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O CAÇADOR DE PIPAS

Culpa e expiação.



Dizem que Marc Foster, é um manipulador. Disso, eu não tenho a menor dúvida. O problema é que eu deixo me levar e não fico com a menor dor na consciência por isso. Chorei copiosamente em Finding Neverland (04) e achei A Passagem (05) bastante intrigante, apesar de confuso. Já Mais Estranho que a Ficção (06), achei apenas "uma boa idéia".

Novamente, me deixei levar e chorei, ah... como chorei. Nem tanto quanto em Finding Neverland, que foi um verdadeiro dilúvio, mas lágrimas escorreram várias vezes dos meus olhos na história dos dois garotos afegãos, Amir e Hassan, que foram separados pelo ciúme do mais rico.

Amir tem tudo o que quer, mas é covarde até a alma. Hassan é filho do empregado e, portanto, também empregado na casa do pai de Amir, mas mesmo assim os dois brincam juntos e raramente se separam, até que um dia, num campeonato de "caçadores de pipas", Amir se sagra campeão e Hassan promete ir atrás da pipa do perdedor. No meio do caminho, ele encontra três meninos "do mal" que o curram pois ele se recusou a entregar a pipa que havia prometido ao seu patrão-amigo. A partir desse dia, Amir, que assistiu a tudo e não fez nada, faz de tudo para que Hassan vá embora de sua casa. Até que consegue.

Tempos depois, a então União Soviética invade o Afeganistão e Amir e seu pai fogem para os EUA. Mais algum tempo depois, os talibãs tomam o poder e Hassan morre. Porém, ele deixa um filho. Amir, então, volta ao Afeganistão para salvar o menino, que é mais do que "apenas" o filho de seu amigo.

Não li o livro e acho que nem quero ler. Se Marc Foster manipula imagens, Khaled Hosseini, o autor do best-seller homônimo, manipula o enredo de forma bem clichê. Não engoli facilmente as duas "viradas" que o enredo deu quando Amir voltou ao Afeganistão.


B+
The Kite Runner (Mark Foster, EUA, 2007)
Quando: Fevereiro/08 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: kiterunnermovie.com

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO

Uma discussão sobre controlar sua vida ou deixar que ela o controle.


Harold Crick tem uma vida ordinária. Todo-santo-dia ele conta quantas escovadas dá em seus dentes, pensa entre dar um ou dois nós em sua gravata em função do tempo que esse nó extra lhe tomará e sai de sua casa na mesma hora, com o mesmo café da manhã para pegar o mesmo ônibus. Todo-santo-dia. Ele não tem uma vida pessoal, não tem amigos e tem um emprego que todos que o conhecem passam a odiá-lo: é fiscal da receita federal encarregado de cobrar impostos de quem cai na malha fina.

Numa bela manhã, uma manhã como outra qualquer, com as mesmas escovadas de dentes e os mesmos passos de sua casa até o ônibus, ele se dá conta que há alguém narrando sua rotina diária como um personagem de um livro.

Intrigado, ele procura uma psicóloga, que o diagnostica como esquisofrênico e lhe prescreve remédios. Não satisfeito, ela indica um professor de literatura. A voz continua ressoando em sua cabeça nos momentos em que faz a mesma rotina de sempre até que ela lhe faz uma revelação bombástica: ele vai morrer. Em breve. Tão certo como todas as vezes em que ele folheia os processos arquivados e sente como se fosse a brisa do mar, ele vai morrer.

Nesse ponto, começa a discussão entre quem realmente está no controle de sua vida, ele mesmo ou a "voz do além". Ele tenta mudar, pois apesar de ter uma vida ordinária, banal e rotineira, ele não quer morrer. Aprende a tocar guitarra, vai ao cinema e se apaixona pela dona de uma confeitaria na qual ele é não é bem-vindo, pois está devassando suas contas em razão de "diferenças contábeis" entre o imposto pago e o imposto presumido.

Eventualmente, ele acaba conhecendo a narradora de seu dia-a-dia, a sumida (nas telonas) Emma Thompson, que fuma feito chaminé, só não o matou até aquele momento pois está tendo um bloqueio criativo e está à beira de um ataque de nervos (qualquer semelhança entre ela e seu livro e eu e minha tese é totalmente válida). Ela se dá conta que não está apenas escrevendo sobre um personagem ficcional, mas está ditando os rumos da vida de uma pessoa "real", no papel de "Deus".

Não sou crítico literário, mas eu sei que a chave de um bom livro é a empatia que seu(s) personagem(ns) criam com o leitor. Nesse filme, a empatia é entre criador e criatura, que passa a se preocupar com a forma que ela escreve sobre a vida de sua "criação". Essa mesma empatia ocorreu entre Harold Crick e esse signatário, que passou a não se conformar com o destino "cruel" e iminente. Mas justo agora que ele começou a mudar um pouco a sua rotina, tentou mudar e arranjou uma namorada? Por que ele tem que morrer?

Ele tem que morrer pois esse livro será a obra-prima de Karen Eiffel. Se ela mata ou não Harold Crick, você terá que ver esse filme para descobrir. Eu recomendo. Eu, particularmente não gostei do final, mas acho que o outro final possível (e mais lógico) seria ainda pior.


B
Stranger Than Ficction (Marc Forster, EUA, 2006)
Quando: março/07 (Multiplex Boa Vista)
Site Oficial: www.sonypictures.com/movies/strangerthanfiction

A PASSAGEM

"Os budistas sempre tiveram razão. O mundo é uma ilusão."


Impressionante como a bagagem humanista adquirida pode mudar completamente a leitura que a mesma pessoa faz da mesma obra cultural. O texto abaixo foi escrito há seis anos. Decidi mantê-lo intacto para poder contrapô-lo às conclusões nas quais cheguei após essa primeira revisão de A Passagem.

Dessa vez, a edição me incomodou um pouco, assim como alguns diálogos, mas a mensagem final é a que vale. Ela está lá em cima: é tudo uma grande ilusão. Você já sabe intuitivamente da verdade, mas você pode, conscientemente, decidir permanecer na ilusão. Porém, num determinado (e único) momento, a verdade é jogada na sua cara e aí é dado a você o livre arbítrio para aceitá-la ou continuar na ilusão. Caso você decida pela segunda alternativa, pode acontecer o que aconteceu com Henry, que recriou sua "realidade" a partir dos fragmentos daqueles últimos 5 minutos. Pode acontecer, pois quem disse que eu sou o dono da verdade? Para mim, o mundo é, realmente, uma grande ilusão e a vida de cada um é moldada de acordo com suas crenças. A minha, é essa. A sua, depende de suas experiências..

*

O que é real?

Já escutamos essa pergunta antes, em filmes como Matrix (99), Cidade dos Sonhos (01) e Vanilla Sky (01), por exemplo. Neste filme, ela é feita pelo perturbado Henry a seu novo psquiatra, Sam, que o aceita após o colapso nervoso de sua colega. Logo após, Henry confidencia que vai tentar se matar ao completar 21 anos, três dias depois. Isso pertuba Sam, pois seu caso é bem próximo ao de uma ex-paciente sua, Lila, que agora vive com ele.

Essa é a sinopse básica do filme e juntamente com o desejo de ver Naomi Watts e a esperança de que Ewan McGregor tivesse se recuperado como ator após seus últimos fiascos [A Vingança dos Sith (04) e A Ilha (05)] era tudo o que eu sabia antes de entrar na sala de cinema... atrasado de novo (deve ser alguma mandiga de alguém comigo e com o Multiplex do Mag Shopping).

Depois do realista A Última Ceia (02) e do fofinho Em Busca da Terra do Nunca (03), Marc Forster engrenou um caminho ultra-perigoso: um filme cabeça. Ou melhor, um filme quebra-cabeça, pois as peças estão todas lá para quem se dispuser a pescá-las e montá-las.

Infelizmente, como Marc Forster não é nenhum David Lynch, há uma sucessão de eventos surreais, "premonições" certeiras, confusão entre sonho/realidade & etc que vão se sucedendo até que na metade do filme você começa a se perguntar onde foi que você viu algo assim (algo do tipo "mamãe, eu falo com fantasmas"). Felizmente, a edição, a fotografia, o roteiro e a trilha sonora são excelentes e você se recusa a acreditar que está vendo a mesma história de O Sexto Sentido (99).

Num dado momento, você já está notando as pistas espalhadas pelo filme e elas começam a se juntar. Infelizmente, eu percebi tarde demais e mais da metade delas se perderam, mas eu consegui chegar à uma conclusão, que ficou mais clara na medida em que eu pesquisava na internet para escrever essa resenha.

Bem, essa é a hora em que eu previno que vou contar a minha impressão sobre o filme e que ela pode estragar a "viagem" de quem ainda não foi vê-lo. Eu avisei...

Henry realmente morreu naquele acidente, mas, quando estava sendo ajudado pelo médico (Sam) e a enfermeira (Lila), "viajou" toda a história do filme, montando-a com as pessoas que estavam presentes à sua volta. Ele recebeu os primeiro socorros de Jeanine Garofalo (que eu amo de paixão) e depois, a ajuda é transferida ao casal Sam/Lila. Ele estava confuso, pensando que ia morrer, por isso pediu ajuda ao psicólogo, de quem tinha como referência, as calças arriadas. Ele também se identifica com a enfermeira que tenta ajudá-lo, moldando para ela um passado e um presente próximo ao seu. A mãe, eu acredito que estava lá pois ele "pensava" que tinha matado todos no acidente, mas não tinha certeza. Quando teve, ela começou a sangrar, bem como a cegueira do pai, que passou a ver tempos depois. Quando ele começa a sangrar, depois que a cidade inteira para e começa a encará-lo, ele tomou consciência de que a hora dele tinha chegado. (P.S. de 2012: A mãe e a noiva de Henry estavam em suas próprias ilusões, assim como o pai, mas este último só até ser "curado" de sua cegueira).

O mais engraçado foi, saindo do cinema, escutar "rapaz, o cara fumou um beck pra fazer esse filme, eu não entendi foi nada".


B+
(mesma nota)
Stay (Marc Forster, EUA, 2005)
Quando: Janeiro/06 (Multiplex Mag Shopping) // (Revisão: Fevereiro/12)
Sítio Oficial: staythemovie.com
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