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O PRIMEIRO QUE DISSE

Seja o que você quiser ser, não o que esperam de você



A tradicionalíssima família Cantone possui uma fábrica de massas na cidade de Lecce, no sul da Itália. O patriarca da família, Vicenzo, decide passar o negócio ao filho mais velho, Antonio, durante um jantar, o que faz com que o mais novo, Tommaso, volte de Roma para a grande ocasião. Porém, Tommaso quer aproveitar a reunião familiar para contar a todos que é gay. Certo que será expulso de casa pelo pai homofóbico, não se importa, pois seu desejo é voltar a Roma para seguir seus planos como escritor e viver ao lado de seu namorado. Todo esse planejamento é frustrado por Antonio, que se revela gay antes, o que causa um infarto no pai e faz com que Tommaso seja obrigado a tomar o seu lugar na fábrica.


A excêntrica família Cantone ainda é formada pela matriarca, Stefania, mais preocupada com o que a cidade irá falar sobre a "condição" do filho do que tentar impedir que Vicenzo expulse Antonio de casa. Elena, a irmã, é uma dona de casa frustrada, mãe de duas crianças bem acima do peso e casada com um napolitano (para desgosto do patriarca). Luciana, é a "tia solteirona" alcoólatra que tem um amante misterioso (o qual sempre sai de seu quarto na calada da noite sob os gritos de "ladrão! ladrão!", só para manter as aparências). Para completar, há a avó, a única sem nome no roteiro, que assiste a tudo cansada da vida e sonhando acordada com o amor impossível que sentia pelo irmão de seu marido.

Como "agregados" há as duas empregadas da família, igualmente exóticas, a filha do sócio da fábrica, com a qual Tommaso se torna confidente e atraído num momento de carência e a amante de longa data do patriarca. É Fellini fazendo escola!

Infelizmente, há muitas falhas na condução do roteiro, que não se aprofunda em nada, deixa algumas histórias sem conclusão e não se decide se quer ser uma comédia ou um drama e da filmagem (os rodopios durante as cenas ao lado da mesa me deixaram tonto). Porém, não gosto de analisar um filme sobre a ótica do que ele podia ser. Particularmente, preferiria que a opção tivesse sido pelo drama, mas a intenção do roteirista/diretor é legítima e digna. Turco radicado na Itália e gay, é discriminado duplamente e, para quem quiser ver, ele deixa o seu recado para os homens, que esperam que seus filhos varões "comam" o maior número de mulheres possível para reafirmar as suas (dos pais) potências e para as mulheres, que julgam ser mais importante aparentar "normalidade" (você é bem sucedida na medida em que forma uma família "normal") do que se preocupar com a felicidade dos filhos.

Antonio sufocou sua sexualidade durante trinta anos para poder servir de exemplo para os pais. Tommaso, precisou fugir "para a cidade grande e cosmopolita" para se encontrar.

A todo momento, você pensa "é agora", Tommaso finalmente vai confrontar os seus pais e jogar merda no ventilador, mas fica sempre no quase. É a história de Antonio se repetindo, até que o seu namorado e mais três amigues extremamente caricatos chegam. Nessa hora, Tommaso precisa tomar a decisão, pois seus dois mundos (até então) excludentes estão em rota de colisão e boa coisa não deve sair daí. Nessa hora, enquanto todos da sala se acabavam de rir, eu ficava tenso, pois parecia que o jogo de aparências de Tommaso ruiria a qualquer momento. O filme, que costeava o alambrado do drama com alguns alívios cômicos aqui e ali descamba de vez para a comédia rasa. Mas os amigos vão embora e Tommaso decide finalmente confrontar os pais.

Apesar da superficialidade, O Primeiro que Disse é um filme panfletário. Ele toca na ferida da hipócrita sociedade latina (não só italiana, mas igualmente a brasileira, a hispânica, a francesa...). Acredito que "para atingir o grande público" o diretor/roteirista tenha feito muitas concessões, o que faz com que a maioria saia da sessão pensando que o filme é uma comédia. No entanto, lá no subconsciente, ele deixa plantado o seu recado.

E tem a cena final, belíssima, que analisarei na caixa de comentários, por conter spoilers.


B+
Mine Vaganti (Ferzan Ozpetek, ITA, 2010)
Quando: Abril/11 (Cine Rosa e Silva)
Sítio Oficial: minevaganti.net

COMO ESQUECER

... e recomeçar a viver?


Quando é chegado o momento de voltar a se relacionar com alguém? Como cicatrizar a ferida e deixar a amargura para trás? Vale a pena voltar para quem te abandonou quando você mais precisou dele? E a "viuvez"? É mais fácil do que um rompimento?

Antônia decide, unilateralmente, terminar seu relacionamento de 10 anos com Julia, que entra numa espiral depressiva-psicótica e só não surta pois seu melhor amigo, Hugo, que também passou por um processo de separação recente (só que no caso, a causa foi a morte de seu companheiro), decide se mudar para o seu apartamento para ajudá-la a superar sua dor. Para complicar a situação, Carmem Lygia, sua orientanda de mestrado, não para de se insinuar.

Para apagar o passado, Hugo decide que Júlia deve-se me mudar com ele e Lisa para uma casa no subúrbio. Lisa também está passando por maus momentos, pois seu namorado não aguentou a pressão de uma gravidez indesejada. Para completar o caldo, ainda há Helena, prima de Lisa, que decidiu pedir demissão de seu emprego na embaixada brasileira em Paris para morar no Rio e viver como artista plástica.

O filme começa feliz, com Julia segundo o olhar de Antônia em imagens gravadas em Londres (terra de Virgínia Wolf, entre outras autoras que serão citadas ao longo do filme). Corte. Numa sala escura, Julia queima fotos antigas. A amargura faz com que Julia afaste todos que tentam ajudá-la. Sua dor é muito grande e o seu desejo de autodestruição é forte. Numa cena-chave, ela se dá de cara com sua consciência. É o fundo do poço. Tempos depois, a mudança, quando Júlia decide pegar para criar um gato que miava embaixo de sua janela (quando a atitude esperada era que ela jogasse um tijolo no bichano).

Mesmo depois de superar o desejo de autodestruição, Julia ainda experimentará alegrias e tristezas até se permitir parar de olhar para trás. Hugo e Lisa também têm suas histórias resolvidas. Quer dizer.... resolvidas até aquele momento, pois a ninguém é revelado seu futuro de antemão. Uns são de correr riscos, outros, nem tanto. Quem somos nós para julgá-los?

Para finalizar, dois aspectos "superpositivos" sobre o filme: (1º) é um filme brasileiro produzido no eixo Rio-SP com atores globais que não só consegue fugir do estereótipo amorfo de comédias televisivas da Globo Filmes como faz com que não nos lembremos, por exemplo, que Murilo Rosa é o protagonista da atual novela da 6; e (2º) apesar de contar com a quase totalidade de personagens homossexuais, trata o seu tema de forma universal. Afinal de contas, a dor da separação (e a superação dessa dor) é a mesma, não importa sua orientação sexual.


B+
Como Esquecer (Malu de Martino, BRA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (Cinema da Fundação)

MILK

Documento verdade



O mais perturbador em Milk é saber que, apesar de estarmos 30 anos “a frente” de seu tempo, quase nada mudou em relação ao modo como a sociedade encara os homossexuais. No tempo do politicamente correto (e o medo de ser “incorreto”), o mantra é ”temos que respeitá-los”, sem se dar conta que a frase em si já diz tudo com a parte implícita do “apesar deles serem homossexuais”.

Harvey Milk era um simples contador quando chegou aos 40 e se deu conta que não tinha realizado nada até então. Pediu demissão, virou hippie e viajou o país com o seu namorado até se estabelecer na Rua Castro, em São Francisco. De repente, ele se viu como uma espécie de líder entre os homossexuais da região e, naturalmente, acabou se candidatando a uma vaga de conselheiro da cidade (acho que deve ser uma espécie de vereador). Perdeu 3 ou 4 eleições até que, em 1978, ele conseguiu se eleger. Antes do ano terminar, foi morto a tiros por um de seus colegas conselheiros.

É uma cine-biografia clássica, sem muitos sobressaldos, com o tempo praticamente linear dos fatos, exceção feita ao “testamento” gravado que é intercalado nos momentos de elipses. Está longe de ser um estupendo Gus Van Sant, mas o seu tom panfletário é no ponto certo, te instando a tirar a bunda da cadeira para tentar fazer alguma coisa para mudar a mentalidade tacanha do mundo.

Outro fato interessante são as imagens reais da época, principalmente daquela Miss-cantora-evangélica-etc do EUA e sua campanha contra os homossexuais. Na década de 1970 eles queriam que os professores homossexuais fossem demitidos. Felizmente, essa proposta não foi aprovada, porém, ano passado, os mesmos californianos disseram não ao casamento de homossexuais.


A
Milk (Gus Van Saint, EUA, 2008)
Quando: Fevereiro/09 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: ficha imdb

BABY LOVE

Como ser gay e tentar ser pai em Paris.


Manu quer ser pai. Phelippe, não. Quando Manu insiste na questão, chega ao fim a relação estável entre os dois. O plano inicial de Manu era adotar uma criança como um heterossexual solteiro, mas uma foto põe tudo a perder. Fina entra na história após um acidente de carro entre os três. Como Fina é uma argentina ilegal na França, depois que a estratégia da adoção dá errado, Manu propõe se casar com ela em troca de sua barriga para gerar seu filho. Leva um copo de vinho na cara. Mais tarde, Fina acaba cedendo, mas por outros motivos e não em troca do visto.

Claro que haverá muitas confusões até o nascimento da pequena Zélie nessa comédia "bobinha", típica de uma Sessão da Tarde e que me fez sair do cinema pensativo e emocionado em certos momentos. De certa forma, a história da adoção/criação de uma criança por homossexuais é apenas o pano de fundo da história, que é centrada no mais batido dos argumentos: o amor em suas mais diversas formas.


B+
Comme les Autres (Vincent Garenq, FRA, 2008)
Quando: Fevereiro/09 (Cine Rosa e Silva)
Sítio Oficial: marsdistribution.com/film/comme_les_autres

GONE, BUT NOT FORGOTTEN

Um tipo de Brokeback Mountain.


A sinopse do filme até que prometia, com algo do tipo "ele esqueceu tudo, mas encontrou o seu verdadeiro eu (e o amor) nas montanhas e blah, blah, blah". No final, tem-se um filme ruim, em vídeo e com "atores" crentes que estão atuando, mas que têm um talento inferior àquelas crianças que brincam de fazer peças nas escolas.

Um cara tenta se matar (na verdade, agora não lembro se ele tenta se matar ou tenta simular sua morte, mas quem se importa?), perde a memória, é socorrido pelo guarda florestal gay da região e vai morar com ele "para acelerar a sua recuperação". O frio da montanha faz com que os dois fiquem "próximos" e blah, blah, blah. Eventualmente ele acaba recuperando a memória e, claro, eis que surge "algo" para separá-los. O final, bem, não serei eu que o contarei. Repito: a premissa era interessantíssima, mas o resultado final, na minha opinião, é sofrível.


E
Gone, but not Forgotten (Michael D. Akers, EUA, 2003)
Quando: Março/08 (DivX)
Sítio Oficial: ficha imdb

XXY

Um filme sobre identidade.


Alex não é uma adolescente comum. A "menina" na foto aí encima nasceu com os órgãos sexuais dos dois sexos. Seus pais resolveram ignorar os conselhos dos médicos que queriam castrá-la(0) ao nascer e se mudaram de Buenos Aires para uma vila de pescadores no Uruguai.

Aos 15 anos, Alex está na fase de descobrimentos e quer transar. Para complicar/solucionar seus problemas, um casal de amigos dos seus pais se hospedam em sua casa. Um deles é médico e tem como objetivo convencer os pais de Alex que a operação de castração deve ser feita e o quanto antes, melhor. O caldo entorna quando junto do casal de médicos vem o filho adolescente deles.

Apesar de os pais de Alex terem visões diferentes sobre o "problema" (o pai quer deixar como está e a mãe quer torná-la "igual às outras meninas"), ela não é complexada com a sua "situação", diferente do filho do casal de amigos de seus pais, que nunca faz nada suficientemente bom para que o pai o considere especial.

Um filme interessantíssimo, mas que, ao terminar de vê-lo, você se pergunta "e daí?". Muito provavelmente eu não entendi direito a mensagem, ou talvez tenha entendido perfeitamente bem e não tenha digerido-a. Mesmo assim, esse é um filme altamente recomedável, já que não é todo dia que se vê um filme de um hermafrodita sem dramalhões.


B
XXY (Lucía Puenzo, ARG, 2007)
Quando: Dezembro/07 (DivX)
Sítio Oficial: xxylapelicula.puenzo.com

THE BUBBLE

Tragédia shakespeareana na Terra Santa.


A "bolha" do título é Tel-Aviv, a capital administrativa e a cidade mais cosmopolita de Israel. Algo como uma Nova York do Oriente. Entretanto, apesar de ser permeável ao "novo", a cidade não pode se desvencilhar totalmente da região e, por causa disso, sofre ataques terroristas de homens-bomba palestinos e tem entre seus habitantes os extremistas israelenses que gostariam de exterminar todos os árabes do planeta.

Nesse ambiente, surge o "amor" entre Noan e Ashraf. O primeiro, um ex-soldado da fronteira entre Israel e os territórios ocupados e esse último, um palestino. Eles se conhecem em mais uma das humilhantes revistas pelas quais os palestinos têm que passar para poderem entrar em Israel e acabam se apaixonando. Ashraf se muda para o apartamento que Noan divide com um casal de amigos e tudo está bem até que descobrem que ele é palestino em seu trabalho. Ele foge de volta para a sua cidade natal e fica por lá para o casamento da irmã.

Até aí, tudo bem, mas o caldo começa a entornar quando o colega de apartamento de Noan está num café que sofre um atentado de um homem-bomba e é seriamente ferido. Ashraf liga para ele para poder saber de notícias, mas Noan deliberadamente não atende.

Pouco tempo depois, a irmã de Ashraf é morta "acidentalmente" por uma bala "perdida" após uma incursão de soldados israelenses nos territórios ocupados. Noan fica sabendo e tenta ligar para Ashraf. Agora é a vez dele não atender ao telefone.

Agora vou falar do final. Se não quiser saber, pare por aqui.

Até o final do dia, instantaneamente, Ashraf virará um homem-bomba para vingar a morte da irmã, rumará a Tel-Aviv, mas encontra Noan no café que ele deveria explodir. Ele hesita e vai para o meio da rua. Noan o segue. Os dois explodem e morrem sozinhos.

Eytan Fox não acredita no amor entre gays e, pela segunda vez, mata seus protagonistas (se bem que em Yossi & Jagger, ele matou apenas um deles). Talvez ele quisesse passar a mensagem que nem mesmo o amor pode superar o ódio de ambos os lados, mas sei lá. Um pouco de fé na humanidade não faz mal a ninguém.


B
Ha-Buah (Eytan Fox, ISR, 2006)
Quando: Dezembro/07 (Cine Rosa e Silva)
Sitio Oficial: thebubble.msn.co.il/eng

RAINHAS

Mais um diretor espanhol pensando que é Almodóvar.


Espanha, 2004. O governo recém-eleito legaliza o casamento entre pares do mesmo sexo. Um filme político-simpatizante? Não... apenas uma "comédia de costumes" centrado nas mães dos jovens "noivos" que porventura são gays. Há uma ou outra crítica contra a parte da sociedade conservadora espanhola que os abomina, mas ela é acessória. A linha-mestra do roteiro é centrado nas "Rainhas". O filme é feito por e para elas.

É um bom entretenimento e não chega a decepcionar muito. Eu, particularmente, só fiquei decepcionado porque esperava algo mais militante. Até que ri bastante da "falta de noção" de algumas das rainhas, algo bem à la Almodóvar, mas havia um gosto de que algo estava errado. O efeito final é o mesmo que sinto todas as vezes que assisto a um filme de algum diretor espanhol que tenta fazer uma comédia kitsch e "fora do convencional". Eles tentam, mas dificilmente chegarão a ser, verdadeiramente, "um novo Almodóvar".


B-
Reinas (Manuel Gomez Pereira, ESP, 2005)
Quando: Agosto/07 (DVD)
Site Oficial: warnerbros.es/movies/reinas

THE ROCKY HORROR PICTURE SHOW

Don't dream it, be it!


Susan Sarandon em seus vinte e poucos anos é Janet, que no início do filme pega o buquê da noiva num casamento, o que encoraja Brad a pedí-la em casamento. Numa noite chuvosa, os noivos estão em direção à casa de seu tutor, o Dr. Scott, mas pegam um caminho errado e têm um pneu furado. Na chuva, chegam ao castelo do Dr. Frank-N-Furter, o sweet tranvestite, irmão de Magenta e patrão do corcunda Riff-Raff e de Columbia, no meio de um encontro de gente estranha e esquisita (para Brad e Janet, claro). Eles só querem usar o telefone para pedir ajuda, mas são dissuadidos a ficarem mais um pouco para conhecerem a grande invenção do Dr. Furter, Rocky Horror, um loirão sarado e bronzeado. Após a apresentação, Brad e Janet são colocados em quartos separados, somente para que o Dr. Furter possa seduzí-los. Ele consegue com Brad, mas Janet foge e acaba ficando com Rocky, para desgosto de seu criador.

A história continua, mas ela não é o mais importante do filme. O que importa são os números musicais, bem coreografados e muito bem enquadrados que são essenciais para o desenvolvimento da história, originalmente um musical, que debuntou nos palcos em 1973, dois anos antes de ser filmado. Eles não quebram o ritmo da história e vão crescendo em tom até o final, melancólico. O filme acaba, mas não sem antes tirar Brad e Janet de seu "caretismo" e jogá-los em um outro mundo, na minha humilde opinião, muito mais colorido e vibrante.

Há de tudo um pouco nessa deliciosa salada subversiva: de filme de horror B à ficção científica. Há um mordomo corcunda, há extra-terrestres, há groopies, há transvestismo, há bissexualidade, há canibalismo, há xenofobia e há Meat Loaf!

O filme inicia-se com uma bocarra vermelha che-gay tomando a tela e cantando Science Fiction Double Fiction, passando pelo casamento onde Brad se declara à Janet com Dammit Janet. Já no castelo, todos passam pelo Time Warp, pela apresentação do Sweet Transvestide e pela promessa do Dr. Frank-N-Furter à Rocky Horror de que (ele) Can Make you (Rocky) a Man em apenas sete dias. A música é interrompiada por Meat Loaf (Eddie) perguntando a todos What Ever Happened to the Saturday Nigh? Um bom tempo depois, Susan Sarandon de sutiã e saia rasgada pede para Rocky Touch-a, Touch-a, Touch-a,Touch-me, pois ela que ser dirty. Depois que ela é pega "no flagra" com Rocky, Dr. Scott chega no castelo e há um banquete cujo prato principal é Eddie Teddy. Perto do final, há a apresentação teatral ao som de Rose Tint My World e Super-Heroes, quando o Dr. Frank-N-Furter percebe que está na hora de voltar para casa. Então, ele canta, melancolicamente, I'm Going Home pouco antes do seu trágico final.


A
(#100) The Rocky Horror Picture Show
(Jim Sharman, EUA, 1975)
Quando: Maio/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

L @MOUR EST À RÉINVENTER

10 curtas sobre novas formas de amor GLS no tempo da AIDS


Et Alors? (E agora?) narra a história de duas lésbicas após um jantar. Chega a hora da despedida e enquanto uma das duas se mostra empolgada com a outra, essa outra se mostra reticente. Até o final do curta, descobriremos o porquê. Gostei. Um Moment... (Um Momento) é sobre o fogo de dois amantes (gays) que chegam ao apartamento de um deles. Num dado momento, o que será o ativo da história percebe que está sem camisinha, mas diz para si mesmo que só vai continuar só mais um pouco... só mais um pouco... só mais um pouco... até que eles chegam às vias de fato sem preservativo. O curta é filmado a partir da perspectiva desse que será o ativo da história e tanto esse "olhar" diferente como o enredo me agradaram.

Tout n'est pas en noir (Nem Tudo é Negro) mostra o que um namorado não faz pelo outro ao rodar a cidade inteira atrás de caviar negro para que seu companheiro, que tem uma terrível doença de acordo com a vizinha, possa satisfazer o seu desejo. Também gostei. Tapin du Soir (Michê da Noite) é sobre um rapaz que está carente e dá uma de michê só para transar e não ficar sozinho em casa. Não fedeu e nem cheirou.

Enceite ou Lesbienne? (Grávida ou Lésbica?) é o pior de todos. Sobre uma moça que pergunta aos seus pais se eles preferem saber se ela está grávida ou se é lésbica. Acho que era para ser comédia, mas tem um cuco, um travesseiro de plumas, uma pena desse travesseiro que vai até o cuco e uns ângulos estranhos que provavelmente essa pseudo-cineasta pensava estar fazendo "arte". Ah, a moça não está grávida, ela é lésbica. Ded@ns (Dentro) é um monólogo de um rapaz em frente a uma câmera que conta que amaria ter/ser um monte de coisas. Dentre essas coisas, ele amaria ter alguém. Daí ele conta desde o momento em que eles se conheceriam numa danceteria, passando pelo momento aonde ele o apresentaria aos seus pais e por pequenas brigas que acontecem entre casais. Ele pára de filmar e recebe um telefonema de seu médico, dizendo que os exames que ele havia feito não estavam nada bons. Ele volta a filmar e diz que amaria ficar velho. Que amaria nunca ter encontrado aquele cara. Que gostaria de ter usado camisinha. Que não gosta do lado de fora de seu apartamento. Que prefere ficar lá dentro. Gostei muito desse, um roteiro bem inteligente.

Les Larmes du Sida (As Lágrimas da AIDS) narra a história de um belo rapaz que gosta de nadar nu e encontra um outro cara, num dia desses quando sai da água. A câmera segue a perspectiva desse outro cara, mas ele nunca fala. É sempre o belo rapaz que narra a história e narra o que esse outro diz a ele, que sempre responde à câmera. Bem, esse outro cara é casado e tem AIDS, mas mesmo assim, o belo rapaz aceita transar com ele, pois ele se apaixonou. Eles transam com camisinha e o filme termina com a morte desse outro rapaz. Gostei bastante desse, foi bem lírico, com belas imagens na praia, bons enquadramentos, um bom roteiro. Dans la décapotable (No Conversível) é sobre um casal que parte para um final de semana da praia. Um deles é o nerótico/metódico e o outro é o livre/desencanado. Não bastasse o neurótico já ser neurótico por natureza, ele está ainda mais neurótico porque esqueceu as camisinhas e sabe que o namorado nunca as tem, mas dessa vez é diferente... Essa resenha é ilustrava pelos dois dentro do tal conversível, pois é o que eu mais gostei. Comédia leve, desencanada, despretensiosa e muito legal.

La Mouette (A Gaivota). Esse é outro curta baseado nos delírios de uma pseudo-diretora metida à moderninha que pretende contar a história de uma moça e seu namorado na praia, sendo que a moça acaba se apaixonado por outra, que tem AIDS, e tem várias gaivotas no meio. Passável. Une Nuit Ordinaire (Uma Noite Qualquer) fecha a coletânea de forma simples e bela, com um rapaz apaixonado que sai da balada para dormir com o namorado, num hospital. Eles dormem juntos todas as noites, mesmo com o outro em estado terminal (a doença não é citada, mas é óbvio que se trata da AIDS).


B
L'@mour est à Réinventer - Dix Histoires au Temps du SIDA
(vários, FRA, 1996)
Quando: Junho/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

ALL OVER THE GUY

Why am I here? The truth is... Well, I met a guy. And I am all over this guy.


Comédias românticas têm sempre o seu público garantido. Se o casal de protagonistas é completamente diferente um do outro, está montado o jogo de gato e rato entre os dois até o final feliz, quando eles se resignarão e darão conta que foram feitos um para o outro, a despeito de seus defeitos e diferenças. Num mundo centralizado na heterossexualidade, é normal que esse tipo de comédia seja produzido "a rodo". Na marginal, porém progressista cinematografia GLS que eu estou descobrindo recentemente graças aos torrents, também há uma infinidade de comédias desse tipo entre dois homens e entre duas mulheres. Infelizmente, assim como no mainstream, a quantidade de porcaria atolada de clichês ainda é assustadoramente alta. Felizmente, sempre haverá exceções a qualquer regra e All Over the Guy é uma delas.

Logo no início vemos porque o relacionamento do casal protagonista está fadado ao fracasso: o apartamento de Tom é um verdadeiro bunker de guerra, com roupas, revistas e objetos não identificáveis espalhados por todos os cantos, enquanto que o de Eli parece um hospital, de tão asséptico. Pior: ao sair de casa, ele volta para arrumar o número de sua porta que está torto. Num segundo momento, Tom está numa reunião do A.A., grupo que ele decidiu freqüentar após "conhecer um cara". Eli está numa clínica esperando o resultado de seu exame anti-aids, pois ele começou a sair com "alguém" e gosta de se testar antes de embarcar em uma nova relação.

Eli é o certinho metódico que odeia fumantes e que tem uma intensa vida sexual... com a sua mão direita. Tom é uma chaminé ambulante que bebe martinis como se fossem água e tem uma intensa vida sexual... com outros. Eli quer comprometimento. Tom morre de medo de se ligar em alguém. Como é que eles vieram a se conhecer? Através de um encontro às escuras patrocinado por seus melhores amigos, Jackie e Gary, que se conheceram numa loja de móveis.

Com Jackie e Gary vai acontecer tudo direitinho: eles começam a namorar, ela fica grávida, eles ficam noivos e, no final do filme, se casam. Já com Tom e Eli, as coisas não vão funcionar tão direitinho assim. No primeiro encontro, tudo que poderia dar errado dá, mas quando Eli solta um "killer eyes" para Tom (algo com o qual eu concordo), esse se apavora e manda o outro embora. No segundo, num mercado de pulgas, Eli confessa que está atrás de um boneco do filme Planeta dos Macacos. Eles transam. No dia seguinte, Tom foge novamente. Eli projeta nos outros, o ideal de "perfeição" que ele acha que tem e como percebe que Tom não se encaixa nesse ideal, é a vez dele fugir. Porém, Tom já está apaixonado por Eli, apenas não o admite, pois continua com o seu medo de se apegar a alguém.


Tom procura um boneco do filme Planeta dos Macacos na internet e o entrega para Eli. Eli confessa que gostaria de conhecer a irmã de Tom, que nasceu com uma degeneração e vive numa clínica. No final... bom... o final é bem óbvio, mas não é um "e viveram felizes para sempre". É algo do tipo "e eles concordaram que vão tentar conviver com suas diferenças e ver aonde a relação vai dar".


A+
All Over The Guy (Julie Davis, EUA, 2001)
Quando: Maio/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

ALMOST NORMAL

O que é "ser normal"?



O filme tem uma proposta interessante, que é a de discutir o que é "ser normal" numa sociedade "normal" aonde a heterossexualidade é dominante por um gay que insiste em afirmar que é "diferente" pelo fato de ser gay. O protagonista, Brad, é um gay enrustido que queria apenas "ser normal" (palavras dele), algo que não consegue porque, simplesmente, é gay (novamente, palavras dele). Como não pode "ser normal", ele se enterra nos livros, vira doutor, dá aulas de literatura em uma importante universidade estadunidense e, aos 40 e alguma coisa, fica babando pelo físico sarado dos esportistas e vivendo a sua vida solitária...

... até que sofre um acidente de carro e acaba sendo transportado para um mundo aonde está vinte e poucos anos mais novo, o "normal" é ser gay e os heterossexuais são hostilizados por "fugirem do padrão", sendo chamados de "reprodutores" (pejorativamente, é claro).

Uma vez nesse "mundo ideal", Brad está novamente no colegial e finalmente tem a oportunidade de "viver" e de se relacionar com o jogador de futebol americano que era a sua paixão platônica no "mundo real". Ele acaba conquistando-o como namorado, mas somente até se apaixonar por sua melhor amiga no "mundo real". Dessa forma, ele é novamente hostilizado por "não ser normal", mas dessa vez por ter beijado alguém do sexo oposto, sendo obrigado a freqüentar guetos heterossexuais.

A história é interessante, mas a opção por ser uma comédia leve diluiu o debate que o filme se propôs a discutir (se é que ele tinha essa intenção) um tema bem polêmico, principalmente por partir de um gay. Longe de ser um chato panfletário e militante, me diverti com o filme, apenas comecei a torcer por algo mais "profundo", mas a repetição de clichês (invertidos, óbviamente) deixou-o banal e passável.


C+
Almost Normal (Marc Moody, EUA, 2005)
Quando: Maio/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

ANOTHER GAY MOVIE

American Pie ao estilo GLS.



Quatro jovens se formam e decidem fazer um pacto: todos perderão a virgindade até o final do verão. Esse é o mesmo enredo de American Pie? Sim, é. A diferença é que nesse caso, os quatro rapazes querem perder a virgindade com outros rapazes. Especificamente, os jovens em questão são: um nerd, um esportista, um bobalhão e uma bichinha-escândalo.

Situações cômica para lá, situações nem tão cômicas para cá, praticamente todas são chupadas diretamente de American Pie. Portanto, o balanço final da cria é o mesmo da criatura: situações de riso fácil e mecânico, com a imbecilidade sendo a única coisa palpável.

Só se salvam duas coisas: o professor que veio fazer intercâmbio, que é adepto de práticas sexuais nada ortodoxas (e que é objeto de desejo do bobalhão) e a sapatona-caminhoneira-machaprácaralho que "come" todas as minininhas e acho que é a única coisa original do filme.


C
Another Gay Movie (Todd Stephens, EUA, 2006)
Quando: Maio/07 (Divx)
Site Oficial: anothergaymovie.com

LATTER DAYS

Uma love story gay.


Chris é um típico gay hedonista que se preocupa bastante com a sua aparência. Vive em boates, tem vários casos fortuitos e anota em sua agenda todas as suas transas, que dificilmente (para não dizer "nunca") passam da primeira vez. Capaz até mesmo de seduzir "heterossexuais convictos", com "o melhor boquete" que eles já receberam, tudo muda quando um missionário mórmon se muda para o seu condomínio.

Aaron, o missionário, se torna objeto de aposta entre Chris e sua roommate Julie, que é uma garçonete e aspirante à cantora. Num certo dia, Aaron é seduzido e quase se entrega, mas após ter o seu tão escondido "segredo" revelado (sim, ele é mórmon e sim, ele é gay), joga na cara de Chris toda a sua futilidade, dizendo que ele é apenas uma casca. Tomado pela culpa, Chris começa a servir "quentinhas" como voluntário para um aidético, que o ajuda na "virada" de sua vida, quando ele se vê apaixonado por Aaron. A mudança também é percebida numa dessas transas fortuitas que ele arranja. Com a língua do trepê no seu edi, ele diz que "quer conversar", recebendo como resposta "é preciso intimidade para isso".

Uma sucessão de mal entendidos se suscedem e eu não posso revelar o final, sob pena de estragar o prazer de alguém que, se estiver disposto a abstrair os clichês e a canastrice de diversos "atores" do elenco, vai gostar do resultado final desse típico filme "arroz com feijão", mas legal.


B
Latter Days (C. Jay Cox, EUA, 2003)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: latterdaysmovie.com

URBANIA

Um thriller cujo personagem principal é gay.


Charlie está tentando se recuperar do final de seu relacionamento com alguém igualmente "talentoso". No filme, acompanharemos uma noite na vida de Charlie na sua busca por alguém que ele só havia visto uma única vez na vida enquanto flashes do passado voltam para assombrá-lo de vez em quando.

O roteiro (complexo) vai tecendo o seu emaranhado de causalidades enquanto Charlie vai topando com vários personagens estranhos e várias daquelas "lendas urbanas" que estamos cansados de ouvir, como a do cara (mais um "talentoso") que leva um "boa noite, Cinderela" e acorda numa banheira cheia de gelo e com o rim roubado ou a do cara ("talentoso", claro) que transou sem camisinha e acordou com um recado escrito com um batom informando-o que ele havia acabado de ingressar no mundo da AIDS. Há também a lenda de Matt, o "talentoso" dono do bar aonde Charlie vai se encontrar com o objeto de sua procura, que era um simples bartender até servir drinks a uma mulher casada, mas solitária, satisfazê-la por uma noite em troca de dinheiro e receber toda a sua fortuna após sua morte num acidente aéreo.

Mas Charlie não fica quieto, ele aproveita que está na região e visita um amigo, paquera um arrogante ator de uma soap opera que gosta de joguinhos, vai até o seu apartamento e tenta comê-lo, mas como o cara não dá a bunda (e é o único "canastrão" do elenco), vai embora após uma discussão e depois toma uns drinks com o seu vizinho de cima, destilando toda a sua amargura pra cima dele e de sua namorada, tentando estragar a noite deles só porque eles, aparentemente, são felizes.

Quando finalmente fica cara-a-cara com o "homem misterioso", Charlie o embebeda, ambos vão a um local de pegação (onde um professor de biologia é visto por um de seus alunos) e eles vão embora, quando chega o momento em que todas as pontas soltas durante o filme serão juntadas. Descobrimos porque o relacionamento de Charlie com Chris terminou e porque ele estava procurando um cara que só tinha visto uma única vez na vida, há cinco meses e reencontrado na noite anterior.

B
Urbania (Jon Shear, EUA, 2000)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

SHORTBUS

Uma ode à liberdade e à diversidade.


Uma dominatrix e seu escravo. Um casal fazendo 34.713 posições do Kama-Sutra num sexo visivelmente ruim. Um cara batendo punheta e praticando auto-felação. Em menos de 15 minutos, já tínhamos visto tudo isso e umas coisinhas a mais, do tipo, homens ejaculando explicitamente e a porra de um deles escorrendo por um quadro.

O fio condutor da história é uma terapeuta de casais, Sophia, que não consegue ter orgasmos e finge para o seu marido, Rob, que no fundo quer ser dominado. Um de seus clientes é o casal formado por Jamie e James (ex-Jamie), que a procura para uma opinião independente sobre a abertura (sexual) de seu relacionamento. Eles a convidam para conhecer o Shortbus, um clube nova-iorquino onde as pessoas vão para se libertar, isto é, trepar. Metaforicamente falando, é claro.

Nesse clube, ela conhece Sevrin, a dominatrix da primeira frase dessa resenha, um grupo de lésbicas, um transformista e a hostess do clube, todos tentando dar um pitaco sobre como ela poderia ter orgasmos. Sevrin entra na história porque ela tem problemas de relacionamentos, ou melhor, não tem relacionamentos com gente real, apenas aqueles cliente-prestadora de serviços.

Para aqueles que acham que esse filme fala apenas sobre sexo, essa impressão é reforçada por uma verdadeira orgia, tão explícita quanto aquelas de Caligola (80). Eu vi um filme completamente diferente. Eu vi um filme que fala sobre a liberdade, com heteros e gays convivendo harmonicamente num mesmo lugar, com octagenários podendo perfeitamente terem espaço para trocar idéias com "bebês" de 20 e poucos anos e várias outras subtramas que é impossível resumí-las (ou então, essa resenha se tornaria extensa e entediante).

A parte "militante" está presente principalmente no diálogo entre o ex-prefeito de NY nos anos 80 e um modelo de 20 e poucos anos. O octagenário senhor faz um mea culpa sobre o seu engajamento na "causa" durante a escalada da AIDS, quando ele foi duramente criticado por estar no armário. Ele diz que fez o máximo que pôde. Se foi suficiente ou não, não importa, o que importa é que ele deu o seu melhor e fez o máximo que conseguiu.

Nova York tem um papel fundamental na trama, de uma maneira que eu não sei explicitar por não conhecê-la, mas posso especular. Pelo que se vê ao longo do filme (e se escuta aqui e ali), NY é justamente o lugar onde a liberdade está acima de tudo e você tem a possibilidade de "exercê-la" sem que ninguém se importe com isso. Pelo que se vê no filme, é lá também que as pessoas pecam e a cidade tem a capacidade de redimí-las sem pedir nada em troca.

Há uma certa alegria no ar com o clima de "liberou geral" (no sexo), mas como a hostess explica, Shortbus (o filme/o clube) traz a época dos hippies de volta, com a diferença de que agora não há mais esperança. O atentado do 11 de setembro é relembrado metaforicamente como um "blecaute". Mas assim como a vida continua, apesar dos pesares, a luz volta.

Esse é o segundo filme de John Cameron Mitchel e consegue ser melhor do que Hedwig and the Angry Inch (00). Uma pena que ele esteja apenas atrás das câmeras nesse, pois sua performance do transexual alemão oriental é magnética. Ele também é uma simpatia em suas entrevistas e é impossível não se apaixonar por seus filmes, principalmente esse aqui, onde ele foi "apenas" o diretor e o roteirista da sinopse. O resto da história ficou a cargo dos próprios atores que, ao contarem suas próprias histórias, deixaram o filme mais pessoal, original e apaixonante.

Ah, já ia esquecendo. Para quem procura sexo, ainda há Sevrin se esfregando (e gozando) na coxa de Sophia e os Jamies fazendo um threesome explícito com todos cantando o hino estadunidense enquanto um faz um cunete no outro, que faz um boquete no terceiro. O sexo é explícito, mas, acredite ou não, se você se deixar levar pela história, você vai vê-lo como se estivesse assistindo a um comercial de margarina.


A+(#75) Shortbus (John Cameron Mitchel, EUA, 2006)
Quando: Março/07 (DivX)
Site Oficial: shortbusthemovie.com

TRANSAMERICA

- We love you.
- But we don't respect you!



Há filmes sobre pais que descobrem que possuem filhos já adultos, há filmes sobre filhos que sonham um dia em encontrar seu verdadeiro pai, há road movies, há filmes sobre preconceito em relação à orientação sexual, há filmes sobre pessoas que não conseguem se sentir satisfeitos com o seu corpo, há filmes sobre transexuais (embora muito raros) e há Transamerica, que reúne todos esses filmes num só.

Bree, que nasceu Stanley, aprende a entonar a sua voz feminina durante os créditos iniciais. Ele está prestes a se tornar definitivamente ela graças à uma operação de mudança de sexo na Califórnia. Tudo está mais ou menos pronto quando ele/ela recebe uma ligação de um reformatório juvenil em Nova York dizendo que um meliante acaba de ser preso por roubar uma rã e que alega ser filho de Stanley.

Bem, apesar de ter um pinto, Bree o considera nojento e se lembra que na época da faculdade teve um sexo "quase lésbico" com uma colega, que vem a ser a mãe de Toby, o delinqüente juvenil, michê e drogado do parágrafo acima. Bree pensa em esquecer essa história, mas sua analista a intima a conhecer o garoto, caso contrário, ela não assinará a autorização para a operação.


A operação está marcada para ocorrer em menos de uma semana. Ela só pode ser submetida à operação se a sua analista lhe der a autorização. A autorização só será concedida se Bree conhecer o seu filho. Solução: os dois partem para A Cidade dos Anjos de carro.

Entre os vários "pequenos detalhes" do roteiro, que transporta para a tela uma história que poderia ser "difícil" aos mais puritanos de uma forma bem natural (tanto que até o meu pai gostou), me chamou a atenção o diálogo acima. O pai, que parece ser amoroso, porém fraco, diz que eles o/a amam. Mas a mãe dominadora fala logo em seguida que eles não o/a respeitam.

Será que Bree terá um final feliz? Assista e descubra.


B+
Transamerica (Dunkan Tucker, EUA, 2005)
Quando: janeiro/07 (DVD)
Site Oficial: www.transamerica-movie.com

C.R.A.Z.Y.

A história de uma família. Seria essa família uma família como outra qualquer?


Esta é a história da família Beaulieu e seus cinco filhos, Christian, Raymond, Antoine, Zachary e o pequeno Yvan, sob o ponto de vista das relações entre Zachary e o seu pai e entre Zachary e o irmão Raymond.

Zac nasceu no dia de natal e, apesar disso significar receber o maior presente entre todos os primos, ele o odeia. Primeiro, porque isso significa assistir à Missa do Galo, que parece nunca ter fim, e segundo, porque ele nunca recebe dos pais os presentes que quer.

Para Zac, seu pai é o seu grande super-herói, mas tudo muda um dia, quando ele tinha 7 anos e fica responsável pelo pequeno Yvan. Nesse dia, seu pai o pega com as roupas de sua mãe e, a partir de então, a relação entre dois nunca mais foi a mesma. Ele, então, faz uma promessa: nunca faltará à uma missa natalina para ser "curado" e para que o seu pai volte a ser como antes. Ele começa a namorar uma garota, para provar que não é viado. Chega até a morar com ela, mas tudo em vão. Apesar de nunca ter tido nada com homens, ele não conseguia bloquear o desejo que sentia por eles.

Zac entende que o pai se orgulhe de Christian, o estudioso, e Antoine, o esportista (que, infelizmente, aparecem e somem como se nem fizessem parte da família). Yvan é muito pequeno e, apesar de aparecer um pouco mais que os outros dois irmãos, ele é, praticamente, uma parte do cenário. Sobrou Raymond, o "rebelde sem causa" e drogado que, não importa a merda que faça, sempre receberá o amor dos pais. A ciumera entre os dois acabará criando um tabu na família Beaulieu: nunca colocar os dois perto e nem tocar no nome de um na frente do outro.

A Sra. Beaulieu é um achado. Extremamente religiosa, ela parece "aceitar" o que se passa com Zac. Seu sonho era conhecer Jerusalém e, depois de mais uma briga Raymond-Zachary, na festa de casamento de Christian, o protagonista resolve sumir, indo parar no local dos sonhos da mãe, enviando-lhe um cartão postal. (essa "viagem" me pareceu meio forçada, mas, minha interpretação, parece que foi lá que ele finalmente "saiu do armário").


Apesar de parecer, o filme não é sobre Zachary e sua homossexualidade. É a história de uma família ao longo dos anos centrada em Zac. A parte negativa é a estereotipação de quase todos os personagens e a falta de interação dos outros 3 irmãos com o resto da família, que fica centrada apenas no pai, na mãe, em Zac e em Raymond.


B+
C.R.A.Z.Y. (Jean Marc-Valée, CAN, 2005)
Quando: Dezembro/06 (Box Guararapes)
Site Oficial: www.crazyfilm.ca

ETHAN GREEN

Uma comédia romântica onde gays procuram pelo amor verdadeiro, sem discursos panfletários ou diálogos de afirmação da orientação sexual.


Ethan Green não tem sorte no amor. Isso nos é dito logo nos créditos iniciais, quando somos apresentados a todos os personagens do filme. Também somos avisados para não sentirmos pena dele, pois ele é o único culpado por não conseguir um relacionamento estável.

Pois bem, na primeira cena, ele está lendo um livro de auto-ajuda, The Boyfriend Within, num parque, é atingido por uma bola de tênis, acaba se apaixonando por seu salvador e é correspondido. Ele acredita ter finalmente conhecido o amor de sua vida, mas sua roomate lésbica, que acabou de levar um pé na bunda, diz que não vai durar. Até que dura um tempo razoável, mas no dia em que o antigo jogador de basebol ultra-sarado e recém saído do armário propõe que eles morem juntos, Ethan decide terminar tudo, para espanto geral do restaurante. Nem mesmo o garotinho gordo acredita que ele fez o que fez.

No dia seguinte, bate o arrependimento, mas é tarde demais por uma questão bem simples: ele nem tenta conversar novamente com o, agora, ex-namorado para ver se a oferta ainda está de pé. Ele fica apenas se lamentando e chorando ao pé do ouvido de sua roomate.

Nisso, o que era ruim se torna mais complicado ainda porque a casa aonde ele e a roomate vivem é de um outro ex-namorado dele que decide vendê-la porque vai se casar com um gay simpatizante do partido republicano. Pensa que acabou? Outro ex, uma bichona latina afetadíssima, mora com a sua mãe, que tem um pequeno negócio de gerenciar casamentos homossexuais.

A galeria de personagens bizarros ainda conta com as "The Hat Sisters", as "tias" bigodudas de Ethan que adoram um chapéu, vivem num casamento estável há séculos, sabem tudo sobre hat style e, nas horas vagas, são terroristas contra políticos homofóbicos (a parte ruim do filme é que "elas" são muito mal aproveitadas). Há também o fuck budy que Ethan conhece numa festa e cuja vida se resume a transar. "The Punch" tem apenas 19 anos e se vangloria de um dia ter transado com um time inteiro de futebol americano quando estava no colegial. No desenrolar do filme, eles acabam se tornando namorados, mas Ethan leva um pé na bunda porque era "imaturo demais". "The Punch" também é o responsável pela apresentação de Sunny Deal a Ethan e sua roomate. Ela era a melhor agente imobiliária do país, mas se tornou depressiva após ter saído de casa um dia e esquecido o forno ligado, o que matou todos os seus gatos. Desde então, ela não vendeu uma única casa e ela é contratada porque Ethan e sua colega não querem que a casa seja vendida.

Agora há o Spoiler! Continua por sua conta e risco. Só não venha me trollar depois.

No final, Sunny Deal sai da depressão depois de encontrar o seu true love. A colega de Ethan também, assim como o próprio protagonista do filme. Onde? No lugar tão óbvio que ele nem procurou direito.

Os atores são canastrões? A maioria é. O roteiro tem algumas falhas? Tem. Os personagens não são bem desenvolvidos? Não, não são. O final é previsível? Sim, totalmente. O filme é divertido? É!


B
The Mostly Unfabulous Social Life of Ethan Green (George Bamber, EUA, 2005)
Quando: novembro/06 (DiVX)
Sítio Oficial: www.ethangreen-themovie.com

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO

Tudo sobre a minha mãe, versão irlandesa.


Não, esse filme não tem nada a ver com Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre mi Madre, 99), é apenas um jogo de palavras para definir a obsessão de Patrick "Kitten" Braden, o/a protagonista da história.

Patrick foi deixado pela sua mãe na porta da sacristia de uma pequena cidade do interior da Irlanda. Adotado por uma família que mais tarde se arrependeu de tê-lo feito pela constante vontade de Patrick em vestir roupas femininas e em não fazer "o que meninos deveriam fazer", ele acaba criando um mundo particular para fugir dessa realidade. Nesse mundo imaginário, sua mãe se torna a "Dama Fantasma", que foi para Londres, a cidade que nunca pára, e foi engolida por ela.

Um dia, cansado de sua vida, decide sair de casa e ir procurar sua mãe. Na estrada, pede carona à uma banda de rock e se torna uma groopie, com direito a um affair com o vocalista da banda. As coisas não dão muito certo para os dois e então, ele decide ir atrás de sua mãe em Londres.

Na "cidade que nunca pára", ele se encontra com vários personagens pitorescos. Um deles é Bertie, interpretado por Stephen Rea. Bertie é um ilusionista chinfrim e o convida para participar de seus shows. Num dado momento, num pear, Bertie começa a se declarar a Patrick, que o interrompe. Ele precisa revelar um "segredo". Todo constrangido, ele diz que não era uma mulher. Recebe como resposta "I know that". Fui imediatamente lançado para Traídos Pelo Desejo, numa cena com o mesmo tipo de "revelação". Só que naquele filme, Stephen Rea não sabia...

Até então, eu achava o filme confuso, uma sucessão de idas e vindas, gente entrando, gente saindo... Estava começando a ficar entediado. Tudo mudou depois que Patrick foi à uma boate apinhada de soldados britânicos. Como eram os anos 70, o IRA explode a boate e a culpa recai sobre o transexual irlandês. Depois de uma semana apanhando para que confessasse sua participação no atentado, ele é solto por falta de provas. Mas ele não quer ir. Foi aí que eu percebi qual era a essência do filme: Patrick não buscava a mãe, Patrick buscava algum sentido para a sua vida. Ele buscava algo a que pertencer, um grupo, um amor, qualquer coisa.

E chega. Se eu contar o que acontece depois, estragarei a festa de quem ainda não viu o filme. Uma outra cena fundamental, magistralmente realizada, tem Patrick a balançar candidamente numa cabine de peep show dialogando com a pessoa por trás da parede. A partir dessa cena, Patrick, que chegou a se prostituir antes de conhecer essa "cooperativa de garotas" do peep-show, decide dar a volta por cima, rumo ao happy end.

Caso ainda não tenha se decidido se vale a pena ver o filme ou não, tem também a trilha sonora e sobre ela eu tenho um único comentário: tem uma música de Marianne Faithfull (Madame George).

B+Breakfast on Pluto (Neil Jordan, ING/IRL, 2005)
Quando: Outubro/06 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: www.sonyclassics.com/breakfastonpluto
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