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BAILE PERFUMADO

Lampião e Maria Bonita em 35 milímetros.


Eu estava tão louco para ver a estréia da nova temporada de Bauer, Jack Bauer e suas 24 Horas de adrenalina que driblei o sono para poder acompanhá-la. Num dos intervalos, quase tenho uma síncope, com o anúncio de que a seguir seria a vez de Baile Perfumado no Intercine Brasil. Há muito tempo eu queria revê-lo e assim que ele começou, o sono sumiu instantaneamente até o final do filme, pouco depois das 3h.

O filme conta a história (verídica) do libanês Benjamin Abrahão na década de 1930. Ele era uma espécie de marketeiro do Padim Ciço quando Lampião recebeu do pároco cearense a patente de capitão (para lutar ao lado do governo federal contra as forças da Coluna Prestes). Padim Ciço morre logo no começo do filme (1934) e o libanês tem uma idéia: filmar o Rei do Cangaço e seu bando na caatinga. Botando para rodar o seu círculo de favores, Benjamin acaba chegando a Lampião em 1936, que a princípio refuta a idéia, mas no fim, aceita.

O filme tem planos-seqüência originais e criativos, mas a historia também é entrecortada pelas imagens originais do Rei do Cangaço capturadas pelo verdadeiro Benjamin, exibindo um Lampião bem diferente do herói dos pobres, maravilhado com as modernidades como a máquina fotográfica, adorador de cinema, tomando wiskey, banhando-se em perfume francês e bailando juntamente com o seu bando em pleno sertão.

Pesquisando sobre o assunto, descobri que no total são apenas 11 minutos de filmagem das primeiras e únicas imagens do cangaço. Lampião logo se enche da filmagem e foge. O governo não gosta do que o libanês está fazendo e o sufoca financeiramente. Atolado em dívidas, ele se suicida. Só não consegui descobrir se é antes ou depois da morte e dacaptação de Lampião, que ocorreu em 1938.

No mais, o filme como um todo mexeu comigo tamanha a sua criatividade.

A
Baile Perfumado (Lírio Ferreira, BRA, 1997)
Quando: Janeiro/07 (na TV)
Site Oficial: não tem

ÁRIDO MOVIE

Uma viagem. Em todos os sentidos da palavra.


O último filme nacional que eu tinha visto antes dessa viagem alucinógena, entre outros locais, pelo sertão pernambucano tinha sido Irma Vap, O Retorno (06). Me lembro de ter saído desconfortável da sala de projeção, pois o filme foi legal, mas sem "alma". Foi um filme totalmente fechado, pasteurizado. Sabe aqueles acrobatas muito bem treinados que não sorriem? Então, fiquei me perguntando se esse era realmente o cinema nacional que a "sociedade" demandava.

Dando uma olhada nas bilheterias, vi que não. Fiquei um pouco aliviado, mas nem tanto pois o campeoníssimo de audiência desse ano é Se eu Fosse Você (06). Noves fora o casal de protagonistas estar na (então) novela da oito, meu desconforto aumentou ainda mais, assim como o descrédito com a produção nacional.

Felizmente, Árido Movie está aí para me contradizer, assim como seus conterrâneos nordestinos Amarelo Manga, Cidade Baixa, Cinema, Aspirina e Urubus e Madame Satã (só para citar os mais recentes). Longe dos estúdios pasteurizados e das estrelas globais de primeira grandeza, há todo um cinema "pobre" em recursos, mas riquíssimo em idéias.

Divagações à parte, vamos falar a respeito do filme sobre o ilustre filho da cidade de Rocha, no sertão pernambucano, que volta à cidade natal para o enterro do pai. O roteiro básico, ou melhor, o fio condutor da trama esta aí. Agora, a "gordura" que o roteirista impõe ao longo do filme é, por si só, várias viagens.

O road movie é protagonizado pelos três amigos maluquinhos (e maconheiros) do protagonista, responsáveis pelas principais cenas do filme, como aquela no bar do Zé Elétrico (José Dumont) dançando Renato e seus Blue Caps com a luz azul com bolinhas cor de creme. Tem também "O Velho", objeto principal do documentário que Soledad, a personagem de Giulia Gam, está fazendo e é magnificamente interpretado por Zé Celso Martinez Corrêa.

Sim, claro, há também a história do protagonista "principal", Guilherme Weber, do filme e sua viagem interna às suas raízes. À uma cidade da qual ele saiu quando tinha 5 anos e aonde não conhece ninguém. Mas todos o conhecem, pois ele é o "homem do tempo" da televisão e todos os dias entra na casa de seus habitantes.

E é claro que ele também protagoniza uma "viagem" lisérgica, dessa vez providenciado por Zé Elétrico e um chá de sei lá o quê.

Lirinha, o vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado também não sai incólume da "viagem", como ajudante d' "O Velho". Se normalmente ele já tem cara de maconheiro, falas de maconheiro, jeito de maconheiro, imagina nesse filme!

Pensa que acabou?

Pedra do Elevante Semi-Enterrado de um lado, Pedra do Cachorro Sentado de Costas do outro, forquilhas para procurar água, vingança pela morte do patriarca da família, extermínio dos índios, plantações de maconha (numa alusão a Sonhos (90), de Akira Kurosawa, e a um clipe de Legião Urbana), bares em beira de estrada, seitas comandadas por um maluco... cabe de tudo um pouco nessa maravilhosa viagem. Ops! Nesse divertidíssimo filme.


B+
Árido Movie (Lírio Ferreira, BRA, 2005)
Quando: ago/06 (Cinema do Parque)
Site Oficial: http://www.aridomovie.com.br
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