.
.
Mostrando postagens com marcador A. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A. Mostrar todas as postagens

CÓPIA FIEL

A cópia pode ser tão boa quanto o original?


James Miller é um famoso escritor inglês que está na Itália para o lançamento de seu novo livro sobre originalidade e cópia em obras de arte onde ele aconselha que, na falta do original, fique com a cópia mesmo. Elle, por sua vez, é uma francesa dona de uma galeria de arte que há anos mora na Itália com seu filho “aborrecente”.

Antes de voltar para seu país de origem, James aceita o convite de Elle para conversarem sobre seu livro durante um café. No café, os dois são confundidos como marido e mulher pela garçonete. Elle entra na “brincadeira”, não corrigindo-a e seguindo sua conversa como se realmente fossem casados. Ao saírem do café, eles encarnam a brincadeira e viram “de verdade” um casal em crise. Ora a crise é causada por ela, ora causada por ele. Às vezes, a discussão se dá em inglês, às vezes, em francês. Numa cena, ele fala em inglês e ela responde em francês (!?).

É realmente complicado fazer uma interpretação "única" de Cópia Fiel, isso dependerá da bagagem individual de cada um. Reduzi-lo a uma espécie de Antes do Amanhecer (95) e Antes do Entardecer (04) da meia-idade é uma burrice sem tamanho. O que está em jogo não é a crise daquele casal e sim a discussão do que é original e do que é cópia. Do que é real e do que é ficção. Do meio para o fim, você já esqueceu que aqueles dois são estranhos que acabaram de se conhecer e passa a acreditar fielmente que eles são um casal em crise. Na verdade, você começa a duvidar da veracidade da primeira parte do filme. Eles são realmente dois estranhos que nunca se encontraram antes?

Cópia Fiel é um filme que te convida para uma revisão, depois de saber o ponto final para poder interpretar melhor as nuances, mas é algo que até agora não fiz, mas que espero poder fazer em breve.


A+
Copie Conforme (Abbas Kiorastami, FRA/BEL/ITA, 2010)
Quando: Agosto/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE

Mutantes no tempo do ie-ie-ie.


A época: década de 1960. Contexto histórico: crise dos mísseis entre os EUA e a (então) URSS. Paralelamente, Eric Lehnsherr busca vingança contra o assassino de sua mãe e Charles Xavier procura uma forma de convivência pacífica entre mutantes e humanos “normais”.

Nos gibis, os X-Men foram publicados pela primeira em setembro de 1963. Era uma época de grande efervescência cultural com a luta por igualdade de direitos civis da minoria negra nos EUA. O surgimento destes super-humanos, que não pediram para serem assim, apenas nasceram “diferentes” da maioria, era a metáfora perfeita da discriminação sofrida por qualquer minoria por não representar a “normalidade” da maioria. A editora concorrente, a DC Comics, também tinha a sua super-equipe de “aberrações”, a Patrulha do Destino, nascida antes, em junho do mesmo ano, mas não foi tão bem sucedida.

Na época, o debate sobre a forma com que a minoria negra deveria buscar sua integração à sociedade estadounidense estava dividido entre as manifestações pacíficas, capitaneada por Martin Luther King, e atos violentos de afirmação, sob a liderança de Malcolm X. Nos Universo Mutante, essas duas vertentes eram representadas, respectivamente, pelo Professor X (Charles Xavier), que criou uma escola para que os mutantes pudessem aprender a melhor manipular seus poderes, e Magneto (Eric Lehnsherr), um judeu polonês sobrevivente do holocausto que se torna “vilão” por querer dizimar os “seres inferiores” (nós) para que os mutantes, o próximo passo da evolução humana, possam reinar soberanamente, sem precisar se esconderem em guetos ou fingirem serem “normais”.

A grande sacada de X-Men: Primeira Classe está justamente em focar o roteiro no desenvolvimento destes dois personagens, ressaltando o porquê e como o antagonismo de suas ideias colocarão Erik e Charles em lados opostos no futuro. Outra grande sacada é focarem a época em que os dois se conheceram: os anos 1960, quando a “ameaça mutante” era apenas sussurrada em alguns corredores, longe do grande público. Não bastasse, há ainda espaço para um grande vilão megalomaníaco, Sebastian Shaw, que quer simplesmente criar um conflito nuclear entre as duas super-potências para governar o que restar do mundo e Raven, que mais tarde viria a ser conhecida como Mística, uma mutante com a “vantagem” de poder parecer “normal” ao esconder sua verdadeira aparência.

Há o confronto final entre mocinhos e bandidos, mas o que fica são os questionamentos daquelas pessoas “cinzas”. Erik tem todo o direito de ser amargo em relação àqueles que o desprezam (ele sobreviveu ao holocausto!) e Charles, por ter sido criado com muito dinheiro, pode se dar ao luxo de viver sob a égide da paz e do amor. Shaw é o mais caricato, mas é daqueles super-vilões que você ama odiar. Mística, por sua vez, encara bem o drama do que é ser mutante. Ela pode se esconder ao se transformar em alguém “normal”, mas dessa forma ela nunca será ela mesma. E como alcançar todo o seu potencial como ser humano se você precisa fingir ser o que você não é, se atendo às “convenções sociais”?

Inicialmente, em função dos trailers e os materiais promocionais, pensava que seria um típico blockbuster acéfalo, voltado para a audiência desprovida de cérebro que temos hoje em dia, mas o resultado final superou -- e muito! -- minhas expectativas. Há um pouco de tudo nesse reboot da franquia mutante: ação, aventura, drama e humor. Todos bem comedidos e entrelaçados, fortalecendo a base para uma nova e bem-vinda franquia mutante (desde que esqueçam os erros que foram X-Men: O Confronto Final, 07 e X-Men Origens: Wolverine, 09). Bryan Singer, o diretor dos dois primeiros X-Men, volta à franquia como produtor. Assim, se recupera do fiasco que foi Superman, o Retorno (05).


A+
X-Men: First Class (Matthew Vaughn, EUA, 2011)
Quando: Junho/11 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: x-menfirstclassmovie.com

REENCONTRANDO A FELICIDADE

Um dia de cada vez.


Oito meses após o atropelamento de seu único filho, Becca e Howie procuram viver a vida da melhor maneira possível, com cada um lidando com a dor e a saudade à sua maneira. Howie gosta de frequentar um grupo de apoio formado por pais na mesma situação, mas Becca não. Ele procura afeto, que a esposa não consegue dar e, para suprir sua perda, ainda mantém a cadeira do filho no carro e sempre revê o último filme do filho em seu celular. Ela prefere se isolar e se livrar dos desenhos presos na geladeira, das roupas e até mesmo da casa, para evitar reviver o filho em cada cômodo.



REBECCA

Rebecca é realmente inesquecível, mas não pelos motivos que você é levado a acreditar.


Maxim de Winter é um viúvo milionário que conhece uma humilde e títmida acompanhante de uma irritante aristocrata na Riviera Francesa. Os dois se apaixonam, se casam e vão morar na mansão de Manderlay sob a sombra da antiga Sra. de Winter, Rebecca.


Rebecca pode ser dividido claramente em três atos. O inicial, na Riviera Francesa, não é muito diferente das histórias românticas de um homem e de uma mulher enamorados.

No segundo, já em Manderlay, começa o thriller psicológico num clima de claustrofobia sufocante onde o personagem principal é a antiga Sra. de Winter. A nova, apesar de amar seu marido, não consegue uma fácil adaptação à vida de aristocrata. Sempre retraída, sempre com medo dos próprios empregados, ela faz de tudo para passar despercebida.

Porém, ela não pode se esconder da Srta. Danvers, a governanta da casa. “Devota” de Rebecca, será a fonte de toda a sufocação que a  sombra de antiga Sra. de Winter causará à nova (que não tem direito nem a nome próprio!). Rebecca, que em momento algum aparece (nem mesmo em flashback), sempre será relembrada. Sempre será elemento de comparação. Sempre colocará a nova Sra. de Winter numa posição inferior, afinal de contas, Rebecca é inesquecível.

O clímax ocorre numa festa à fantasia, a primeira desde a morte de Rebecca. Aconselhada pela Srta. Danvers, a nova Sra. de Winter faz para si o mesmo vestido que ela vê num quadro. Bom, para encurtar e manter o suspense, essa cena termina com as duas no quarto da antiga Sra. de Winter, com a Srta. Danvers sussurrando no ouvido da nova Sra. de Winter que o melhor que ela poderia fazer era se jogar pela janela. "Vá. É simples. Não tenha medo".

Tem início, então, o terceiro e último ato, onde ocorre a reviravolta no roteiro, que eu não contarei para não estragar a surpresa. Se você nunca viu Rebecca, veja e pare por aqui. Se você já o viu, essa resenha continua na caixa de comentários, pois contém Spoilers!.


A
Rebecca (Alfred Hitchcock, EUA, 1940)
Quando: Maio/11 (Divx)
Sítio Oficial: ficha imdb

CISNE NEGRO

Take a walk on the wild side.


Natalie Portman no limite. Nina faz parte de uma companhia de balé e, com a aposentadoria forçada da prima ballerina anterior (idade, sabe como é...), seu diretor decide selecionar sua substituta através da escolha da protagonista de sua nova peça, O Lago dos Cisnes, com um diferencial: as irmãs Odette (o Cisne Branco) e Odile (o Cisne Negro) serão interpretadas pela mesma bailarina. Nina é perfeita para o Cisne Branco (dedicada, perfeccionista, pueril), mas conseguirá segurar a pressão inerente ao mundo do balé e libertar a volúpia necessária para a performance do cisne negro?

Nina, apesar de aparentar ter uns 20 e poucos anos, é uma garotinha. Superprotegida pela mãe, provavelmente virgem, não sai, não bebe, não namora. Sua vida é o balé. Não basta treinar na companhia, quando ela chega em casa, ela treina ainda mais. Com transtorno obsessivo-compulsivo (coceira nas costas, bulimia e anorexia), não é a toa que, até o final, acompanharemos o esgarçamento de sua sanidade mental.

Cisne Negro, não é sobre bailarinas como estamos acostumados a ver. Todas as menininhas sonham em flutuar ao invés de dançar. Aqui, as bailarinas só são graciosas em seus paços após serem exaustivamente repetidos e após se autoflagelarem ao extremo. Que distendam seus músculos, que distorçam seus diafragmas, pois se alguém não conseguir, pode ter certeza que haverá outras 100 prontas para guerrear por esse posto.

No contexto do filme, nada mais exemplificativo do que a prima ballerina anterior, interpretada por Winona Ryder. Ela já foi a "queridinha da América", já esteve no auge quando tinha 20 e poucos anos. Agora, aos 40, é apenas uma sombra do seu passado de glórias. Só lhe resta a bebida e o desejo de autodestruição.

No entanto, sempre se deve dar o benefício da dúvida, pois o filme nos é apresentado segundo o ponto de vista de Nina, que logo aos 5 minutos se vê no metrô. No final desse dia, ela também se verá nos corredores do metrô. Em certo ponto, já não saberemos mais o que é real e o que é imaginário.

Não é nenhuma "obra prima" como insistem em hypá-lo, mas Cisne Negro sai do lugar comum. Há outros exemplos por aí de diretores que levaram suas atrizes ao extremo como Polanski/Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (Repulsion, 65) e Truffaut/Isabele Adjani em A História de Adele H (L'histoire d'Adèle H, 75), para ficar em apenas dois exemplos, mas o ritmo crescente da destruição da mente de Nina culminando no clímax catártico durante a apresentação de balé não deixa nada a desejar aos grandes mestres.


A
Black Swan (Daren Aronofsky, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (Box Cinema)
Sítio Oficial: foxsearchlight.com/blackswan

ALÉM DA VIDA

O que há "além daqui"?


Em Além da Vida, Mr. Eastwood procura responder à pergunta que mais intriga a humanidade desde que ela tomou consciência de sua mortalidade: o que acontece quando morremos? Dessa forma, somos apresentados a três personagens, um médium estadunidense que considera o seu "dom" uma maldição, uma jornalista francesa que sobreviveu à tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 e um garoto inglês, que não suporta a vida após a morte de seu irmão gêmeo.


Como ocorre normalmente em um filme de histórias que ocorrem em locais dispersos, nem todas as três têm o mesmo ritmo. Pessoalmente, fiquei menos interessado pela história do menino, fiquei indiferente ao drama do médium e só queria saber sobre as descobertas da jornalista francesa. Identificação pura e simples. Infelizmente, é apenas na dor que encontramos a motivação suficiente para mudarmos. Uns partem para fé pura e simples, entram na "zona de conforto" e se esquecem. Como ela, eu saí pesquisando. Encontrei muitas das respostas que buscava, que trouxeram ainda mais perguntas (que estão longe de serem respondidas). Marie Lelay, recebeu o seu chamado para o despertar e por mais que ela tentasse levar a mesma vida que levava antes (e como ela tentou!), não conseguiu (é impossível voltar). Ela precisava descobrir o que tinha acontecido. Ela, conscientemente -- e racionalmente -- fez o seu tratado de fé. Uma fé consciente, que com o passar do tempo passa a ser verdade absoluta, que te leva a uma paz interior inexplicável.

Paz que George Lonegan nunca mais teve depois de sua doença no cérebro quando ainda era criança. Ele fez uma opção: ou tomava pílulas e vivia como um vegetal o resto da vida, ou tentava conviver com a conexão com "o além". Numa cena chave, ele diz tudo: "às vezes, é bom não saber toda a verdade sobre os outros". No mundo espiritual, fora desse envoltório grosseiro que temos, a consciência é o juiz que tudo sabe. Quando nos depararmos com ela em nosso juízo final, precisamos estar preparados para o arrependimento que, fatalmente, virá. Enquanto isso, George ainda precisa aprender a conviver com a sua (autodenominada) maldição, que lhe afasta das pessoas e o obriga a ter uma vida solitária e proletária. (Caso você se interesse em saber, pode ser sim considerada maldição, pois todos temos capacidade mediúnica, basta treinarmos; aqueles que tem uma mediunidade forte, têm uma dívida muito forte com a espiritualidade e ela vem para ajudá-los a saldarem essa dívida rapidamente).

Já Marcus, apesar de protagonizar o segmento mais dramático de todos, sai desesperadamente atrás de respostas. No meio do caminho, ele depara com todos os tipos de charlatães que exploram a fé alheia e só consegue paz quando, perto do fim (não se preocupe, não é spoiler), todos os três se reúnem numa feira de livros em Londres. Pode chamar de acaso/coincidência, mas, citando um outro inglês, há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Na minha modesta opinião, o que tiver que ser, é.

O saldo final é que Mr. Eastwood não deixa nada mastigado. Ele, no mínimo, planta a semente da dúvida ao trazer o tema ao debate. Cabe a você decidir o que fazer. E olha que ele nem precisou mencionar Deus em nenhum momento do filme.


A
Hereafter (Clint Eastwood, EUA, 2010)
Quando: Janeiro/11 (Box Guararapes)

NOSSO LAR

Porque eu acredito.


Nosso Lar, o filme, é baseado numa obra psicografada por Chico Xavier e narra a trajetória e as impressões do médico André Luiz sobre a vida após o desencarne. É preciso deixar isso bem claro: você não é obrigado a acreditar. Nem é obrigado a aceitar cegamente, pois, repetindo, tudo o que é visto é de acordo com as impressões do médico André Luiz, um espírito sujeito a falhas como eu e você. Nesse sentido, não é doutrinário (a doutrina espírita é apenas os 5 livros codificados por Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno e O Evangelho Segundo o Espiritismo) e muito menos panfletário. É apenas uma história como outra qualquer de acordo com o ponto de vista de alguém escrita para fins de divulgação. "Uma obra de ficção"? Não necessariamente. Prefiro dar-lhe o benefício da dúvida.

Sobre a parte técnica, ou seja, enquanto obra cinematográfica, Nosso Lar é muito ruim. Apesar de super bem produzido (não fazem a menor questão de esconder que foram torrados R$ 20 milhões), falta coesão. Parece mais uma colcha de retalhos ajuntada do que um roteiro com começo, meio e fim.

Extremamente didático em muitos pontos e extremamente truncado em tantos outros, dizem que o objetivo era divulgar uma lição de vida para todas as pessoas, mas o resultado final será completamente diferente. A mensagem acabará dirigida apenas aos que acreditam e que têm alguma iniciação no assunto e nem a melhor política de marketing será capaz de ajudá-lo (apesar dos recordes de público). Culpa do roteirista-e-diretor que tinha um história riquíssima nas mãos e se mostrou incapaz de mostrá-la além dos lugares comuns.

Você acha que André Luiz foi parar no umbral por causa de uma vida frívola e “pecaminosa”? Errado. Ele foi parar lá porque ele se suicidou inconscientemente, pois ele fumou, bebeu e comeu em excesso a vida inteira e morreu em decorrência desses excessos antes do programado. A sobrinha de Lísias passou pouco tempo no mesmo umbral (pois a hora programada dela tinha chegado), mas ela se recusava a acreditar (ou se desvencilhar da matéria, como queiram). Foi por isso que ela voltou ao umbral. Enfim, resumir todas essas implicações em um parágrafo não é fácil e acredito que o roteiro não deve ter sido de fácil elaboração, mas eu tenho medo de cineastas-e-roteiristas. Apenas alguns poucos conseguem ser bons nas duas áreas. Custava uns 30 segundos de didatismo sobre o suicídio de André Luiz? Mais um pouco não faria tanta diferença.

Meu primeiro contato com Nosso Lar, o livro, aconteceu há 3 ou 4 anos, após mais uma reprise da novela A Viagem (que é baseada no livro e que eu vi pela primeira vez). Comecei a leitura por pura curiosidade. Achei engraçado toda a burocracia ("bônus-hora", ministro disso, ministro daquilo, hora para isso, hora para aquilo etc), mas hoje eu entendo os vários porquês, que no filme são apenas jogados ao vento e, uma vez ditos, nunca são retomados. Só para tentar esclarecer sem entrar em muitos detalhes: sabe aquela história de gravidez não planejada? É balela. Você escolheu seus pais, eles te escolheram e todos concordaram com o momento exato da fecundação. Antes de reencarnar, o espírito programa toda a sua vida. Não necessariamente vai acontecer conforme a programação, pois todos estamos sujeitos ao livre arbítrio dos demais, mas já está tudo previamente estabelecido e para gerenciar tudo isso, é preciso uma estrutura organizacional e trabalho, muito trabalho. Se você acha que você trabalha muito por aqui, nem queira saber quando chegar lá "em cima".

Que não é "fisicamente" a tantos kms da crosta terrestra. As colônias espirituais estão em outra dimensão e não vou tentar explicar, pois essa parte eu ainda não entendi direito. Quero apenas fazer um último esclarecimento: o espírito é energia (que está contida na materialidade do corpo). Ele não precisa se alimentar (a sopinha e a água só existem porque você se habitou a comer para alimentar o seu corpo e a transição matéria/energia não é fácil, o cache de sua memória ram não é imediatamente apagado). Já que é energia,  pode assumir a forma que quiser (apesar de que, logo após o desencarne, o espírito dificilmente conseguirá assumir outra forma senão aquela a qual ele está "acostumado") e de "trocar fluídos" (a luzinha verde).

São outras leis que regem o plano espiritual. Leis que não temos a menor condição de compreender com os conceitos que temos a mão aqui nesse plano de existência. Podemos apenas ter alguma noção a respeito. Essa é falha mais gritante do filme. Ele toma tudo como verdade e quer que o público cético aceite sem maiores explicações. Eu me incomodei com as atuações amadoras de muitos atores e as soluções gráficas e de roteiro extremamente simplistas para vários aspectos (mas gostei dos diálogos). Aquele umbral light (no livro é muito mais pesado) só não é pior do que aquele subúrbio carioca de cores berrantes ou a forma com que caracterizou a descrença da sobrinha de Lísias. Ela não foi resgatada pela segunda vez do umbral "porque rezou e se arrependeu". O resgate ocorreu no momento em que ela finalmente tomou consciência.

Eu só lamento a péssima qualidade do filme, mas se ele servir para o despertar de meia dúzia, já vai ter valido a pena. O correto não é "nunca é tarde para se recomeçar" (simplista!), mas sim "cedo ou tarde, você vai despertar". Ficou curioso? Leia o livro, não deve custar mais do que R$ 20. A história de Nosso Lar, o livro, é linda e muito mais rica do que a mostrada no filme (como toda adaptação livro-cinema). Ficou mais curioso ainda? Compre outro livro ou pesquise na internet, informação é o que não falta. Quando você se sentir preparado, passe para um dos 5 livros doutrinários (mas só se você se sentir preparado, pois eles não são de fácil leitura).

Sobre a falta de clímax para a história, volto ao debate crentes x céticos (usado apenas para contrapor um ao outro). Reconheço que o roteiro falha ao se resumir a uma mera descrição (por si só, falha) e que se você não "comprar a ideia", a história será enfadonha, mas na minha percepção, houve vários clímax. Vários. Foram tantos que eu nem senti as 2h da projeção passarem e apenas comecei a lamentar quando tomei consciência que o filme se encaminhava para o fim. Uma pena.

E que foi difícil sair da sala do cinema, ah, isso foi.

Nota (Dez/11): Um ano e quatro meses depois de ter visto esse filme, minha persepção do mundo mudou bastante, mas preferi não alterar o que escrevi. Se fosse assim, daqui um ano terei que voltar para alterar, pois se há algo nessa vida da qual tenho certeza absoluta é que não há verdades absolutas. Tudo muda. Ainda bem!


A
Nosso Lar (Wagner Assis, BRA, 2010)
Quando: Setembro/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: nossolarofilme.com.br

AS NOITES DE CABIRIA

Inocência.


Só mesmo um diretor como Fellini e a colaboração de um Pasolini no roteiro para transformarem esse tratado sobre a tragédia humana em comédia. Cabiria é uma prostituta em Roma que só leva cacetada na vida. Uma após a outra, após a outra, após a outra... mas ela sempre recupera suas forças e se levanta. Pode demorar, mas ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, ela vai voltar a sorrir, pois apesar de, fisicamente, aparentar quase 40 anos, ela ainda conserva dentro si aquela garotinha de 18 anos com cabelos negros e compridos que ia todo domingo à missa com a mãe.


Ela é atirada num rio por uns míseros trocados, é usada, é exposta ao ridículo num show de hipnotismo e é enganada por um charlatão que a conhece no show, mas mesmo assim, ela se recusa a aceitar a crueldade e a sordidez humana e volta a acreditar.

E aquela cena final? Não foi apenas Cabíria que chorou naquela cena final.


A
Le Notti di Cabiria (Frederico Fellini, ITA, 1957)
Quando: Agosto/2010 (Cine São Luiz)
Sítio Oficial: ficha imdb

MILK

Documento verdade



O mais perturbador em Milk é saber que, apesar de estarmos 30 anos “a frente” de seu tempo, quase nada mudou em relação ao modo como a sociedade encara os homossexuais. No tempo do politicamente correto (e o medo de ser “incorreto”), o mantra é ”temos que respeitá-los”, sem se dar conta que a frase em si já diz tudo com a parte implícita do “apesar deles serem homossexuais”.

Harvey Milk era um simples contador quando chegou aos 40 e se deu conta que não tinha realizado nada até então. Pediu demissão, virou hippie e viajou o país com o seu namorado até se estabelecer na Rua Castro, em São Francisco. De repente, ele se viu como uma espécie de líder entre os homossexuais da região e, naturalmente, acabou se candidatando a uma vaga de conselheiro da cidade (acho que deve ser uma espécie de vereador). Perdeu 3 ou 4 eleições até que, em 1978, ele conseguiu se eleger. Antes do ano terminar, foi morto a tiros por um de seus colegas conselheiros.

É uma cine-biografia clássica, sem muitos sobressaldos, com o tempo praticamente linear dos fatos, exceção feita ao “testamento” gravado que é intercalado nos momentos de elipses. Está longe de ser um estupendo Gus Van Sant, mas o seu tom panfletário é no ponto certo, te instando a tirar a bunda da cadeira para tentar fazer alguma coisa para mudar a mentalidade tacanha do mundo.

Outro fato interessante são as imagens reais da época, principalmente daquela Miss-cantora-evangélica-etc do EUA e sua campanha contra os homossexuais. Na década de 1970 eles queriam que os professores homossexuais fossem demitidos. Felizmente, essa proposta não foi aprovada, porém, ano passado, os mesmos californianos disseram não ao casamento de homossexuais.


A
Milk (Gus Van Saint, EUA, 2008)
Quando: Fevereiro/09 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: ficha imdb

CÃO SEM DONO

Pelo direito de ser feliz.




Infelizmente, perdi esse filme no cinema, o que é realmente uma pena, pois o mesmo filme pode ser completamente diferente dependendo da maneira como você o vê. No computador ou na TV você dificilmente consegue prestar atenção total a um filme, pois fica mais fácil ir ao banheiro, um telefonema facilmente te atrapalha, a fome parece que nunca acaba, enfim, na sala escura, você se preparou, saiu da sua casa, sentou num lugar estranho e, se deixarem, você ficará 100% ligado em cada imagem que aparecer na telona.

Mesmo querendo muito assistí-lo há quase um ano, não acreditava no que estava vendo. Estava morrendo de tédio! Os pontos-mortos e o filme, aparentemente sobre o nada, já tinham torrado minha paciência... até que num dado momento, não sei exatamente qual, fui capturado. A partir desse ponto, fiquei hipnotizado e num crescente estado de emoções conflitantes até o final, esperançoso e aparentemente feliz, mas não sem muita desgraça até ele.

Ciro é um cara que vive para dormir, comer, beber e transar sem qualquer plano para o futuro. É tradutor de russo, portanto, não tem dinheiro para porra nenhuma, dependendo, aos 32 anos, dos pais para comer, beber, pagar o aluguel, transar.... até que conhece Marcela, que fica pouco tempo em sua vida, pois ela descobre que tem câncer e se afasta dele. Num dado momento, há a mudança de atitude de Ciro para com a vida. A sucessão de cenas fortes te esbofeteia de tempos em tempos, para te jogar no chão e te fazer se sentir um lixo (caso você se identifique com o personagem principal, claro).

É complicado terminar essa resenha, pois até agora não digeri direito o filme, que me trouxe tanto sentimentos bons quanto ruins, de coisas que eu percebo estarem erradas na minha vida, mas que, assim como Ciro em boa parte do filme, sou incapaz de resolvê-los.


A+
Cão sem Dono
(Beto Brant e Renato Ciasca, BRA, 2007)
Quando: Agosto/08 (DVD)
Sítio Oficial:
dramafilmes.com.br/caosemdono

HOMEM DE FERRO

O despertar do herói


Quando era adolescente, eu até que gostava das histórias em quadrinhos do Homem de Ferro, mas infelizmente elas não eram publicadas com tanta freqüência. Tempos depois, fiquei sabendo que, na verdade, elas não eram publicadas porque a imensa maioria delas era de uma qualidade sofrível, salvando-se apenas um ou outro arco.

Por esse motivo, Tony Stark nunca foi tão popular no Universo Marvel, apesar de contar com a característica básica de todos os super-heróis da editora: um homem comum como eu e você que possui os seus defeitos. No caso dele, o defeito é o alcoolismo, o cinismo e um problema no coração causado por estilhaços de bombas. Ele não foi mordido por uma aranha radioativa e muito menos foi exposto a raios gama ou estelares, ele apenas usou o intelecto privilegiado para criar um brinquedinho: uma armadura.

É um filme sobre a construção do “herói”, no sentido torto mesmo da palavra, pois ele tanto ajuda a libertar uma vila de seus opressores, como entrega o chefe dos vilões para a turba poder fazer sua própria justiça. A passagem do alcoólatra sem consciência no poder de destruição de suas armas para o guerreiro enlatado é feita pausadamente e toma praticamente o filme todo. O que poderia ser enfadonho, pois só há 3 cenas de ação ao longo do filme todo (sendo que a última, o suposto clímax, é a pior de todas), é bem trabalhado e conta sobretudo com a empatia de Robert Downey Jr. e Gwynith Paltrow, que estão ótimos em cena.

De repente, as mais de duas horas de filme acabam e você fica com aquele gostinho de quero mais na cabeça, o que comprova que esse é um ótimo entretenimento.


A
Iron Man (Jon Favreau, EUA, 2008)
Quando: Maio/08 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: ironmanmovie.com

SENHORES DO CRIME

Mesmo um Cronemberg mediano está acima da média do resto.


O maior "pecado" de Senhores do Crime foi ter sido lançado depois de Marcas da Violência (05). O fato dos dois filmes terem o mesmo protagonista não ajuda, mas enquanto que naquele filme, Viggo Mortensen era o lobo se esforçando para ser um cordeiro, nesse aqui ele encarna com perfeição um dos personagens mais dúbios do cinema. Dúbio no sentido de que você só pensa ter chegado à uma conclusão sobre o verdadeiro caráter dele perto do final do filme, mas mesmo assim você não colocaria a sua mão no fogo por ele. Ou colocaria?

Esqueça o bebê, esqueça Naomi Watts totalmente apagada e se você acha que esse filme é apenas "aquele da luta na sauna", então você não entendeu nada mesmo. Reveja e comprove: o filme é Nikolai e o resto.


AEastern Promises (David Cronemberg, EUA/UK/CAN, 2007)
Quando: Fevereiro/07 (UCI Recife)
Sítio Oficial: focusfeatures.com/easternpromises

MARIA

Sobre acreditar.


Para muitos, esse é aquele filme em que a atriz que interpreta Maria Madalena em um filme surta e passa a viver como ela em Jerusalém.

Errado.

Há vários temas dentro desse filme, mas aquele que captou minha atenção e me magnetizou até o final foi : Você sabe por que Jesus Cristo foi crucificado?

Era para eu ter visto esse filme antes, em setembro ou em outubro, quando ele entrou em cartaz aqui no Recife, mas não pude ir. Me penitenciei muito por isso. Agora, posso dizer que para o meu próprio bem, só pude vê-lo no último dia do ano, pouco antes da queima dos fogos e vi um filme que poucos viram. Poucos prestaram atenção no personagem de Forest Withaker, o entrevistador da tv que está fazendo uma série de programas sobre Jesus Cristo, dando voz a todas as religiões.

Seu personagem é o que podemos chamar de "pecador" (entre aspas porque eu não acredito em pecado). Trai a mulher, lhe dá pouca atenção às vésperas do nascimento do filho, faz acordos "escusos" para ter o que quer.... até que a sua mulher entra em trabalho de parto antes do previsto, entra em coma e o seu filho está entre a vida e a morte numa encubadora.

É nesse momento que ele presencia a queda. É após esse momento que ele finalmente entende o que significa a crucificação de Cristo. Sobre alguém abrir mão da sua própria vida em favor de outro. Chegamos ao clímax do filme. Theodore Younger, na busca de um milagre para seu filho e sua esposa, passa a acreditar.

E nisso, Marie, toda contente com sua nova espiritualidade, participa de um ritual judeu e quase nem se abala com um atentado palestino na hora de uma oração.

Se eu tivesse visto esse filme nos cinemas, tenho certeza que não teria captado nem a metade de tudo isso (e pode ter certeza, aqui eu não abordei nem 10% da discussão que o filme traz à tona).

Um filme que vale muito a pena ver para poder discutr internamente qual a sua fé.


AMaria (Abel Ferrara, ITA/FRA/EUA, 2006)
Quando: 31/12/07 (DVD)
Sítio Oficial: mary-lefilm.com

ENCANTADA

Para quem acredita no "e viveram felizes para sempre".


Não estava interessado em ver esse filme, mas críticas favoráveis que começaram a apontar para um bom filme e que mereceu quatro estrelas e meia de um crítico que respeito me fizeram lhe dar uma chance (a alternativa era A Bússula de Ouro, que recebeu 2 estrelas pelo mesmo crítico e do qual eu quero passar reto!).

O início é em desenho animado 2D com o clichê básico da Disney: o príncipe encantado salva a princesa indefesa (que já tinha feito um número musical com seus amiguinhos, os bichinhos da floresta) de um ogro. Depois de fazerem um dueto musical, estão prestes a celebrar seu casamento quando a rainha má (e madrasta do príncipe), que não vê essa união com bons olhos, entra em cena. Transformando-se em uma velhinha indefesa, joga a princesa Giselle em um poço que a leva à Nova York "real". O príncipe Edward vem ao seu socorro, mas nesse meio tempo ela aprende um pouco como é a "realidade real" do "mundo real" com Robert e sua filhinha. Ele não acredita em finais felizes, já que é um advogado especializado em separações judiciais não-amigáveis, mas ela acredita cegamente em contos de fadas (crianças....).

A princípio, um conto de fadas tradicional com o final feliz do "e viveram felizes para sempre", mas o diferencial está no conteúdo com um subtexto é poderosíssimo: será que contos de fadas estão confinados aos desenhos animados ou eles podem existir na nossa realidade?

O filme é totalmente previsível, pois há o espelho mágico, a maçã envenenada, o beijo de amor verdadeiro, a madrasta má, a luta contra o dragão no "penhasco" (licença poética para descrever o edifício alto), o anão Zangado (bom... pelo menos era um anão irritado), animais ajudando nas tarefas domésticas e os intermináveis números musicais, que estão perfeitamente inseridos na trama. Porém, se você acredita ou acreditou um dia em contos de fadas, que se dane a previsibilidade. Vá com a mente aberta e se delicie com um filme pipoca realmente voltado para todas as idades.



Os personagens estão perfeitamente sintonizados com o filme. Você nem se lembra que Patrick Dempsey (Robert) já foi astro de comédias para adolescentes no final dos anos 80 e início dos 90, que James Marsden (o príncipe) um dia foi o insípido Ciclope dos X-Men e Susan Sarandon... bem... Susan Sarandon é Susan Sarandon, mesmo como uma Rainha Má, Espaçosa e Vingativa (palavras dela...). Por último, e o mais importante, Amy Adams realmente convence no papel da princesa ingênua que acredita em contos de fadas, vive cantarolando, saltitando e fazendo vestidos com as cortinas e os tapetes da casa de Robert.


A
Enchanted (Kevin Lima, EUA, 2007)
Quando:
Dezembro/07 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: enchantedmovie.com

PLANETA TERROR

A primeira parte do projeto Grindhouse


Grindhouse é o termo normalmente utilizado para designar sessões duplas em cinemas fuleiros com filmes igualmente fuleiros do gênero "exploitation", que é composto por vários sub-gêneros que podem ser vistos no site oficial do projeto capitaneado por Tarantino & Rodriguez. Eles quiseram prestar uma homenagem ao gênero e fizeram, cada um, um filme que originalmente seria apresentados na mesma sessão que teria 4 trailers falsos de supostos filmes de exploitation entre os dois. O fracasso em terras estadunidenses fez com que os filmes fossem separados e, enquanto aguardamos a chegada de À Prova de Morte (07), temos que nos contentar apenas com a primeira metade do projeto.

Planeta Terror presta homenagem especificamente aos filmes de zumbis e filmes b de ficção científica, contanto a história de uma cidadezinha perdida no interior dos EUA (muito provavelmente no Texas) que teve a infelicidade de ter uma base militar onde era estocado um perigoso gás tóxico por perto. Shit happens e esse gás acaba na atmosfera, fazendo com que os habitantes da cidade sejam transformados em zumbis com exceção de alguns, que possuem uma imunidade natural.

Uma dessas pessoas é Cherry, uma ex-go go girl que abre o filme numa dança para lá de sensual (a música também é contagiante...). Ela encontra com seu ex-namorado, El Wray, numa lanchonete de beira de estrada e os dois partem... até que atropelam uma "coisa". Outra "coisa" pega Cherry e come parte de sua perna e, levada ao hospital, tem o que resta da sua perna amputada. No auge da "crise", o hospital é tomado pelos zumbis e ela foge de lá com seu ex e a ajuda de uma perna de mesa. Daí é um passo para que ambos decidam colocar a metralhadora em sua perna.

Só por Cherry e sua perna-metralhadora, o filme valeria a pena, mas a galeria de personagens bizarros ainda conta com Dakota, uma médica que larga o marido, também médico e psicótico, por outra mulher; o Sayid (de Lost), que interpreta um cientista que busca achar a cura do gás e que coleciona as bolas de seus desafetos; o churrasqueiro J.T. e sua busca pelo molho perfeito e por aí vai. Até mesmo as babás são interessantes (os personagens!) além do próprio Tarantino, que faz uma ponta e que não sai inteiro do filme (veja e confira o que eu quis dizer).


A
Planet Terror (Robert Rodriguez, EUA, 2007)
Quando: Novembro/07 (Box Guararapes)
Site Oficial: planetaterror.com.br

ORGULHO E PRECONCEITO

Elas só querem, só pensam em se casarem.



Apesar de ser homem, eu gosto dos romances de Jane Austin. Nesse, que pode ser considerado o "pai" das comédias românticas (pois foi escrito no final do século XVIII), temos o caso clássico de um homem (Sr. Darcy) e uma mulher (Elizabeth) que as circunstâncias farão de tudo para separá-los até o final, quando eles finalmente descobrirão que foram feitos um para o outro, trocarão juras de amor eterno e prometerão viverem felizes para sempre.

O filme começa bobinho, com a sra. Bennet fazendo de tudo para que as suas cinco filhas se casem o mais rápido possível. Elizabeth, a segunda mais velha, não parece muito empolgada com a história, ao contrário, principalmente, de suas irmãs mais novas, que não pensam em outra coisa.

O primeiro baile acontece e a srta. Bennet mais velha, Jane, consegue se enamorar com o rico e meio atrapalhado Sr. Bigley. Elizabeth tenta puxar conversa com o melhor amigo dele, o Sr. Darcy, mas o esnobe aristocrata nem faz o esforço de tentar ser amável. O ódio ainda não está pronto, ele crescerá ao longo do filme.

Num dado momento, o Sr. Darcy finalmente consegue descer do pedestal, mas o ódio de Elizabeth por ele o arrasa. O tempo passa e, aos poucos, todos descobrimos porque numa recente pesquisa entre as súditas de Sua Majestade, ele ficou com o primeiro lugar como o homem ideal para se casar. Tanto que ele consegue até mesmo domar a "rebelde" Elizabeth Bennet.


A
Pride and Prejudice (Joe Wright, ING, 2005)
Quando: setembro/07 (DVD)
Site Oficial: prideandprejudicemovie.net

O HOSPEDEIRO

Um tapa com luva de pelica ao imperialismo americano (entre outras críticas).


O início do filme já mostra muito do que se pode esperar até o seu final, com um pesquisador estadunidense ordenando que o seu subalterno jogue dezenas de frascos de um líqüido extremamente tóxico no ralo da pia. O subalterno tenta convencê-lo do contrário, pois isso levaria o líqüido para o rio Han, que corta Seul, e causaria um desastre ecológico. Mesmo assim, o líqüido é despejado.

Na segunda cena, temos a primeira menção ao aparecimento de um "bicho estranho", com várias caudas, quando ele é capturado ainda como um pequeno lambari pela caneca de um pescador, mas é devolvido ao rio.

Na terceira cena, somos apresentados aos protagonistas da história e ao seu herói/anti-herói, um dorminhoco e meio abobalhado, ou seja, se esse fosse um filme indie, ele seria o perfeito looser. Ele, sua filha e seu pai moram e trabalham num trailer às margens do rio Han. Nesse belo dia ensolarado já temos, de sopetão, o primeiro ataque do monstro, que faz uma verdadeira carnificina no parque, levando consigo, Hyun-seo, a filha de Kang-du Park, o nosso herói/anti-herói.

Todos que estavam no parque são isolados em quarentena, pois acredita-se que ele seja o hospedeiro de um vírus que havia matado um "bravo soldado estadunidense em férias". Nesse tipo de hospital, Kang-du recebe uma ligação de Hyun-seo, dizendo que ela estava numa espécie de esgoto. Como ninguém quer escutar o que um "louco em estado de choque" tem a dizer, Kang-du, seu pai, seu irmão, um universitário desempregado que havia participado de protestos contra o governo no passado e sua irmã, uma bem-sucedida arqueira olímpica, resolvem escapar desse confinamento para salvarem a menina.

É um filme político, com pesadasíssimas críticas aos Estados Unidos. É um filme-família, mesmo sendo de uma família meio "capenga", mas que se une para salvar a mais indefesa entre eles. É um filme cômico, com diversas "tiradas" engraçadas para quebrar a tensão. E é um filme de monstro, com um monstro simplesmente espetacular, bem concebido e bem feito, que protagoniza cenas angustiantes.


A
Gwoemul (Joo-ho Bong, Coréia do Sul, 2006)
Quando: Julho/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: hostmovie.com

A FESTA NUNCA TERMINA

A cena musical de Manchester do final dos ano 70 a início dos anos 90.


O filme começa com o primeiro show dos Sex Pistols em Manchester. A esse evento histórico, compareceram apenas 40 testemunhas e, entre esses poucos privilegiados, havia os que tempos depois formaria o Joy Division, o Simply Red e o Duritti Collum. Havia também Tony Wilson, um apresentador da TV britânica que montaria um selo musical juntamente com seus amigos, a Factory Records.

O Joy Division se torna a primeira e mais rentável aquisição da Factory Records. O sucesso é tão grande que o seu vocalista e líder, Ian Curtis, se suicida. Os integrantes formam um novo grupo, o New Order. Surge Blue Monday. Novos grupos são lançados: Happy Mondays e James. Tony Wilson abre a Hacienda, o primeiro nightclub onde se toca a música eletrônica. Infelizmente, as pessoas se drogam tanto na Hacienda que não consomem, o que a leva à falência.

Mas a vida continua e a festa nunca termina. ;-)

Um dos melhores filmes (senão for "o" filme) sobre o Punk e Britpop. Altamente recomendado.


A
24 Hour Party People (Michael Winterbottom, ING/FRA, 2002)
Quando: Junho/07
Site Oficial: partypeoplemovie.com

VIDA DE SOLTEIRO

All my life / I'm waiting for somebody / Ah-ha-ha / come and take my hand


O filme tem início e Paul Westerberg já está cantando os versos acima, da belíssima "Waiting for Somebody", enquanto os créditos correm soltos pontuados por imagens de Seatle. Logo mais, o filme não terá nem mesmo 5 minutos e outra música entrará em cena. Pronto: estamos em mais um filme de Cameron Crowe.

Mas não é um filme qualquer. É um filme ambientado em Seatle, no início dos 90's. O que isso quer dizer? É o ápice de "Era Grunge": Screaming Trees, Soundgarden, Pearl Jam, Alice in Chains & Cia. Todas essas bandas estavam em seu auge nessa época e todas estão na trilha sonora do filme, que ainda conta ainda com Smashing Pumpkins e sofre a ausência lastimável da mais famosa banda dessa época, o Nirvana.

Dizem as más línguas que Kurt Colbain não gostou do filme, que conta basicamente a história de Janet e Steve. Eles já foram namorados, mas agora são apenas bons amigos e moram no mesmo pequeno condomínio. Steve, engenheiro de tráfego, acaba conhecendo Linda, que é uma politicamente correta em ecologia, numa boate e Janet, que trancou o curso e arquitetura e agora trabalha num bar, está saindo com Cliff, que mora no mesmo condomínio e tem quatro empregos diferentes, além de ser um rockstar wannabe (e tem como integrantes da sua banda, Eddie Veder, Stone Gossar e Jeff Ament, mais conhecidos quando estão tocando junto como uma tal banda chamada "Pearl Jam").

O enredo básico pode parecer bobinho, e é, mas lá encima eu já disse que esse era um filme de Cameron Crowe, ou seja, esses quatro personagens serão tão bem construídos e críveis que você vai se sentir como se eles fossem seus melhores amigos de infância antes da metade do filme e assim, você vai torcer por eles. Isso também se chama identificação. Seja com os personagens, seja com o tema, ao mesmo tempo particular e ao mesmo tempo universal: a busca de sua alma gêmea.

Caso ainda não tenha se convencido, basta dar uma olhada em quem eram essas quatro pessoas: Bridget Fonda (Janet), Campbell Scott (Steve), Kyra Sedgwick (Linda) e Matt Dillon (Cliff) no início de suas carreiras. Outro motivo é Tim Burton, que faz uma participação especialíssima como um videomaker que, dizem no filme, seria o próximo Scorcese.

Pode-se não gostar do filme, assim como Kurt Colbain, mas uma coisa é certa: quer saber o que foi a cena grunge? Assista a Singles e saberá. E também ficará na sua memória Linda visitando o apartamento de Steve pela primeira vez e passando os olhos no painel de fotos ao som de "Radio Song" (entre vários outros momentos, é claro).


A
Singles (Cameron Crowe, EUA, 1992)
Quando: Junho/07 (TV)
Site Oficial: ficha imdb

THE ROCKY HORROR PICTURE SHOW

Don't dream it, be it!


Susan Sarandon em seus vinte e poucos anos é Janet, que no início do filme pega o buquê da noiva num casamento, o que encoraja Brad a pedí-la em casamento. Numa noite chuvosa, os noivos estão em direção à casa de seu tutor, o Dr. Scott, mas pegam um caminho errado e têm um pneu furado. Na chuva, chegam ao castelo do Dr. Frank-N-Furter, o sweet tranvestite, irmão de Magenta e patrão do corcunda Riff-Raff e de Columbia, no meio de um encontro de gente estranha e esquisita (para Brad e Janet, claro). Eles só querem usar o telefone para pedir ajuda, mas são dissuadidos a ficarem mais um pouco para conhecerem a grande invenção do Dr. Furter, Rocky Horror, um loirão sarado e bronzeado. Após a apresentação, Brad e Janet são colocados em quartos separados, somente para que o Dr. Furter possa seduzí-los. Ele consegue com Brad, mas Janet foge e acaba ficando com Rocky, para desgosto de seu criador.

A história continua, mas ela não é o mais importante do filme. O que importa são os números musicais, bem coreografados e muito bem enquadrados que são essenciais para o desenvolvimento da história, originalmente um musical, que debuntou nos palcos em 1973, dois anos antes de ser filmado. Eles não quebram o ritmo da história e vão crescendo em tom até o final, melancólico. O filme acaba, mas não sem antes tirar Brad e Janet de seu "caretismo" e jogá-los em um outro mundo, na minha humilde opinião, muito mais colorido e vibrante.

Há de tudo um pouco nessa deliciosa salada subversiva: de filme de horror B à ficção científica. Há um mordomo corcunda, há extra-terrestres, há groopies, há transvestismo, há bissexualidade, há canibalismo, há xenofobia e há Meat Loaf!

O filme inicia-se com uma bocarra vermelha che-gay tomando a tela e cantando Science Fiction Double Fiction, passando pelo casamento onde Brad se declara à Janet com Dammit Janet. Já no castelo, todos passam pelo Time Warp, pela apresentação do Sweet Transvestide e pela promessa do Dr. Frank-N-Furter à Rocky Horror de que (ele) Can Make you (Rocky) a Man em apenas sete dias. A música é interrompiada por Meat Loaf (Eddie) perguntando a todos What Ever Happened to the Saturday Nigh? Um bom tempo depois, Susan Sarandon de sutiã e saia rasgada pede para Rocky Touch-a, Touch-a, Touch-a,Touch-me, pois ela que ser dirty. Depois que ela é pega "no flagra" com Rocky, Dr. Scott chega no castelo e há um banquete cujo prato principal é Eddie Teddy. Perto do final, há a apresentação teatral ao som de Rose Tint My World e Super-Heroes, quando o Dr. Frank-N-Furter percebe que está na hora de voltar para casa. Então, ele canta, melancolicamente, I'm Going Home pouco antes do seu trágico final.


A
(#100) The Rocky Horror Picture Show
(Jim Sharman, EUA, 1975)
Quando: Maio/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...