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QUE FIZ EU PARA MERECER ISSO?

Tragédia Almodóvariana em gestação.


Glória é uma diarista que mora num apartamento minúsculo com o marido machista e bruto, a sogra doida que recolhe pedaços de paus nos parques e os dois filhos, sendo que um deles é traficante e outro vai morar com um dentista pedófilo com o consentimento da mãe. Como se não bastasse, há também um "famoso escritor" alcóolatra que nunca escreveu um livro, sua mulher, também alcóolatra, que bola um plano mirabolante para finalmente escrever um livro ao chantagear uma atriz no ocaso e deprimida, a vizinha prostituta especialista em sexo bizarro e o lagarto adotado pela sogra de Glória que se chama Dinheiro. 

O PRAZER É TODO MEU

Somente para as mulheres.


Louise é a típica mulher moderna surgida após a queima dos sutiãs em praça pública: independente, colunista numa rádio, sexy e realizada sexualmente. Um belo dia, sai com a irmã mais velha para fazer compras e descobre que ela finge seus orgasmos para o marido. Depois desse "belo dia", ela perde o seu "mojo": não sente mais prazer. Briga com o namorado, procura especialistas, perde o emprego, tenta desesperadamente recuperá-lo com mulheres etc. Nada adianta até o final, claro, quando se reconcilia com o namorado, leva a sobrinha para passear num carrocel e, não mais do que de repente, recupera o seu mojo montada no cavalinho.

Se a diretora quis passar outra mensagem além da óbvia "mulheres merecem gozar e não deveria fingir seus orgasmos", eu não captei.


D
Tout Le Plaisir Est Pour Moi (Isabelle Broué , FRA, 2004)
Quando: Setembro/07 (DVD)
Site Oficial: ficha imdb

KINSEY

Talvez, convenções sociais sejam feitas para que pessoas não se machuquem umas as outras.


A frase acima é uma das mais poderosas desse filme sobre o pesquisador Albert Kinsey, responsável pelo mega-projeto que resultou no Relatório Kinsey sobre a Sexualidade Humana nos anos de 1950.

Instigado pelos livros sobre sexo até então, que se baseavam em crendices populares (tipo: se você fizer sexo oral em sua parceira, ela terá dificuldades em engravidar), o então especialista em vespas assassinas (que havia coletado mais de 1 milhão delas) decide pesquisar sobre sexo. Consegue aprovar na conservadora Universidade de Indiana, uma disciplina sobre sexo que em pouco tempo se torna concorridíssima. O segundo passo é começar uma mega-pesquisa em vários volumes sobre a sexualidade humana.

O primeiro volume dessa pesquisa, a sexualidade do homem, se torna rapidamente o mais bem sucedido livro derivado de uma pesquisa científica. O segundo, porém, sobre a sexualidade da mulher, faz com que Kinsey passe a ser perseguido, fazendo, inclusive, que ele perca seu patrocínio da Fundação Rockfeller. O motivo: nesse segundo volume, os EUA descobriram que suas mães e suas avós se masturbavam, o que era inconcebível.

O Dr. Kinsey não se furtava a participar ativamente de suas pesquisas. Numa delas, ele comprovou que uma mulher realmente atingia o orgasmo em poucos segundos. Em outra, ele experimento sexo com o seu "número 2". Tudo em nome da ciência. Ao relatar os ocorridos à sua esposa, descobriu que ela não era tão "moderninha" assim ao soltar a frase que inicia essa resenha.

Com a saúde debilitada, a segunda frase poderosa vem de uma mulher no alto dos seus 50 e poucos anos, com filhos na faculdade e que resolveu largar tudo por sentir uma forte atração por uma colega de curso. Ao saber que o sentimento era mútuo, decidiram viver juntas uma história que já durava 3 anos até ser entrevistada pelo próprio Dr. Kinsey como material para o volume sobre a homossexualidade, nunca publicado.

Dr. Kinsey se culpava por não poder ajudar a todos, por não poder responder a todas as cartas que recebia, mas foi a partir do depoimento dessa mulher que ele tomou conhecimento de que realmente ajudou muitas pessoas. Mesmo que anonimamente.


B
Kinsey (Bill Condon, EUA, 2004)
Quando: Setembro/07 (DVD)
Site Oficial: foxsearchlight.com/kinsey

AMOR EM CINCO TEMPOS

Cinco cenas de um casal, do divórcio ao momento em que eles se conheceram.


São cinco cenas do relacionamento entre Marion e Gilles, do divórcio a um atormentado jantar em família, seguido pelo nascimento do filho, o casamento e, por fim, o momento em que os dois se conheceram. Apesar de Gilles cometer uma série de "erros" que culminam com o divórcio, ele não é apresentado como o vilão da história. Marion também não é nenhuma santinha, uma vez que ela também apronta das suas na noite de núpcias. Uma boa classificação para o filme seria "a novela da vida real", bem mais realista do que qualquer novela do Manoel Carlos, na qual os personagens vivem num planeta à parte da realidade e estão longe de apresentarem comportamentos verossímeis. Marion e Gilles são apenas humanos. Todos cometemos nossos erros e a possibilidade de sucesso num casamento depende sobretudo dos "pequenos detalhes".

Amor em Cinco Tempos é um filme bom, que valeu por escutar alguém falando francês e por continuar com raiva da atitude de Gilles no momento do nascimento de seu filho. Ainda não cheguei a uma conclusão certa sobre a cena do jantar e apesar de "terminar" num tom "otimista" com os dois se conhecendo (te levando a acreditar que os dois viveram felizes para sempre), aquela parte de qualquer relacionamento que é maravilhoso, você já sabe que no final (ou melhor, no começo), eles não serão felizes para sempre.


B
5 X 2 (François Ozon, FRA, 2004)
Quando: Janeiro/07 (UCI Ribeirão Shopping)
Site Oficial: ficha imdb

MEU AMOR DE VERÃO

Duas meninas, um verão.



Eu gosto de filmes com temática GLBT, mas raramente dou atenção ao "L" da sigla. Resolvi deixar minha série histórica de lado e fui conferir esse filme depois de um domingo de trottoir pelas ruas do Recife Antigo (local do Cine-Teatro Apolo, que assim como o Teatro do Parque, também é do século XIX e, da mesma forma, às vezes é teatro, às vezes é cinema).

Tamsin é rica. Mona é pobre e irmã de Phil, um ex-presidiário que tinha um pub e fechou-o para transformá-lo numa igreja após ter encontrado Jesus. Quando Tamsin, que tem uma vida típica de adolescente rica, mimada e carente de amor paterno, vai para a casa de veraneio da família em Yorkshire, ela conhece Mona, que tem uma vida típica da classe operária e sofre nas mãos de um cara casado que só quer saber de transar com ela.

Uma das críticas que eu tenho com relação a Beijando Jessica Stein (03) é a idéia de que lésbicas só se tornam lésbicas porque não deram certo em tentar entender o "bicho-homem". Aqui é mais ou menos a mesma coisa. Em contraponto à biologia do Norman que muge ao invés de latir, Mona acaba se aproximando de Tamsin (e vice-versa) porque as duas não conseguem entender e muito menos se dar bem com os homens. A biologia não responde a tudo, mas "optar" viver como homossexual porque não deu certo com o sexo oposto não entra na minha cabeça. (Para registrar, eu gostei de Beijando Jéssica Stein pelo estilo gay friendly da mãe da protagonista)

O filme até que é legalzinho (ao menos, não é horrível), mas não chega a empolgar. Como eu não fiquei de pau duro com as cenas de lesbianismo com duas ninfetinhas e nem comprei a tese defendida pelo filme, ele não me acrescentou muita coisa.

C
My Summer of Love (Pawel Pawlikowski, ING, 2004)
Quando: setembro/06 (Cine-Teatro Apolo)
Site Oficial: www.mysummeroflovemovie.com

TENTAÇÃO

Filme sobre dois casais de amigos, sobre traição e sobre "discussão da relação".


Em primeiro lugar, acho melhor abstrair a abominável tradução do título do filme. Não há tentação no filme. Há traição e o esfacelamento de dois casamentos. Mark Ruffalo, que é casado com Laura Dern, tem um caso com Naomi Watts, casada com seu melhor amigo, Peter Krause. Enquanto está tudo, aparentemente, bem para Hank e Edith, com o primeiro ocupado na publicação de seu livro e nos casos extra-conjugais e a última tento um caso com o marido de sua melhor amiga, para Jack e Terry, a vida não está boa. Jack a está traindo, Terry sabe disso e não sabe o que fazer, pois ainda ama o marido.

Diferentemente de Closer (04), que se passa na cosmopolita Londres e não conta com a presença de filhos, nesse filme, enquanto o expectador também é convidado a refletir sobre relacionamentos, há como cenário uma pequena e bucólica cidade em torno de uma universidade estadunidense. Há também filhos, o que entorna um pouco mais o caldo.

Em alguns momentos, eu me lembrei bastante de Tempestade de Gelo (97), principalmente nos momentos finais, quando fica aquela tensão de "será que alguém morre?".


B
We don't Live Here Anymore (John Curran, EUA, 2004)
Quando: Jan/06 (DivX)
Site Oficial: wip.arnerbros.com/wedontlive

A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU

Um tubarão jaguar comeu seu parceiro e o oceanógrafo Steve Zissou promete vingança, cançando-o e explodindo-o com dinamite.


Muitos dizem que Wes Anderson é um diretor do tipo ame-o ou odeie-o. Como eu sou cinza, achei bem "morno" seu trabalho anterior (o único que vi até agora), Os Excêntricos Tenenbauns (01), mas provavelmente eu não tenha captado o espírito bizarro da história.

Agora é diferente. Steve Zissou é um oceanógrafo/cineasta cujo último filme é um aparente fracasso e que promete vingança contra um lendário tubarão-jaguar, que matou seu companheiro de 27 anos durante as filmagens. (a história de Moby Dick sempre me fascinou)

No meio do caminho, ele se encontra pela primeira vez com o seu provável filho de 30 anos, que entra para o seu time e que ajuda a financiar a caçada, digo a filmagem, do próximo longa metragem.

Daí por diante a história se desenrola e a exemplo da excêntrica família Tenenbaum citada anteriormente, a equipe de Steve Zissou é igualmente excêntrica, incluindo até mesmo Seu Jorge. Sim, o cantor de samba-funk brasileiro, como Pelé dos Santos, o sinaleiro do time.

Os destaques do filme, além da trilha sonora composta por reinterpretações em português de músicas de David Bowie por Seu Jorge e seu violão (que aparece até mesmo num corredor, sentado, tocando e cantando), estão nas referências explícitas a Jacques Cousteau (sim, eu assistia religiosamente a todos os seus programas e sim, eu desejava saber respirar debaixo d'água quando era pequeno), aos Beatles e seu Yellow Submarine (68), com as tomadas lisérgicas embaixo d'água e aos seriados políciais da década de 70, nas cenas onde Steve Zissou dá uma de rambo em seu barco (e só consegue matar um pirata) e na ilha, onde ele entra sozinho atirando para tudo o que é direção na sala cheia de piratas.

Antes eu achava Bill Murray apenas "legalzinho", pois afinal de contas, ele protagonizou Os Caça Fantasmas (84) e Meu Querido Bob (91), mas após Lost in Translation (03), ele subiu e muito em meu conceito. Completam o elenco: Angélica Houston, Cate Blanchett, Willen Dafoe e o coadjuvante que eu particularmente adoro, Jeff Goldblum.


Só me arrependo de não tê-lo visto no cinema, pois a cena em que eles finalmente encontram o tubarão-jaguar é muito leve e bonita (e provavelmente eu acrescentaria espetacular, caso a tivesse visto em widescreen). Os créditos finais também são pretty cools, naquele estilo que te faz sair feliz de uma sala de cinema.


B+
Life Aquatic with Steve Zissou (Wes Anderson, EUA, 2004)
Quando: Janeiro/06 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

MISTÉRIOS DA CARNE

A história de dois garotos de uma pequena cidade do Kansas e de como eles absorveram o mesmo trauma, aos 8 anos de idade.


[nota: eu falo sobre algo que será descoberto antes do final do primeiro terço do filme. se quiser continuar, é por sua própria conta e risco]

O filme é sobre os dois garotos acima, Brian e Niel, que se conheceram no time infantil de basebol de uma pequena cidade perdida no Kansas. Niel, filho de mãe solteira, era o melhor jogador do time e o queridinho do técnico, enquanto que Brian (o de óculos), filho de pais separados, era o pior jogador. Os dois crescem e, aos 19 anos, têm vidas bastante distintas. Niel virou michê e Brian, um C.D.F. obcecado por OVNIs que realmente acreditava ter sido abduzido por aliens aos 8 anos de idade.

Entretanto, no desenrolar do filme descobrimos que Niel tinha sido o aluno preferido do treinador do time, mas não por causa de suas habilidades e sim porque o treinador dizia que o amava. Niel sabia que o treinador também amava outros garotos, mas ele sempre soube que era o favorito e essa se tornou a sua couraça para enfrentar as conseqüências.

Já Brian, que tem um "problema" não resolvido com o seu pai, acaba conhecendo uma garota que também acreditava ter sido abduzida por alienígenas e, à medida em que os dois vão trocando suas experiências, ele acaba descobrindo um terrível segredo de infância, uma vez que o alien de seus sonhos usa tênis e boné de basebol. Ele também sonhava freqüentemente com um garoto e quando finalmente descobre quem era esse garoto (Niel), ele chega tarde demais. Niel acabara de pegar o ônibus para tentar a vida em Nova York.

Mas os dois acabam se reencontrando no natal daquele ano e, quando invadem a casa do treinador, começam a trocar as lembranças estilhaçadas daquela época. Niel sabe o que tinha acontecido, mas não lembrava do ato em si, ele se lembrava apenas dos cereais, das idas ao cinema e do videogame. Brian se lembra de tudo, inclusive descobre porque o seu nariz sangrava apenas após alguns acontecimentos.

Pois é, mais um filme sobre abuso infantil, mas sem se perder no dramalhão. Destaques para Joseph Gordon-Levitt, o Niel, também conhecido com o pequeno nerd da série televisinha 3rd Rock From the Sun, Elizabeth Shue, a mãe de Niel e a trilha sonora, com muito Cocteau Twins na veia. Brady Corbett, Brian, também segura o rojão com sua interpretação e a cena final, por si só, já vale o ingresso.


B+
Mysterious Skin (Gregg Araki, EUA, 2004)
Quando: Janeiro/06 (UCI Tacaruna)
Site Oficial:
ficha imdb

JOGOS MORTAIS

Um suspense de primeira, no primeiro, e sustinhos meia-boca de quinta, no segundo.


O primeiro filme começa com duas pessoas, um médico e um fotógrafo, acorrentadas em um banheiro fétido, em algum galpão abandonado. Com o passar do tempo, aprendemos mais sobre o responsável pelos dois estarem naquela situação, alguém que quer apenas "brincar", proporcionando às suas vítimas, a opção de se redimirem, de ficarem gratas por terem tido uma segunda chance, ou morrer. De todos, uma única pessoa conseguiu escapar, uma ex-viciada, que cortou fora o estômago de uma pessoa ainda viva.

No segundo filme, temos um detetive que finalmente consegue prender o jigsaw (como a imprensa o apelidou). Porém, agora o jogo mudou. Ele prendeu 8 pessoas numa casa e os envenenou. Eles têm pouco tempo para achar a saída e as vacinas.

O que precisava ser dito da história é isso. Agora, as minhas impressões.

Ao assistir ao primeiro filme, fui remetido a A Experiência (01), onde pessoas eram divididas em dois grupos, guardas e prisioneiros, para descobrir como pessoas comuns reagiriam a situações extremas. Numa certa hora, a experiência dá errado e chegamos aos nossos instintos animais aflorando. Dei outras viajadas ao longo do filme, mas isso não vem ao caso agora (desculpa esfarrapada para "estou com preguiça de escrever"). Só sei que, apesar das reviravoltas na trama, fiquei com a minha atenção presa aos acontecimentos e nem me dei conta dos furos no roteiro (não vou contar para não estragar a vida de quem ainda não viu). É um filme para se ver uma única vez, e só.

Milhões foram vê-lo, ele se tornou um blockbuster, a continuação chegou às telas no ano seguinte e sofreu do mesmo mal de A Premonição 2 (03) [no primeiro, a morte tem um humor negro peculiar para pegar aqueles que tentaram trapaceá-la. Como novas pessoas tentaram passar a perna nela, da segunda vez ela foi bem mais explícita e escatológica em seu acerto de contas].

Como não há mais o elemento surpresa do primeiro, então, o diretor resolveu colocar sustos-certo, bem meia-bomba, matar alguns de forma aflitiva e sem a mesma técnica de antes, etc, etc, etc. O que me dá raiva são os furos primários do roteiro (de cara eu percebi o que o assassino queria dizer com "a combinação do cofre está atrás de suas mentes"). No entanto, confesso que o filme conseguiu prender minha atenção... até a metade, pois paciência tem limites e aquela reviravolta final, tenha dó.


B+
Saw (James Wan, EUA, 2004)

E
Saw II
(Darren Lynn Bousman, EUA, 2005)
Quando: Janeiro/06 (DivX)
Site Oficial: www.sawmovie.com
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