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VIDA DE SOLTEIRO

All my life / I'm waiting for somebody / Ah-ha-ha / come and take my hand


O filme tem início e Paul Westerberg já está cantando os versos acima, da belíssima "Waiting for Somebody", enquanto os créditos correm soltos pontuados por imagens de Seatle. Logo mais, o filme não terá nem mesmo 5 minutos e outra música entrará em cena. Pronto: estamos em mais um filme de Cameron Crowe.

Mas não é um filme qualquer. É um filme ambientado em Seatle, no início dos 90's. O que isso quer dizer? É o ápice de "Era Grunge": Screaming Trees, Soundgarden, Pearl Jam, Alice in Chains & Cia. Todas essas bandas estavam em seu auge nessa época e todas estão na trilha sonora do filme, que ainda conta ainda com Smashing Pumpkins e sofre a ausência lastimável da mais famosa banda dessa época, o Nirvana.

Dizem as más línguas que Kurt Colbain não gostou do filme, que conta basicamente a história de Janet e Steve. Eles já foram namorados, mas agora são apenas bons amigos e moram no mesmo pequeno condomínio. Steve, engenheiro de tráfego, acaba conhecendo Linda, que é uma politicamente correta em ecologia, numa boate e Janet, que trancou o curso e arquitetura e agora trabalha num bar, está saindo com Cliff, que mora no mesmo condomínio e tem quatro empregos diferentes, além de ser um rockstar wannabe (e tem como integrantes da sua banda, Eddie Veder, Stone Gossar e Jeff Ament, mais conhecidos quando estão tocando junto como uma tal banda chamada "Pearl Jam").

O enredo básico pode parecer bobinho, e é, mas lá encima eu já disse que esse era um filme de Cameron Crowe, ou seja, esses quatro personagens serão tão bem construídos e críveis que você vai se sentir como se eles fossem seus melhores amigos de infância antes da metade do filme e assim, você vai torcer por eles. Isso também se chama identificação. Seja com os personagens, seja com o tema, ao mesmo tempo particular e ao mesmo tempo universal: a busca de sua alma gêmea.

Caso ainda não tenha se convencido, basta dar uma olhada em quem eram essas quatro pessoas: Bridget Fonda (Janet), Campbell Scott (Steve), Kyra Sedgwick (Linda) e Matt Dillon (Cliff) no início de suas carreiras. Outro motivo é Tim Burton, que faz uma participação especialíssima como um videomaker que, dizem no filme, seria o próximo Scorcese.

Pode-se não gostar do filme, assim como Kurt Colbain, mas uma coisa é certa: quer saber o que foi a cena grunge? Assista a Singles e saberá. E também ficará na sua memória Linda visitando o apartamento de Steve pela primeira vez e passando os olhos no painel de fotos ao som de "Radio Song" (entre vários outros momentos, é claro).


A
Singles (Cameron Crowe, EUA, 1992)
Quando: Junho/07 (TV)
Site Oficial: ficha imdb

ELIZABETHTOWN

A impressionante constatação de como um ator é capaz de arruinar um filme.


Na Trilogia do Anel (01-03), até que ele estava competente (forma carinhosa de se dizer passável) na pele alva e com orelhas pontudas do elfo Legolas. Mas até aí, ele era apenas mais um na superpovoada trilogia. Depois que alcançou o posto de protagonista, em Piratas do Caribe (03) e Tróia (04), ele foi apenas o mesmo insípido e inodoro que é aqui. [nota: me dei ao luxo de não assistir a Cruzada (05)]

Estava atrasado, a seção já tinha começado e, para piorar, fui inventar de comprar pipoca. Resultado: cheguei quando Drew recebe o telefonema da irmã, dizendo que seu pai havia falecido e que ele deveria ir para Elizabethtown cuidar dos preparativos do funeral. Talvez não tenha perdido muita coisa, pois o filme só começou (forma carinhosa de se dizer só se sustentou) quando a aeromoça Claire entrou em cena.

Mesmo assim eu ainda estava com uma palavra na cabeça para esse filme: decepção. Como Cameron Crowe, depois de me embasbacar com Vida de Solteiro (92), [nota: não vi Jerry McGuire (96)], Quase Famosos (00) e Vanilla Sky (01), pôde fazer uma escolha tão infeliz para o papel principal de seu filme? Nenhuma cena onde Orlando Bloom "lidera" se salva. Mas como errar é humano e Cameron é Cameron, ele acertou no ponto: quando Drew e Claire estão em cena... você simplesmente se deixa contagiar por ela e esquece que ele existe. Ou melhor, ele é perfeito para se contrapor à ela.

Quando Drew chega em Elizabethtown, tudo se transforma. Eu nasci numa pequena cidade, perdida no interior de São Paulo, para onde volto uma única vez no ano (na melhor das hipóteses, duas). À medida em que ele passava pelas ruas e todo mundo apontava o caminho, eu me senti como se fosse eu que estivesse andando, depois de muito tempo, pelas alamedas arborizadas de Orlândia, apreciando a arquitetura das casas (que é bem diferente daqui do NE) e o belo conjunto que se forma [nota: nesses povoados, você não é você, é rebaixado à categoria de neto, filho, sobrinho, primo ou irmão de alguém]. Logo quando ele estaciona, damos de cara com o primo Jessie. A melhor (e infelizmente subaproveitada) descoberta do filme.

Aí temos a parte em que todos os tios, tias, primos, agregados & todo o resto aparecem. Quem é que não fica suspirando por alguma guloseima de uma tia? O bolo de chocolate da Tia Olga... vou te contar!

Quando assisti a Denise Está Chamando (95), achei "bizarro" que nenhum ator contracenava com o outro. Eles se falavam pelo telefone. Tempos modernos, o casal de protagonistas desse filme, se fala por telefone também, mas por celular! E até que a coisa dá certo, pois eles acabam se reencontrando e temos a cena que ilustra essa resenha, lá encima.

Depois de algum tempo, chega um momento onde o filme pára. Infelizmente, não me lembro da seqüência (provavelmente é por isso que ela é dispensável), mas readquire ritmo quando Susan Sarandon chega em Elizabethtown e enfrenta a família que a despreza. E ela, óbvio, rouba o filme sapateando Moon River, em homenagem ao marido, que ela conheceu num elevador em Tóquio, numa época em que ambos estavam noivos de outros. [close para a eterna ex-noiva, chorando]

No tempo em que eu era pequeno, eu compartilhava um sonho com meu irmão, de que meu avô paterno se casasse com minha avó materna, já que ambos eram viúvos, mas isso não vem ao caso agora. O que importa é que ambos idolatravam.... Moon River. Eu fui à glória na vez em que toquei para os dois, num natal qualquer, em meu (então) novíssimo órgão, que acabara de ganhar. Talvez eu tenha me sentido o mesmo que Jessie ao tocar Free Bird.

A pomba pega fogo, o funeral termina em grande estilo e no dia seguinte, é a vez do enterro do terno azul. Logo após, chega o momento em que Claire entrega a Drew um mapa para ajudá-lo na viagem de volta, que seria de carro.

E temos a frase do filme:


I leave you, to get into the deep, beautiful melancoly of everything that has happened. That's a great memo.

Eu teria parado o filme logo após esse ponto, com Drew se despendindo de Claire e fazendo o que ele faz antes de chegar na Segunda Maior Feira do Mundo, se bem que o joguinho que Claire armou na feira, fazendo-o correr atrás do gorro vermelho, deu um gostinho alegre ao final.


B+
Elizabethtown (Cameron Crowe, EUA, 2005)
Quando: 03/01 (Multiplex Mag Shopping, João Pessoa)
Site Oficial: www.elizabethtown.com
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