo o amor pode superar o ódio de ambos os lados, mas sei lá. Um pouco de fé na humanidade não faz mal a ninguém.


B
Ha-Buah (Eytan Fox, ISR, 2006)
Quando: Dezembro/07 (Cine Rosa e Silva)
Sitio Oficial: thebubble.msn.co.il/eng

BOBBY

Quem foi Robert F. Kennedy?



06/06/68. Esse foi o dia em que o irmão de John Kennedy, Bob, foi morto. Nesse dia, várias pessoas com seus próprios sonhos e ideais estavam presentes no Ambassador Hotel, local do atentado.

Bobby procura retratar 22 dessas pessoas, da artista alcólica e decadente à cabeleireira traída; do gerente do hotel ao seu subordinado racista; da amiga de infância que aceita se casar com o amigo para que ele não fosse enviado ao Vietnã ao casal em sua segunda lua de mel; do traficante aos dois cabos eleitorais que desejam "viajar"; da telefonista aos dois ex-porteiros do hotel que, mesmo aposentados, continuam freqüentando-o; do chefe da cozinha aos garçons mexicanos; dos assessores à jornalista tcheca que deseja uma entrevista de 5 minutos com o candidato. Enfim, 22 histórias que se entrelaçam (ou não) que ocorreram naquele mesmo dia em que Bob Kennedy foi morto na cozinha do Ambassador Hotel por um extremista palestino.

Um filme panfletário, com diálogos um pouco melodramáticos demais em alguns momentos, um pouco "lugar comum" em outros, mas que funcionam no conjunto, entrecortando-se entre si e com várias imagens reais do candidato discursando. Funcionam para mostrar quem foi Robert F. Kennedy, quais eram suas propostas e que nos faz pensar o que seria do mundo hoje se naquele dia, aquela tragédia não tivesse acontecido.


B+
Bobby (Emilio Estevez, EUA, 2006)
Quando: Outubro/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: bobby-the-movie.com

TRANSYLVANIA

Perder... e se reencontrar.


Em Exílios (04), Tony Gatlif mostrou a viagem de um jovem argelino, mas que vivia na França desde muito pequeno, de volta ao seu país de origem em busca de suas raízes. Aqui, o diretor volta ao expediente do road movie e à busca interna de um personagem, mas num contexto bem diferente. Zingarina mora no sul da França e parte para a Tansilvânia com uma amiga atrás de seu "grande amor" que era imigrante ilegal e tinha sido deportado de volta ao seu país antes de descobrir que seria pai.

Por um motivo que não cabe a mim revelar antes que você veja o filme, Zingarina endoidece o cabeção e, na viagem de volta, foge de sua amiga. Ela se recusa a voltar para casa. Começa, então, sua viagem interna em busca de um propósito para o seu futuro. Externamente, tem-se um pouco dos costumes e, sobretudo, das belíssimas paisagens da "terra do Conde Drácula", enquanto Zingarina tenta voltar à sanidade.


B+
Transylvania (Tony Gatlif, FRA, 2006)
Quando: Outubro/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: ficha imdb

POSSUÍDOS

A loucura é contagiante.


Agnes é uma perdida na vida. Teve o seu filho seqüestrado, mora num quarto de um fétido motel, tem medo de seu ex-marido, que está prestes a sair em condicional da cadeia, e dos telefonemas insistentes que começaram há pouco e ela não sabe de quem são, pois assim que ela os atende, ela não escuta nada do outro lado da linha. Nas horas vagas, Agnes se droga pesadamente para esquecer de tudo isso.

Peter é um igualmente perdido. Veterano da Guerra do Golfo, passou um tempo internado num hospital psiquiátrico para, segundo ele, se tratar de uma droga experimental que injetaram nele durante a guerra e atualmente não consegue encontrar emprego.

Os dois se encontram graças à única amiga de Agnes, a lésbica R.C., durante uma orgia narcótica. Inicialmente, ela o afasta, mas com o tempo, acaba se envolvendo com o "estranho", ao mesmo tempo em que ele começa a se sentir perseguido por insetos (o "bug" do título original). Daí para frente é um pulo para ela se tornar dependente dele e igualmente paranóica, numa tensão crescente até o final catártico, que obviamente eu não contarei aqui.


B+
Bug (Willian Friedkin, EUA, 2006)
Quando: Setembro/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: bugthemovie.com

UM LUGAR NA PLATÉIA

Várias histórias. E Paris.


Não tem jeito. Paris sempre será Paris e eu sempre ficarei embasbacado com todo e qualquer filme em que ela figurar como cenário. Nem precisa ser o cenário principal, eu me contento até mesmo que a ação se desenrole em apenas uma de suas avenidas.

Justine foi criada pela avó na pequena cidade de Mâcon. A anciã sempre gostou do luxo, mas como não tinha condições de viver nele, se contentou com um trabalho como faxineira do Ritz. Ela lavava bidês e privadas, mas pelo menos vivia rodeada pelo luxo.

A neta vai para Paris e inicialmente tenta trabalhar no mesmo hotel, mas só consegue um emprego de garçonete. Nesse trabalho, com sua ingenuidade, seu carisma e sua simpatia, ela vai interligar as demais histórias do filme: a de um colecionador de arte que se casou com uma mulher arrogante bem mais jovem do que ele e que foi amante de seu filho, com o qual não tem uma boa relação; a de uma famosa estrela da televisão que ensaia uma peça, mas que quer mesmo é protagonizar um filme sobre Simone de Beauvoir; e a de um famoso pianista, que já não agüenta mais o seu ritmo de vida e que quer viver numa pequena casa no campo, ao lado da mulher, que abdicou de sua carreira como violonista para administrar a do marido e que não concorda com essa idéia.


Filme simpático, despretensioso, surpreendente e que me capturou, principalmente a história do pianista. Ele queria apenas tocar para crianças em hospitais e dar aulas de piano ao lado da mulher que ele ainda ama. A cena do concerto, com ele a encarando é de cortar. E é claro que eu chorei nesse momento.


B+
Fauteuils d'Orchestre (Danièle Thompson, FRA, 2006)
Quando: Setembro/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: ficha imdb

007 - CASSINO ROYALE

O nome dele não é Bond, James Bond.


Eu estava no coro dos descontentes quando foi anunciado o novo intérprete de Bond, James Bond. O cara tem o corpo, mas não tem a beleza e muito menos o "charme" que um aspirante a James Bond demanda. Sean Connery era o charmoso-sacana; George Lazemby não conta; Roger Moore era o adepto do humor negro (e até acredito que tivesse algum charme); Timothy Dalton até hoje não disse a que veio e Pierce Brosnam, apesar de exalar seus ferormônios a quilômetros de distância, se refugiada nessa característica peculiar e no humor sarcástico.

A Guerra Fria acabou, como nos lembra a saudosista M. O mundo não pede mais machos infalíveis no cinema (apesar de Jack Bauer existir na tela pequena) e então, tiveram que reinventar o sr. Bond. Um Bond feio, porém, eficiente. Um Bond que não mede escrúpulos para conseguir o que quer, seja invadindo a embaixada de um outro país ou entrando no computador de sua própria chefe ou até mesmo fechando um acordo moralmente questionável com um espião de uma agência "concorrente". Apesar de não hesitar nesses momentos, ele é humano para duvidar de seus atos. Ele mata, mas se sente desconfortável ao limpar suas mãos cheias de sangue numa pia.

Nesse novo mundo, há novo James Bond, há novo embate. Agora não é o capitalismo contra o comunismo. É o mundo civilizado contra o terrorismo global. James Bond não poderá vencê-lo usando apenas os músculos, é preciso a cabeça. James Bond não é mais infalível. James Bond se apaixona, James Bond cai no blefe de seu oponente. James Bond sofre arranhões, tem uma parada cardíaca, carrega essas chagas ao longo do filme, mas sempre se recupera.... até que se corte novamente numa briga.

James Bond não se apresenta mais como Bond, James Bond. E sim, Daniel Craig é um bom ator.


B
Casino Royale (Martin Campbel, 2006, EUA/ING/TCH )
Quando: Agosto/07 (DVD)
Site Oficial: 007cassinoroyale.com.br

PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO

Cheiros, odores e obsessões.


Logo no início, o filme nos mostra que ele não será de fácil digestão, mostrando o nascimento de seu anti-herói, Jean-Baptiste Grenouille, num fétido mercado de peixes parisiense no início do século passado.

Ao nascer, como ele não chorava, sua mãe pensou que ele teria o mesmo destino de seus outros filhos, ou seja, a morte. Ela, então, o deixou junto ao resto dos animais, mas como começou a chorar logo depois, ela foi acusada de assassinato e foi enforcada. O recém-nascido Jean-Baptiste foi levado a um orfanato e lá desenvolveu um extraordinário olfato. Adolescente, foi vendido a um curtume e, contrariando a expectativa de vida entre os demais "funcionários", ele sobreviveu.

Um dia, é levado à cidade por seu "patrão" e uma infinidade de odores toma conta de suas narinas até se deter num determinado cheiro, que exalava de uma moça que vendia limões. Ele a mata acidentalmente, mas nem assim ele a deixa e começa a cheirá-la até que seu odor se dissipe. Tem início sua obsessão de aprender a todo custo a conservar o odor de seres vivos.

Ele acaba fazendo uma entrega a um decadente perfumista parisiense (interpretado por Dustin Hoffman) e esse acaba comprando-o do curtume. Jean-Baptiste aprende que para se fabricar um perfume são necessárias 13 essências. Serão, a partir de então, 13 assassinatos até que Jean-Baptiste possa finalmente "descansar" de sua obsessão de criar o perfume "perfeito".


B+
Perfume: The Story of a Murder (Tom Tykwer, ALE/ESP/FRA, 2006)
Quando: Agosto/07 (DVD)
Site Oficial: perfumefilme.com.br

O HOSPEDEIRO

Um tapa com luva de pelica ao imperialismo americano (entre outras críticas).


O início do filme já mostra muito do que se pode esperar até o seu final, com um pesquisador estadunidense ordenando que o seu subalterno jogue dezenas de frascos de um líqüido extremamente tóxico no ralo da pia. O subalterno tenta convencê-lo do contrário, pois isso levaria o líqüido para o rio Han, que corta Seul, e causaria um desastre ecológico. Mesmo assim, o líqüido é despejado.

Na segunda cena, temos a primeira menção ao aparecimento de um "bicho estranho", com várias caudas, quando ele é capturado ainda como um pequeno lambari pela caneca de um pescador, mas é devolvido ao rio.

Na terceira cena, somos apresentados aos protagonistas da história e ao seu herói/anti-herói, um dorminhoco e meio abobalhado, ou seja, se esse fosse um filme indie, ele seria o perfeito looser. Ele, sua filha e seu pai moram e trabalham num trailer às margens do rio Han. Nesse belo dia ensolarado já temos, de sopetão, o primeiro ataque do monstro, que faz uma verdadeira carnificina no parque, levando consigo, Hyun-seo, a filha de Kang-du Park, o nosso herói/anti-herói.

Todos que estavam no parque são isolados em quarentena, pois acredita-se que ele seja o hospedeiro de um vírus que havia matado um "bravo soldado estadunidense em férias". Nesse tipo de hospital, Kang-du recebe uma ligação de Hyun-seo, dizendo que ela estava numa espécie de esgoto. Como ninguém quer escutar o que um "louco em estado de choque" tem a dizer, Kang-du, seu pai, seu irmão, um universitário desempregado que havia participado de protestos contra o governo no passado e sua irmã, uma bem-sucedida arqueira olímpica, resolvem escapar desse confinamento para salvarem a menina.

É um filme político, com pesadasíssimas críticas aos Estados Unidos. É um filme-família, mesmo sendo de uma família meio "capenga", mas que se une para salvar a mais indefesa entre eles. É um filme cômico, com diversas "tiradas" engraçadas para quebrar a tensão. E é um filme de monstro, com um monstro simplesmente espetacular, bem concebido e bem feito, que protagoniza cenas angustiantes.


A
Gwoemul (Joo-ho Bong, Coréia do Sul, 2006)
Quando: Julho/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: hostmovie.com

NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO

Medo e obsessão.


Barbara tem medo. Uma solitária e rígida professora de história de uma escola pública inglesa tem medo de morrer sozinha. A chegada de uma nova professora de artes em sua escola, a carismática Sheba, rende um novo alvo para os comentários ácidos e azedos que Barbara faz em seu diário.

Entretanto, com o passar do tempo, Barbara se aproxima de Sheba e elas se tornam amigas. A partir daí, os comentários ácidos terminam e a inveja dá lugar a um outro sentimento, a obsessão. Barbara escolheu Sheba para ser aquela que a fará deixar de ser só. O seu "futuro perfeito" desmorona quando ela descobre que Sheba está tendo um caso com um de seus alunos, de 15 anos. Tomada pela ira, ela a encosta na parede até que Sheba confessa. Durante a inquisição, a ira de Barbara se esvai e ela se dá conta que essa era uma ótima oportunidade de lucrar no futuro. Um trunfo para ter Sheba em suas mãos.

Sheba promete terminar com o romance, mas não cumpre o prometido. Então, num momento "banal", onde o egoísmo de Barbara a faz exigir que Sheba a acompanhe ao veterinário para buscar seu gato que havia sido sacrificado. Sheba escolhe assistir à peça de seu filho.

Duplamente traída, Barbara insinua a um outro professor que Sheba gosta de pessoas mais novas... muito mais novas. Aí se dá o "escândalo" do título, com todos descobrindo do caso e com Sheba sendo condenada a 10 meses de prisão.

A trilha sonora de Philip Glass é um caso à parte e essencial ao "subir o tom" nos momentos de maior tensão, potencializando-os.


B+
Notes on a Scandal (Richard Eyre, ING, 2006)
Quando: junho/07 (DVD)
Site Oficial: foxsearchlight.com/noas

OS 12 TRABALHOS

A vontade de mudar de vida, de recomeçar, na megalópole esmagadora e insensível.


Heracles vive na periferia de São Paulo e, depois de se misturar com as más companhias de sua comunidade, acaba na Febem. Após sair da instituição, consegue uma ocupação como motoboy na firma em que seu primo trabalha, mas para conseguir o emprego, precisará realizar 12 tarefas ao longo do dia.

Apesar de contar com a simpatia de alguns, Heracles precisará lutar contra a desconfiança, o preconceito e a falta de manejo em sua nova profissão. A seu favor, ele sempre arranjará um jeito de se virar e fazer as suas entregas. Ele encontra tempo para fazer uma entrega não prevista de um gato e um serviço de "mototaxi" ao levar uma moça ao aeroporto para que ela consiga se despedir do namorado que vai tentar a vida como cineasta na França (seria essa cena algum tipo de metáfora?). Infelizmente, o dinheiro extra arrecadado com essas duas tarefas não previstas vão para o "caixinha" do guarda que o multaria por estacionar irregularmente num local.

O dia termina e Heracles não cumpre os 12 trabalhos, pois uma tragédia, a morte de um colega de profissão, ocorre perto do final do expediente. O personagem que morre lhe havia confidenciado que queria sumir de São Paulo para montar uma barraquinha de cachorro-quente na praia. Ele, então, decide fugir da megalópole esmagadora e vai para o litoral, ver o pôr-do-sol na praia. Talvez sonhando com um futuro melhor e com um destino diferente do morto.

A trilha sonora, de André Abujamra, é, como sempre, maravilhosa.


B+
Os 12 Trabalhos (Ricardo Elias, BRA, 2006)
Quando: Maio/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: os12trabalhos.com.br

ANOTHER GAY MOVIE

American Pie ao estilo GLS.



Quatro jovens se formam e decidem fazer um pacto: todos perderão a virgindade até o final do verão. Esse é o mesmo enredo de American Pie? Sim, é. A diferença é que nesse caso, os quatro rapazes querem perder a virgindade com outros rapazes. Especificamente, os jovens em questão são: um nerd, um esportista, um bobalhão e uma bichinha-escândalo.

Situações cômica para lá, situações nem tão cômicas para cá, praticamente todas são chupadas diretamente de American Pie. Portanto, o balanço final da cria é o mesmo da criatura: situações de riso fácil e mecânico, com a imbecilidade sendo a única coisa palpável.

Só se salvam duas coisas: o professor que veio fazer intercâmbio, que é adepto de práticas sexuais nada ortodoxas (e que é objeto de desejo do bobalhão) e a sapatona-caminhoneira-machaprácaralho que "come" todas as minininhas e acho que é a única coisa original do filme.


C
Another Gay Movie (Todd Stephens, EUA, 2006)
Quando: Maio/07 (Divx)
Site Oficial: anothergaymovie.com

FILHOS DA ESPERANÇA

O futuro no presente?


Tecnicamente, não bastando o filme ser perfeito, tem dois planos-seqüência de tirar o fôlego. O primeiro, numa emboscada na estrada e o segundo, numa rebelião, com tiros de canhão, explosões, prédios destruídos, escombros e uma correria desenfreada. Já com relação ao roteiro...

O enredo se situa no futuro próximo, 2027. Na Inglaterra desse futuro, problemas do presente são potencializados, com os imigrantes ilegais sendo caçados feito ratos e o governo em guerra com rebeldes-terroristas. Para piorar o caldeirão, não nasce um único bebê no mundo todo há 18 anos e o antigo habitante mais jovem da terra, um argentino, é morto após se recusar a dar um autógrafo. Num mundo globalizado, essa morte é sentida por todos como se fosse a morte de um ente querido, menos para Theo. Theo, um antigo rebelde, "se vendeu ao sistema", tem um trabalho burocrático e vive a sua vida mais-ou-menos até que Julianne Moore, que teve um passado junto com ele no terrorismo, retorna para lhe pedir um favor.

Não fique muito excitado pela presença de Julianne, pois ela morre em menos de 30 minutos, na emboscada na estrada. Ela é morta por seus próprios companheiros pois ela era pacifista demais. Ela queria que o bebê que está prestes a nascer (sim, haverá um nascimento, mas chegarei lá) tivesse uma vida tranqüila, mas seus companheiros belicistas querem utilizá-lo politicamente.

O nascimento desse bebê, além da proteção à mãe, faz com que Theo deixe aflorar o rebelde que sempre existiu nele. O personagem de Michael Caine, um "toxicólatra" sempre disposto a esperimentar novas ervas é ótimo, mas parece que o roteiro conspira contra os personagens, pois ele não mostra quais as motivações por trás dos atos. A humanidade está infértil? Tudo bem, mas você tem que acreditar que ela é assim. Há conflitos entre o governo e rebeldes defensores dos imigrantes? Sim, mas o conflito existe e ponto. Há vacas calcinadas na estrada. Uns dizem que foram os rebeldes, mas o personagem de Michael Caine tem certeza que foi o governo. O que isso significa? Não tenho a menor idéia.


B-
Children of Men (Alfonso Cuarón, EUA/ING, 2006)
Quando: Maio/07 (DVD)
Site Oficial: childrenofmen.net

CARTAS DE IWO JIMA

Sobre a estupidez de uma guerra


Em A Conquista da Honra, Clint Eastwood apresentou a discussão sobre o significado da palavra "herói" ao mesmo tempo em que desconstruía um mito atribuído à ela, a célebre foto do hasteamento da bandeira estadunidense na ilha japonesa de Iwo Jima. Essa contraparte da história mostra "o outro lado". Ao humanizá-lo, desconstrói o mito de que todo japonês era uma espécie de robô que cumpria calado todas as ordens que lhe impunham e que estava pronto para cometer suicídio em nome de seu imperador. O melodrama que faltou na primeira metade do projeto veio com força nessa segunda parte.

Apesar de apresentar vários personagens, Cartas de Iwo Jima é baseado principalmente no general Kuribayashi, que chega para defender a ilha do iminente ataque estadunidense e em Saigo, um simples padeiro, que só queria voltar para casa, para poder conhecer sua filha que havia nascido enquanto ele estava servindo no exército. Há também o "típico soldado japonês", que prefere se suicidar a se render e também superiores que preferem decapitar soldados que deixaram seus postos a utilizá-los na resistência contra o inimigo.

O general Kuribayashi esteve um tempo nos EUA e ao chegar na ilha, implementa novas idéias de defesa e trata seus subordinados com excessiva delicadeza, o que traz desconfiança e inveja aos comandantes mais antigos, acusando-o de "americanizado". Ao mesmo tempo, ele não nega suas origens e na "hora do vamos ver", ele sabe ser bem tirânico, ou utilizando o jargão da área, ele impõe a força da hierarquia aos seus comandados.

A Conquista da Honra, ao mesmo tempo que desconstrói o mito da fotografia, faz uma apologia à guerra. Já Cartas de Iwo Jima mostra como toda e qualquer guerra é estúpida, um verdadeiro desperdício de vidas humanas. Todos na ilha sabiam que eles não venceriam, pois eles estavam em menor número e não tiveram direito nem a aviões, nem a tropas adicionais. A morte era tão certa que um ex-campeão olímpico japonês de equitação que estava na ilha, o barão Nishi, dizia que a única chance de vitória que eles tinham era afundar a ilha. Mesmo assim, ele estava disposto a morrer por seu imperador.

O único ponto negativo, talvez utilizado como forma de reproduzir o "tempo real" da batalha, é a excessiva duração do filme, que causa muito desconforto ora com o bombardeio incessante, ora com o barulho das armas que parece que nunca terminará. Mesmo assim, um filme que fecha brilhantemente a história iniciada em A Conquista da Honra. Brilhantemente pois aqui, "os outros" (os estadunidenses) são tratados como vultos/sombras, que não falam e que mesmo após a rendição do inimigo, são capazes de matar a sangue frio os seus prisioneiros de guerra.


B
Letters from Iwo Jima (Clint Eastwood, EUA, 2006)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: br.warnerbros.com/lettersfromiwojima

O HOMEM DUPLO

Drogas? Tô fora!


O homem duplo do título é Bob Arctor, um agente especial infiltrado num grupo de traficantes da "Substância D" com o objetivo de prender os grandes traficantes numa história que se passa "daqui a sete anos".

Gostaria de ter ido ao cinema mais preparado para ver esse filme, pois fui completamente às cegas, de olho apenas no nome do diretor, e já estava de saco cheio lá pela metade do filme. "Como é que Richard Linklater pôde fazer um filme tão ruim como esse?", eu pensava, enquanto olhava incansantemente para o relógio e via as pessoas não tão corajosas quanto eu saindo da sala, uma a uma.

Minha capacidade de concentração já era nula e piorou ainda mais com a minha incapacidade de detectar um objetivo para o filme, nada que pudesse ser resumido em uma frase, como eu normalmente inicio minhas resenhas. Então, eu passei a prestar atenção quase que exclusivamente na "animação" (na verdade, na "pintura" que fizeram em cima da filmagem real), voltando para a história de tempos em tempos.

Quando o tormento finalmente terminou, a primeira frase que apareceu nos letreiros finais é "este filme é dedicado a todos aqueles que pagaram mais do que deviam por seus atos". Em seguida, uma lista de pessoas que só quiseram "se divertir" e acabaram morrendo, tendo AVCs e coisas ainda piores.

Foi aí que eu finalmente entendi o objetivo do filme e através de um método que em economês é chamado de "backward induction" (depois que o resultado final do sistema ocorre, você volta no tempo para descobrir como ele chegou a esse ponto), comecei a rebobinar a fita e vi os pontos chaves.

Bob é um policial infiltrado, mas os dois hemisférios do seu cérebro entram em conflito em função do uso excessivo da "Substância D", sua "namorada" tem aversão ao toque humano, um efeito colateral da droga, um de seus amigos junkies morre de overdose numa alucinação aonde seus pecados serão lidos incessantemente por toda a eternidade e os outros já estão com os seus cérebros fritados há tempos, não sendo capazes de elaborar sentenças que tenham algum sentido. Bob também acaba com o seu cérebro fritado e num estado no qual é "recrutado" para trabalhar numa fazenda aonde se planta as flores de onde se extraem a "Substância D". The End.

Há certos diretores que colocam suas impressões digitais em seus filmes e eu não estou falando de algo tão explícito como um Hitchcock cruzando uma faixa de pedestres, estou me referindo à uma "aura" que envolve todos os seus filmes, toda uma pessoalidade que faz você ser capaz de "sentir" que o filme é desse ou daquele diretor. Richard Linklater é um desses diretores e apesar de A Escola do Rock, Antes do Entardecer e O Homem Duplo serem filmes tão dispares entre si, você "vê" o seu dedo em cada um deles.


B+
A Scanner Darkly (Richard Linklater, EUA, 2006)
Quando: Abril/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: wip.warnerbros.com/ascannerdarkly

O GRANDE TRUQUE

Rivalidade, inveja e obsessão.


Christian Bale e Hugh Jackman são dois assistentes de palco de um mago quando um truque dá errado e a esposa de um deles morre afogada dentro de um tanque. A partir de então, a rivalidade, a inveja e a obsessão de ambos move cada um de seus passos.

O ilusionismo nesse filme é visto através de engrenagens. Cada truque tem o seu método e cada método é um segredo guardado com a própria vida. Os engenheiros, principais responsáveis pela criação dos truques, são tão vitais para o espetáculo quanto o mágico nos palcos.

Vale tudo nessa rivalidade, sabotar, espionar e até mesmo matar, contanto que o outro nunca vença. Inicialmente, estava desconfortável, pois Christian Bale e sua cara de bom moço era totalmente inescrupuloso e Hugh Jackman, ao contrário, fazia o bom moço, o que não combina muito com o seu estigma de anti-herói adquirido como Wolverine, mesmo depois de um Kate & Leopold (02). Entretanto, lá pela metade do filme, Jackman resolve sujar as suas mãos enterrando vivo o engenheiro de Bale e aí o filme entra num "toma lá dá cá" desenfreado que só termina com a morte de um deles. Não, não estraguei a surpresa de ninguém, pois a morte de um deles é, na verdade, a primeira cena do filme e, assim como em Amnésia (00), deve-se prestar muita atenção em cada cena para não se perder completamente, especialmente perto do final, quando as reviravoltas levam o filme ao seu clímax.

A onipresente Scarlett Johanson e o seu bocão, para variar, estão divinos e David Bowie tem um papel interessante como o inventor de uma máquina revolucionária e maldita capaz de "fazer o homem se teletransportar". Outra participação especial é de Andy Sarkis, o Gollun de O Senhor dos Anéis, que aqui é o fiel escudeiro de Bowie. Precious....


B+
The Prestige (Christopher Nolan, EUA, 2006)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: warnerbros.com/theprestige

O ILUSIONISTA

A arte do espetáculo.


Na Viena do século XIX (talvez começo do século XX, agora estou em dúvida), um jovem fica encantado com um mágico que, segundo ele, transformou uma flor numa flauta, depois a fez levitar e, no final, desapareceu, levando consigo uma árvore inteira. Esse jovem era um pobre camponês e quis o destino que a filha dos duques da região se encantasse com seus truques. Depois de uma mal sucedida tentativa de fuga, ele vai para o extremo oriente aprender a arte do ilusionismo com os maiores mestres. Quinze anos depois, ele volta para a mesma Viena e quis o destino pregar-lhe uma peça ao chamar para o palco uma espectadora para um número de seu espetáculo. Claro que essa espectadora era a duqueza, agora, prometida ao príncipe herdeiro do trono.

A trilha sonora de Philip Glass é primorosa e captura bem o "clima" da época, uma época em que o mundo passava por grandes transformações, inclusive com a recente descoberta do cinematógrafo (que é utilizado num dos truques do ilusionista). A fotografia também colabora, com aquele efeito que se tinha nos primeiros filmes (o centro iluminado e as bordas mais escuras). Entretanto, a parte técnica não esconde as falhas do roteiro, que é cansativo até o finalzinho, quando uma série de "reviravoltas" nos faz ficar com a mesma cara de paisagem que os espectadores do ilusionista, ao descobrirmos que muito do que tínhamos visto até então não passava de... ilusão (se bem que eu descofiava da maioria dessas ilusões).


CThe Illusionist (Neil Burger, EUA, 2006)
Quando: Abri/07 (DivX)
Site Oficial:

DÁLIA NEGRA

Brian de Palma fazendo o que Brian de Palma sabe fazer melhor.


A história do filme, para quem ainda não conhece, é sobre o assassinato de uma jovem aspirante a atriz em Hollywood nos anos 1940. Na verdade, ela se debruça mais sobre os detetives desse caso, dois ex-pugilistas, e as conseqüências para os dois: um se tornando cada vez mais obcecado na busca pelo assassino e o outro, cada vez mais apaixonado pela mulher de seu companheiro.

Ou talvez a história não seja nada disso, porque não tinha dado nem meia hora de filme e eu já estava totalmente entediado, querendo desligar ou simplesmete ir direto até o final. Eu estava de saco cheio mesmo porque a história não decolava, não apresentava a que veio e Scarlett Johansson estava totalmente apática.

Mas depois, vi que não tinha mais nada o que fazer a não ser relaxar e aproveitar para ver Brian de Palma em sua melhor forma, nos enquadramentos, no "clima" (a fotografia em tons de sépia estava muito interessante), nos detalhes e nas "homenagens" a outros filmes. Dá para se ver que é um filme noir não só pela narração em off por um dos protagonistas (no caso do detetive bom, em contraste com o seu companheiro, que é o detetive corrupto), mas porque não há uma única cena em que os atores não estejam com um cigarro aceso.


B-
The Black Dahlia (Brian de Palma, EUA, 2006)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: theblackdahliamovie.net

SHORTBUS

Uma ode à liberdade e à diversidade.


Uma dominatrix e seu escravo. Um casal fazendo 34.713 posições do Kama-Sutra num sexo visivelmente ruim. Um cara batendo punheta e praticando auto-felação. Em menos de 15 minutos, já tínhamos visto tudo isso e umas coisinhas a mais, do tipo, homens ejaculando explicitamente e a porra de um deles escorrendo por um quadro.

O fio condutor da história é uma terapeuta de casais, Sophia, que não consegue ter orgasmos e finge para o seu marido, Rob, que no fundo quer ser dominado. Um de seus clientes é o casal formado por Jamie e James (ex-Jamie), que a procura para uma opinião independente sobre a abertura (sexual) de seu relacionamento. Eles a convidam para conhecer o Shortbus, um clube nova-iorquino onde as pessoas vão para se libertar, isto é, trepar. Metaforicamente falando, é claro.

Nesse clube, ela conhece Sevrin, a dominatrix da primeira frase dessa resenha, um grupo de lésbicas, um transformista e a hostess do clube, todos tentando dar um pitaco sobre como ela poderia ter orgasmos. Sevrin entra na história porque ela tem problemas de relacionamentos, ou melhor, não tem relacionamentos com gente real, apenas aqueles cliente-prestadora de serviços.

Para aqueles que acham que esse filme fala apenas sobre sexo, essa impressão é reforçada por uma verdadeira orgia, tão explícita quanto aquelas de Caligola (80). Eu vi um filme completamente diferente. Eu vi um filme que fala sobre a liberdade, com heteros e gays convivendo harmonicamente num mesmo lugar, com octagenários podendo perfeitamente terem espaço para trocar idéias com "bebês" de 20 e poucos anos e várias outras subtramas que é impossível resumí-las (ou então, essa resenha se tornaria extensa e entediante).

A parte "militante" está presente principalmente no diálogo entre o ex-prefeito de NY nos anos 80 e um modelo de 20 e poucos anos. O octagenário senhor faz um mea culpa sobre o seu engajamento na "causa" durante a escalada da AIDS, quando ele foi duramente criticado por estar no armário. Ele diz que fez o máximo que pôde. Se foi suficiente ou não, não importa, o que importa é que ele deu o seu melhor e fez o máximo que conseguiu.

Nova York tem um papel fundamental na trama, de uma maneira que eu não sei explicitar por não conhecê-la, mas posso especular. Pelo que se vê ao longo do filme (e se escuta aqui e ali), NY é justamente o lugar onde a liberdade está acima de tudo e você tem a possibilidade de "exercê-la" sem que ninguém se importe com isso. Pelo que se vê no filme, é lá também que as pessoas pecam e a cidade tem a capacidade de redimí-las sem pedir nada em troca.

Há uma certa alegria no ar com o clima de "liberou geral" (no sexo), mas como a hostess explica, Shortbus (o filme/o clube) traz a época dos hippies de volta, com a diferença de que agora não há mais esperança. O atentado do 11 de setembro é relembrado metaforicamente como um "blecaute". Mas assim como a vida continua, apesar dos pesares, a luz volta.

Esse é o segundo filme de John Cameron Mitchel e consegue ser melhor do que Hedwig and the Angry Inch (00). Uma pena que ele esteja apenas atrás das câmeras nesse, pois sua performance do transexual alemão oriental é magnética. Ele também é uma simpatia em suas entrevistas e é impossível não se apaixonar por seus filmes, principalmente esse aqui, onde ele foi "apenas" o diretor e o roteirista da sinopse. O resto da história ficou a cargo dos próprios atores que, ao contarem suas próprias histórias, deixaram o filme mais pessoal, original e apaixonante.

Ah, já ia esquecendo. Para quem procura sexo, ainda há Sevrin se esfregando (e gozando) na coxa de Sophia e os Jamies fazendo um threesome explícito com todos cantando o hino estadunidense enquanto um faz um cunete no outro, que faz um boquete no terceiro. O sexo é explícito, mas, acredite ou não, se você se deixar levar pela história, você vai vê-lo como se estivesse assistindo a um comercial de margarina.


A+(#75) Shortbus (John Cameron Mitchel, EUA, 2006)
Quando: Março/07 (DivX)
Site Oficial: shortbusthemovie.com
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