.
.
Mostrando postagens com marcador 2010. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2010. Mostrar todas as postagens

CÓPIA FIEL

A cópia pode ser tão boa quanto o original?


James Miller é um famoso escritor inglês que está na Itália para o lançamento de seu novo livro sobre originalidade e cópia em obras de arte onde ele aconselha que, na falta do original, fique com a cópia mesmo. Elle, por sua vez, é uma francesa dona de uma galeria de arte que há anos mora na Itália com seu filho “aborrecente”.

Antes de voltar para seu país de origem, James aceita o convite de Elle para conversarem sobre seu livro durante um café. No café, os dois são confundidos como marido e mulher pela garçonete. Elle entra na “brincadeira”, não corrigindo-a e seguindo sua conversa como se realmente fossem casados. Ao saírem do café, eles encarnam a brincadeira e viram “de verdade” um casal em crise. Ora a crise é causada por ela, ora causada por ele. Às vezes, a discussão se dá em inglês, às vezes, em francês. Numa cena, ele fala em inglês e ela responde em francês (!?).

É realmente complicado fazer uma interpretação "única" de Cópia Fiel, isso dependerá da bagagem individual de cada um. Reduzi-lo a uma espécie de Antes do Amanhecer (95) e Antes do Entardecer (04) da meia-idade é uma burrice sem tamanho. O que está em jogo não é a crise daquele casal e sim a discussão do que é original e do que é cópia. Do que é real e do que é ficção. Do meio para o fim, você já esqueceu que aqueles dois são estranhos que acabaram de se conhecer e passa a acreditar fielmente que eles são um casal em crise. Na verdade, você começa a duvidar da veracidade da primeira parte do filme. Eles são realmente dois estranhos que nunca se encontraram antes?

Cópia Fiel é um filme que te convida para uma revisão, depois de saber o ponto final para poder interpretar melhor as nuances, mas é algo que até agora não fiz, mas que espero poder fazer em breve.


A+
Copie Conforme (Abbas Kiorastami, FRA/BEL/ITA, 2010)
Quando: Agosto/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

UM LUGAR QUALQUER

Melancholie mode on.


Johnny Marco é um jovem ator de blockbusters de Hollywood no auge de sua fama que leva, fora das filmagens, uma vida totalmente desregrada e vazia, bebendo todos os dias até cair, participando de festas, transando com estranhas, assistindo performances particulares de pole dance com duas gêmeas e por aí vai. Um belo dia, ele acorda e vê sua filha Cleo, de 11 anos, ao seu lado. Enquanto sua mãe viaja, os dois passarão algum tempo junto.

Se ainda existia qualquer dúvida sobre o talento como diretora de Sofia Coppola, ela prova mais uma vez que é capaz de fazer mais um filme com sua marca autoral: visões intimistas de seus personagens descobrindo pequenas coisas da vida. De um ator decadente e uma “namorada de um fotógrafo” perdidos em Tóquio (Encontros e Desencontros, 03), passando por uma rainha arrancada de sua casa na adolescência (Maria Antonieta, 06), agora é a vez de um ator no auge de sua fama e sua filha, que o fará reavaliar o modo como encara sua própria vida.

Um Lugar Qualquer é um filme menor se comparado aos dois anteriores, mas mesmo assim você se deixa levar pelo lirismo e pelos detalhes, seja um simples desenho de uma filha no gesso do braço de seu pai, seja um “chá de panela” fictício em baixo d’água. Sofia não tem pressa em contar a sua história, em certa medida, pessoal, pois ela viveu um bom tempo naquele mesmo hotel, o Chateau Marmont, ao lado do pai, Francis Ford Coppola. Inclusive, o porteiro é o mesmo.

Destaque pelo “piti” de Cleo que, prestes a ser deixada no aeroporto pelo pai, não quer ir à colônia de férias, por se sentir rejeitada tanto pelo pai como pela mãe. As “férias” no acampamento, para ela, seria apenas um lugar onde seria despejada como um objeto qualquer para que ambos pudessem continuar vivendo suas vidas.

A cena final é subjetiva demais. Não dá para interpretá-la literalmente. Ninguém em sua sã consciência faria aquilo. Mas parece perfeito como um “final feliz” onde é apresentado o momento em que aquele astro que movimenta milhões e mexe com o imaginário de tanta gente, mas tem uma vida vazia e sem sentido, muda a forma de viver.


B+
Somewhere (Sofia Coppola, EUA, 2010)
Quando: agosto/11 (Cine São Luiz)
Sítio Oficialsomewherethemovie.com

HOMENS E DEUSES

Vós sois deuses / Todavia morrereis como homens (salmo 82: 6-8)



Os fatos que antecederam a execução de oito monges católicos franceses de um mosteiro na Argélia por rebeldes argelinos em 1996.

A Argélia é a eterna vergonha francesa. Volta e meia há a produção de um novo filme que, se não trata diretamente da guerra civil que culminou no sangrento processo de independência argelina, trata indiretamente desse processo, como a tentativa de integração à “França Livre” dos habitantes da ex-colônia.

Em Homens e Deuses, o tema é a execução de monges franceses por rebeldes fundamentalistas muçulmanos após a recusa do governo de Argel em libertar líderes rebeldes aprisionados, mas não é sobre como se deu a execução, é sobre aqueles oito seres humanos abnegados que abriram mão da própria vida para não quebrarem os votos que fizeram ao aceitarem a missão de servir a Deus naquela região. Para tanto, grande parte do filme trata de humanizar aqueles “deuses” que trazem conforto a um região desolada. Antes de serem padres, eles são pessoas de carne e osso e como tais têm as suas limitações e, volta e meia, têm sua fé (seja ela qual for) testada.

Inicialmente, é mostrada a rotina do mosteiro. A aragem da pequena horta, o atendimento médico precário, as orações, as refeições. Quando o conflito surge, o governo oferece proteção armada ao mosteiro, que é negada pelo líder não declarado, Christian. Os demais monges não concordam com essa decisão e, quando lhes é dada a escolha de ficar ou serem transferidos, uns querem ficar, outros querem sair. Os que desejam ficar fazem suas escolhas pelos mais diversos motivos. Os que querem sair, não têm a certeza de estarem tomando a decisão correta.

Agora vem o aviso de Spoiler! que pode estragar (ou não) sua visão posterior do filme (caso ainda não o tenha visto). Siga por sua conta e risco.

O clímax se dá numa cena montada para emular A Última Ceia (é a foto acima). Com a trilha sonora de “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, os monges são mostrados individualmente. A aura de deuses não existe mais. São apenas homens que transparecem a paz interna pela certeza de terem tomado a decisão correta. Nessa madrugada, o mosteiro é invadido. O que se segue é apenas história.


B+
Des Hommes et des Dieux (Xavier Beauvois, FRA, 2010)
Quando: Junho/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficialsonyclassics.com/ofgodsandmen

REENCONTRANDO A FELICIDADE

Um dia de cada vez.


Oito meses após o atropelamento de seu único filho, Becca e Howie procuram viver a vida da melhor maneira possível, com cada um lidando com a dor e a saudade à sua maneira. Howie gosta de frequentar um grupo de apoio formado por pais na mesma situação, mas Becca não. Ele procura afeto, que a esposa não consegue dar e, para suprir sua perda, ainda mantém a cadeira do filho no carro e sempre revê o último filme do filho em seu celular. Ela prefere se isolar e se livrar dos desenhos presos na geladeira, das roupas e até mesmo da casa, para evitar reviver o filho em cada cômodo.



POESIA

Tempero agridoce


Mija é uma avó sexagenária que trabalha como diarista para complementar sua pensão para sustentar seu neto adolescente. Um dia, ao descer do ônibus, vê o cartaz de um curso de poesia e decide se matricular, pois sempre teve vontade de escrever poesias, mas nunca conseguiu. Paralelamente, seu neto, juntamente com outros amigos, se envolve no estupro de uma colega de classe que acaba se suicidando.

Para escrever sua poesia, Mija precisa ver o mundo com outros olhos. Uma maçã não é apenas uma maçã. Há a cor, a tonalidade, a forma, o sabor... Ela precisará encontrar algum tipo de beleza no mundo que vive, apesar do neto participar de um estupro que motivou o suicídio de uma pessoa. Para piorar sua situação, ela precisa encontrar inspiração o mais rápido possível, pois foi diagnosticada com Alzheimer e já começa a se esquecer de palavras básicas. Logo, não poderá mais escrever nem mesmo a receita de um bolo.

Um fato curioso é mostrar uma igreja católica encravada no subúrbio de Seul (é onde ocorre a missa de sétimo dia da jovem que se suicidou). Uma instituição tão ocidental e tão diferente dos valores que nos são passados do oriente soa tão estranho...

No final, Mija descobre que poesia não é, necessariamente, sobre o belo. A descrição de um simples banco enferrujado de jardim pode conter muita poesia. Como trabalho de conclusão de curso, Mija entrega como ela acredita que deve ter sido os últimos dias daquela menina. Para fazer chorar o mais insensível ogro.

A poesia não precisa ser sobre o belo, mas o filme Poesia é um belo filme.  


B+
Shi (Lee Chang-dong, Coreia do Sul, 2010)
Quando: Maio/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

O PRIMEIRO QUE DISSE

Seja o que você quiser ser, não o que esperam de você



A tradicionalíssima família Cantone possui uma fábrica de massas na cidade de Lecce, no sul da Itália. O patriarca da família, Vicenzo, decide passar o negócio ao filho mais velho, Antonio, durante um jantar, o que faz com que o mais novo, Tommaso, volte de Roma para a grande ocasião. Porém, Tommaso quer aproveitar a reunião familiar para contar a todos que é gay. Certo que será expulso de casa pelo pai homofóbico, não se importa, pois seu desejo é voltar a Roma para seguir seus planos como escritor e viver ao lado de seu namorado. Todo esse planejamento é frustrado por Antonio, que se revela gay antes, o que causa um infarto no pai e faz com que Tommaso seja obrigado a tomar o seu lugar na fábrica.


A excêntrica família Cantone ainda é formada pela matriarca, Stefania, mais preocupada com o que a cidade irá falar sobre a "condição" do filho do que tentar impedir que Vicenzo expulse Antonio de casa. Elena, a irmã, é uma dona de casa frustrada, mãe de duas crianças bem acima do peso e casada com um napolitano (para desgosto do patriarca). Luciana, é a "tia solteirona" alcoólatra que tem um amante misterioso (o qual sempre sai de seu quarto na calada da noite sob os gritos de "ladrão! ladrão!", só para manter as aparências). Para completar, há a avó, a única sem nome no roteiro, que assiste a tudo cansada da vida e sonhando acordada com o amor impossível que sentia pelo irmão de seu marido.

Como "agregados" há as duas empregadas da família, igualmente exóticas, a filha do sócio da fábrica, com a qual Tommaso se torna confidente e atraído num momento de carência e a amante de longa data do patriarca. É Fellini fazendo escola!

Infelizmente, há muitas falhas na condução do roteiro, que não se aprofunda em nada, deixa algumas histórias sem conclusão e não se decide se quer ser uma comédia ou um drama e da filmagem (os rodopios durante as cenas ao lado da mesa me deixaram tonto). Porém, não gosto de analisar um filme sobre a ótica do que ele podia ser. Particularmente, preferiria que a opção tivesse sido pelo drama, mas a intenção do roteirista/diretor é legítima e digna. Turco radicado na Itália e gay, é discriminado duplamente e, para quem quiser ver, ele deixa o seu recado para os homens, que esperam que seus filhos varões "comam" o maior número de mulheres possível para reafirmar as suas (dos pais) potências e para as mulheres, que julgam ser mais importante aparentar "normalidade" (você é bem sucedida na medida em que forma uma família "normal") do que se preocupar com a felicidade dos filhos.

Antonio sufocou sua sexualidade durante trinta anos para poder servir de exemplo para os pais. Tommaso, precisou fugir "para a cidade grande e cosmopolita" para se encontrar.

A todo momento, você pensa "é agora", Tommaso finalmente vai confrontar os seus pais e jogar merda no ventilador, mas fica sempre no quase. É a história de Antonio se repetindo, até que o seu namorado e mais três amigues extremamente caricatos chegam. Nessa hora, Tommaso precisa tomar a decisão, pois seus dois mundos (até então) excludentes estão em rota de colisão e boa coisa não deve sair daí. Nessa hora, enquanto todos da sala se acabavam de rir, eu ficava tenso, pois parecia que o jogo de aparências de Tommaso ruiria a qualquer momento. O filme, que costeava o alambrado do drama com alguns alívios cômicos aqui e ali descamba de vez para a comédia rasa. Mas os amigos vão embora e Tommaso decide finalmente confrontar os pais.

Apesar da superficialidade, O Primeiro que Disse é um filme panfletário. Ele toca na ferida da hipócrita sociedade latina (não só italiana, mas igualmente a brasileira, a hispânica, a francesa...). Acredito que "para atingir o grande público" o diretor/roteirista tenha feito muitas concessões, o que faz com que a maioria saia da sessão pensando que o filme é uma comédia. No entanto, lá no subconsciente, ele deixa plantado o seu recado.

E tem a cena final, belíssima, que analisarei na caixa de comentários, por conter spoilers.


B+
Mine Vaganti (Ferzan Ozpetek, ITA, 2010)
Quando: Abril/11 (Cine Rosa e Silva)
Sítio Oficial: minevaganti.net

127 HORAS

Nunca se esqueça do seu canivete suíço.



História verídica de Aaron Ralston, aventureiro solitário (e um tanto quanto misantropo), que ficou com o seu braço preso por uma rocha durante 127 horas, até que ele teve que amputá-lo para poder sobreviver.

Danny Boyle é um diretor bastante criticado por suas firulas e excessos na edição. Bem, antes de considerá-los como "defeitos", prefiro encará-los como características.

Apesar da trama linear [em contraponto, por exemplo, a Quem Quer ser Milionário? (09)], o drama das tentantivas fracassadas de Aaron de se libertar é entrecortado com cenas de sua infância, o desejo ardente pelo isotônico que deixou no carro quando sua água acaba, sua punição por ter esquecido seu canivete suíço, a ironia de ter sua mochila um canivete Made in China (que não corta nada) que ganhou da mãe e por aí vai. Da mesma forma, os "momentos mortos" de Aaron e a pedra são quebrados pela fúria, pelo medo e pelas alucinações.

Portanto, o filme não seria possível sem essas estripulias Dannyboyliana e, claro, a James Franco, o que fez valer sua indicação ao Oscar e prova (se é que ainda é preciso) que ele não é apenas o rostinho bonito que veio ao grande público após a trilogia do Homem-Aranha.

A trilha sonora também segue o padrão Danny Boyle e o excesso, novamente desnecessário [(assim como o "5º elemento" de Sunshine (07)], é o grafismo explícito da amputação (com direito à radiografia do osso do braço ao ser quebrado) e a posterior sangreira (o que deixa a boca de James Franco como a de um vampiro após um banquete). É o momento mais tenso do filme, sem dúvida, mas logo após, há a redenção (o que não pode faltar num filme de superação), com uma belíssima música de encerramento (melhor do que a que concorreu ao Oscar, que aparece nos créditos finais).


B
127 Hours (Danny Boyle, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (UCI Recife)
Sítio Oficial127horas.com.br

UM PARTO DE VIAGEM

Apenas uma cópia descarada de Antes Só do que Mal Acompanhado?


Após uma viagem de trabalho em Atlanta, Peter Higman, arquiteto, precisa voltar para Los Angeles antes do nascimento de seu primeiro filho. Em seu caminho, aparece Ethan Tremblay, aspirante a ator, que faz com que ambos sejam expulsos do avião e colocados na lista negra das companhias aéreas. Sem documentos e dinheiro, não resta alternativa a Peter do que se juntar a Ethan e seu cachorro Sonny num clássico road movie rumo a Hollywood.

Confesso: tinha uma lista extensa de preconceitos contra esse filme. Em resumo, eu odiei Se Beber Não Case (The Hangover, 09) e tudo me cheirava a uma cópia descarada de Antes Só do que Mal Acompanhado (Planes, Trains and Automobiles, 87), "atualizando-o" para os dias atuais.

Não poderia estar mais engano. Este foi um dos guilty pleasures mais saborosos que tive nesses últimos tempos. Eu, todo chegado a um intelectualóide-wannabe, "fidalgo" como alguns me chamam, não posso negar: achei esse filme uma comédia deliciosa, engraçada e "inteligente" (=com conteúdo). Enquanto que Se Beber Não Case não passa de um amontoado de situações (mal) costuradas para resultar num filme, esse é um filme que te leva às situações engraçadas. Uma atrás da outra, sendo algumas incrivelmene hilárias como a que te remete imediatamente ao filme com Steve Martin e John Candy, quando ambos os "gordinhos" dormem ao volante. Outra, tem como trilha sonora "Hey You", do Pink Floyd. Uma viagem. Literalmente.

Não sei se o filme foi "inspirado" ou não em Antes Só do que Mal Acompanhado (impossível não ter sido). Só que, se for entendido como uma homenagem, o filme de John Hughes nunca foi tão bem reverenciado. Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis são substitutos à altura do neurótico Neal Page e do "sem noção" Del Griffith. Quanto a Todd Phillips, pegarei leve com ele daqui para frente, pois ele merece todo o respeito por não se prender ao politicamente correto de hoje em dia.

C+
Due Date (Todd Phillips, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (Divx)
Sítio Oficial: duedatemovie.warnerbros.com

COMO ESQUECER

... e recomeçar a viver?


Quando é chegado o momento de voltar a se relacionar com alguém? Como cicatrizar a ferida e deixar a amargura para trás? Vale a pena voltar para quem te abandonou quando você mais precisou dele? E a "viuvez"? É mais fácil do que um rompimento?

Antônia decide, unilateralmente, terminar seu relacionamento de 10 anos com Julia, que entra numa espiral depressiva-psicótica e só não surta pois seu melhor amigo, Hugo, que também passou por um processo de separação recente (só que no caso, a causa foi a morte de seu companheiro), decide se mudar para o seu apartamento para ajudá-la a superar sua dor. Para complicar a situação, Carmem Lygia, sua orientanda de mestrado, não para de se insinuar.

Para apagar o passado, Hugo decide que Júlia deve-se me mudar com ele e Lisa para uma casa no subúrbio. Lisa também está passando por maus momentos, pois seu namorado não aguentou a pressão de uma gravidez indesejada. Para completar o caldo, ainda há Helena, prima de Lisa, que decidiu pedir demissão de seu emprego na embaixada brasileira em Paris para morar no Rio e viver como artista plástica.

O filme começa feliz, com Julia segundo o olhar de Antônia em imagens gravadas em Londres (terra de Virgínia Wolf, entre outras autoras que serão citadas ao longo do filme). Corte. Numa sala escura, Julia queima fotos antigas. A amargura faz com que Julia afaste todos que tentam ajudá-la. Sua dor é muito grande e o seu desejo de autodestruição é forte. Numa cena-chave, ela se dá de cara com sua consciência. É o fundo do poço. Tempos depois, a mudança, quando Júlia decide pegar para criar um gato que miava embaixo de sua janela (quando a atitude esperada era que ela jogasse um tijolo no bichano).

Mesmo depois de superar o desejo de autodestruição, Julia ainda experimentará alegrias e tristezas até se permitir parar de olhar para trás. Hugo e Lisa também têm suas histórias resolvidas. Quer dizer.... resolvidas até aquele momento, pois a ninguém é revelado seu futuro de antemão. Uns são de correr riscos, outros, nem tanto. Quem somos nós para julgá-los?

Para finalizar, dois aspectos "superpositivos" sobre o filme: (1º) é um filme brasileiro produzido no eixo Rio-SP com atores globais que não só consegue fugir do estereótipo amorfo de comédias televisivas da Globo Filmes como faz com que não nos lembremos, por exemplo, que Murilo Rosa é o protagonista da atual novela da 6; e (2º) apesar de contar com a quase totalidade de personagens homossexuais, trata o seu tema de forma universal. Afinal de contas, a dor da separação (e a superação dessa dor) é a mesma, não importa sua orientação sexual.


B+
Como Esquecer (Malu de Martino, BRA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (Cinema da Fundação)

CISNE NEGRO

Take a walk on the wild side.


Natalie Portman no limite. Nina faz parte de uma companhia de balé e, com a aposentadoria forçada da prima ballerina anterior (idade, sabe como é...), seu diretor decide selecionar sua substituta através da escolha da protagonista de sua nova peça, O Lago dos Cisnes, com um diferencial: as irmãs Odette (o Cisne Branco) e Odile (o Cisne Negro) serão interpretadas pela mesma bailarina. Nina é perfeita para o Cisne Branco (dedicada, perfeccionista, pueril), mas conseguirá segurar a pressão inerente ao mundo do balé e libertar a volúpia necessária para a performance do cisne negro?

Nina, apesar de aparentar ter uns 20 e poucos anos, é uma garotinha. Superprotegida pela mãe, provavelmente virgem, não sai, não bebe, não namora. Sua vida é o balé. Não basta treinar na companhia, quando ela chega em casa, ela treina ainda mais. Com transtorno obsessivo-compulsivo (coceira nas costas, bulimia e anorexia), não é a toa que, até o final, acompanharemos o esgarçamento de sua sanidade mental.

Cisne Negro, não é sobre bailarinas como estamos acostumados a ver. Todas as menininhas sonham em flutuar ao invés de dançar. Aqui, as bailarinas só são graciosas em seus paços após serem exaustivamente repetidos e após se autoflagelarem ao extremo. Que distendam seus músculos, que distorçam seus diafragmas, pois se alguém não conseguir, pode ter certeza que haverá outras 100 prontas para guerrear por esse posto.

No contexto do filme, nada mais exemplificativo do que a prima ballerina anterior, interpretada por Winona Ryder. Ela já foi a "queridinha da América", já esteve no auge quando tinha 20 e poucos anos. Agora, aos 40, é apenas uma sombra do seu passado de glórias. Só lhe resta a bebida e o desejo de autodestruição.

No entanto, sempre se deve dar o benefício da dúvida, pois o filme nos é apresentado segundo o ponto de vista de Nina, que logo aos 5 minutos se vê no metrô. No final desse dia, ela também se verá nos corredores do metrô. Em certo ponto, já não saberemos mais o que é real e o que é imaginário.

Não é nenhuma "obra prima" como insistem em hypá-lo, mas Cisne Negro sai do lugar comum. Há outros exemplos por aí de diretores que levaram suas atrizes ao extremo como Polanski/Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (Repulsion, 65) e Truffaut/Isabele Adjani em A História de Adele H (L'histoire d'Adèle H, 75), para ficar em apenas dois exemplos, mas o ritmo crescente da destruição da mente de Nina culminando no clímax catártico durante a apresentação de balé não deixa nada a desejar aos grandes mestres.


A
Black Swan (Daren Aronofsky, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (Box Cinema)
Sítio Oficialfoxsearchlight.com/blackswan

ALÉM DA VIDA

O que há "além daqui"?


Em Além da Vida, Mr. Eastwood procura responder à pergunta que mais intriga a humanidade desde que ela tomou consciência de sua mortalidade: o que acontece quando morremos? Dessa forma, somos apresentados a três personagens, um médium estadunidense que considera o seu "dom" uma maldição, uma jornalista francesa que sobreviveu à tsunami que atingiu a Indonésia em 2004 e um garoto inglês, que não suporta a vida após a morte de seu irmão gêmeo.


Como ocorre normalmente em um filme de histórias que ocorrem em locais dispersos, nem todas as três têm o mesmo ritmo. Pessoalmente, fiquei menos interessado pela história do menino, fiquei indiferente ao drama do médium e só queria saber sobre as descobertas da jornalista francesa. Identificação pura e simples. Infelizmente, é apenas na dor que encontramos a motivação suficiente para mudarmos. Uns partem para fé pura e simples, entram na "zona de conforto" e se esquecem. Como ela, eu saí pesquisando. Encontrei muitas das respostas que buscava, que trouxeram ainda mais perguntas (que estão longe de serem respondidas). Marie Lelay, recebeu o seu chamado para o despertar e por mais que ela tentasse levar a mesma vida que levava antes (e como ela tentou!), não conseguiu (é impossível voltar). Ela precisava descobrir o que tinha acontecido. Ela, conscientemente -- e racionalmente -- fez o seu tratado de fé. Uma fé consciente, que com o passar do tempo passa a ser verdade absoluta, que te leva a uma paz interior inexplicável.

Paz que George Lonegan nunca mais teve depois de sua doença no cérebro quando ainda era criança. Ele fez uma opção: ou tomava pílulas e vivia como um vegetal o resto da vida, ou tentava conviver com a conexão com "o além". Numa cena chave, ele diz tudo: "às vezes, é bom não saber toda a verdade sobre os outros". No mundo espiritual, fora desse envoltório grosseiro que temos, a consciência é o juiz que tudo sabe. Quando nos depararmos com ela em nosso juízo final, precisamos estar preparados para o arrependimento que, fatalmente, virá. Enquanto isso, George ainda precisa aprender a conviver com a sua (autodenominada) maldição, que lhe afasta das pessoas e o obriga a ter uma vida solitária e proletária. (Caso você se interesse em saber, pode ser sim considerada maldição, pois todos temos capacidade mediúnica, basta treinarmos; aqueles que tem uma mediunidade forte, têm uma dívida muito forte com a espiritualidade e ela vem para ajudá-los a saldarem essa dívida rapidamente).

Já Marcus, apesar de protagonizar o segmento mais dramático de todos, sai desesperadamente atrás de respostas. No meio do caminho, ele depara com todos os tipos de charlatães que exploram a fé alheia e só consegue paz quando, perto do fim (não se preocupe, não é spoiler), todos os três se reúnem numa feira de livros em Londres. Pode chamar de acaso/coincidência, mas, citando um outro inglês, há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Na minha modesta opinião, o que tiver que ser, é.

O saldo final é que Mr. Eastwood não deixa nada mastigado. Ele, no mínimo, planta a semente da dúvida ao trazer o tema ao debate. Cabe a você decidir o que fazer. E olha que ele nem precisou mencionar Deus em nenhum momento do filme.


A
Hereafter (Clint Eastwood, EUA, 2010)
Quando: Janeiro/11 (Box Guararapes)

TRON - O LEGADO

Caprichado visualmente, porém, pobre em sua substância.


Sam Flynn é um típico rebelde sem causa. Herdeiro de um grande império eletrônico, ainda se recente do sumiço de seu pai, Kevin Flynn, há 20 anos. Inteligente e sem propósito claro (exceto a anarquia contra as grandes corporações), ele acaba achando seu pai, ao ser "escaneado" e "baixado" no mundo virtual da Grade, agora sob o comando de C.L.U.

C.L.U. foi o programa criado por Kevin Flynn a sua imagem e semelhança para buscar a perfeição no mundo digital enquanto ele saía por aí com o seu buddy Tron. Nessas andanças, eles descobrem uma nova categoria de programas. Eventualmente, C.L.U. chega à conclusão de que a perfeição só será alcançada após a eliminação de Flynn e dessa nova categoria de programas. Flynn é banido e tem início "o genocídio" desses novos programas na Grade. A história continua e o objetivo final de C.L.U. é transferir a perfeição da Grade para outro sistema: o mundo real.

Visualmente impecável, com uma trilha sonora bárbara, esse filme é uma afronta ao original de 1982. Apesar do Jeff Bridges digital, não há uma única inovação revolucionária, há apenas updates dos objetos criados há 29 anos. Aquele truque zen de atração no final foi a cereja do bolo.


B-
Tron: Legacy (Joseph Kosinski, EUA, 2010)
Quando: Janeiro/11 (Box Guararapes)
Sítio Oficialdisney.com.br/tron

FÚRIA DE TITÃS (2010)

O remake que confirma a máxima: muito barulho para nada.


O Fúria de Titãs (81) original pode estar com seus efeitos especiais datados para os dias de hoje, mas pelo menos tinha uma história decente e direta: os homens haviam deixado de adorar os deuses e como Zeus é arrogante e vaidoso, dá um ultimato à humanidade: se não sacrificarem a filha do rei como prova de adoração, eles serão varridos do mapa pelo temido Kraken. Já no remake, a negação à adoração dos deuses continua, mas Perseu dessa vez matará o Kraken por pura vingança pessoal e antes de fazê-lo, não cansará de reafirmar suas motivações ad nauseum, pois, apesar de semi-deus (é filho de Zeus com uma humana), ele o faria porque era humano (entendeu? nem eu).

As inovações não terminam por aí e a acochambrada mais risível é a reprodução, em plena Grécia Antiga, da sociedade atual de comercial de margarina: o rei, que ama a rainha, que amam sua filha e que vivem em uma harmonia irritante. Há ainda uma "guerra política" entre os deuses, pois Hades (o "dono" do Kraken) quer o lugar de Zeus, que na antiguidade havia se juntado com seu outro irmão, Poseidon para confinar o irmão "malvado" no reino inferior. Calibos, que no original era o filho de uma deusa que caiu em desgraça perante Zeus é o corno que era casado com a mãe de Perseus e que, agora, recebe poderes especiais de Hades para matar Perseu: do seu sangue nascem escorpiões gigantes.

A única ideia inteligente do filme são as Oráculos, onde Perseu descobre como matar o Kraken. A Medusa guerreira e com uma cauda de 300 metros é uma tragédia, assim como o Kraken, que só mostra a que veio depois de uma infinidade de tentáculos e um grito feito única e exclusivamente para abalar as paredes dos multiplex. Logo depois disso, ele vira pedra, depois de menos de 5 minutos na tela.

Pensa que acabou? Nããããão. Já não bastava o desenrolar idiota da história, eles a fecham com uma cagada monumental que ninguém poderia imaginar (olha o Spoiler!): Perseu não fica com a filha do rei que ele acabou de salvar. Ele está cagando para ela, pois, mais uma vez, faz questão de lembrar que ele fez tudo o que fez, como um humano, apenas para se vingar. Mas ele não é gay, o roteiro ainda inventa um prêmio de consolação: uma feiticeira que o ajudou a encontrar a medusa (até ser morta por Calibos) é revivida. E está pronto o gancho para a segunda parte (que, parece, já tem o sinal verde do estúdio).


E
Clash of the Titans (Louis Leterrier, EUA, 2010)
Quando: Setembro/2010 (DVD)

NOSSO LAR

Porque eu acredito.


Nosso Lar, o filme, é baseado numa obra psicografada por Chico Xavier e narra a trajetória e as impressões do médico André Luiz sobre a vida após o desencarne. É preciso deixar isso bem claro: você não é obrigado a acreditar. Nem é obrigado a aceitar cegamente, pois, repetindo, tudo o que é visto é de acordo com as impressões do médico André Luiz, um espírito sujeito a falhas como eu e você. Nesse sentido, não é doutrinário (a doutrina espírita é apenas os 5 livros codificados por Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno e O Evangelho Segundo o Espiritismo) e muito menos panfletário. É apenas uma história como outra qualquer de acordo com o ponto de vista de alguém escrita para fins de divulgação. "Uma obra de ficção"? Não necessariamente. Prefiro dar-lhe o benefício da dúvida.

Sobre a parte técnica, ou seja, enquanto obra cinematográfica, Nosso Lar é muito ruim. Apesar de super bem produzido (não fazem a menor questão de esconder que foram torrados R$ 20 milhões), falta coesão. Parece mais uma colcha de retalhos ajuntada do que um roteiro com começo, meio e fim.

Extremamente didático em muitos pontos e extremamente truncado em tantos outros, dizem que o objetivo era divulgar uma lição de vida para todas as pessoas, mas o resultado final será completamente diferente. A mensagem acabará dirigida apenas aos que acreditam e que têm alguma iniciação no assunto e nem a melhor política de marketing será capaz de ajudá-lo (apesar dos recordes de público). Culpa do roteirista-e-diretor que tinha um história riquíssima nas mãos e se mostrou incapaz de mostrá-la além dos lugares comuns.

Você acha que André Luiz foi parar no umbral por causa de uma vida frívola e “pecaminosa”? Errado. Ele foi parar lá porque ele se suicidou inconscientemente, pois ele fumou, bebeu e comeu em excesso a vida inteira e morreu em decorrência desses excessos antes do programado. A sobrinha de Lísias passou pouco tempo no mesmo umbral (pois a hora programada dela tinha chegado), mas ela se recusava a acreditar (ou se desvencilhar da matéria, como queiram). Foi por isso que ela voltou ao umbral. Enfim, resumir todas essas implicações em um parágrafo não é fácil e acredito que o roteiro não deve ter sido de fácil elaboração, mas eu tenho medo de cineastas-e-roteiristas. Apenas alguns poucos conseguem ser bons nas duas áreas. Custava uns 30 segundos de didatismo sobre o suicídio de André Luiz? Mais um pouco não faria tanta diferença.

Meu primeiro contato com Nosso Lar, o livro, aconteceu há 3 ou 4 anos, após mais uma reprise da novela A Viagem (que é baseada no livro e que eu vi pela primeira vez). Comecei a leitura por pura curiosidade. Achei engraçado toda a burocracia ("bônus-hora", ministro disso, ministro daquilo, hora para isso, hora para aquilo etc), mas hoje eu entendo os vários porquês, que no filme são apenas jogados ao vento e, uma vez ditos, nunca são retomados. Só para tentar esclarecer sem entrar em muitos detalhes: sabe aquela história de gravidez não planejada? É balela. Você escolheu seus pais, eles te escolheram e todos concordaram com o momento exato da fecundação. Antes de reencarnar, o espírito programa toda a sua vida. Não necessariamente vai acontecer conforme a programação, pois todos estamos sujeitos ao livre arbítrio dos demais, mas já está tudo previamente estabelecido e para gerenciar tudo isso, é preciso uma estrutura organizacional e trabalho, muito trabalho. Se você acha que você trabalha muito por aqui, nem queira saber quando chegar lá "em cima".

Que não é "fisicamente" a tantos kms da crosta terrestra. As colônias espirituais estão em outra dimensão e não vou tentar explicar, pois essa parte eu ainda não entendi direito. Quero apenas fazer um último esclarecimento: o espírito é energia (que está contida na materialidade do corpo). Ele não precisa se alimentar (a sopinha e a água só existem porque você se habitou a comer para alimentar o seu corpo e a transição matéria/energia não é fácil, o cache de sua memória ram não é imediatamente apagado). Já que é energia,  pode assumir a forma que quiser (apesar de que, logo após o desencarne, o espírito dificilmente conseguirá assumir outra forma senão aquela a qual ele está "acostumado") e de "trocar fluídos" (a luzinha verde).

São outras leis que regem o plano espiritual. Leis que não temos a menor condição de compreender com os conceitos que temos a mão aqui nesse plano de existência. Podemos apenas ter alguma noção a respeito. Essa é falha mais gritante do filme. Ele toma tudo como verdade e quer que o público cético aceite sem maiores explicações. Eu me incomodei com as atuações amadoras de muitos atores e as soluções gráficas e de roteiro extremamente simplistas para vários aspectos (mas gostei dos diálogos). Aquele umbral light (no livro é muito mais pesado) só não é pior do que aquele subúrbio carioca de cores berrantes ou a forma com que caracterizou a descrença da sobrinha de Lísias. Ela não foi resgatada pela segunda vez do umbral "porque rezou e se arrependeu". O resgate ocorreu no momento em que ela finalmente tomou consciência.

Eu só lamento a péssima qualidade do filme, mas se ele servir para o despertar de meia dúzia, já vai ter valido a pena. O correto não é "nunca é tarde para se recomeçar" (simplista!), mas sim "cedo ou tarde, você vai despertar". Ficou curioso? Leia o livro, não deve custar mais do que R$ 20. A história de Nosso Lar, o livro, é linda e muito mais rica do que a mostrada no filme (como toda adaptação livro-cinema). Ficou mais curioso ainda? Compre outro livro ou pesquise na internet, informação é o que não falta. Quando você se sentir preparado, passe para um dos 5 livros doutrinários (mas só se você se sentir preparado, pois eles não são de fácil leitura).

Sobre a falta de clímax para a história, volto ao debate crentes x céticos (usado apenas para contrapor um ao outro). Reconheço que o roteiro falha ao se resumir a uma mera descrição (por si só, falha) e que se você não "comprar a ideia", a história será enfadonha, mas na minha percepção, houve vários clímax. Vários. Foram tantos que eu nem senti as 2h da projeção passarem e apenas comecei a lamentar quando tomei consciência que o filme se encaminhava para o fim. Uma pena.

E que foi difícil sair da sala do cinema, ah, isso foi.

Nota (Dez/11): Um ano e quatro meses depois de ter visto esse filme, minha persepção do mundo mudou bastante, mas preferi não alterar o que escrevi. Se fosse assim, daqui um ano terei que voltar para alterar, pois se há algo nessa vida da qual tenho certeza absoluta é que não há verdades absolutas. Tudo muda. Ainda bem!


A
Nosso Lar (Wagner Assis, BRA, 2010)
Quando: Setembro/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: nossolarofilme.com.br

A EPIDEMIA

Não é impressão sua, você já viu esse filme antes.


A ideia original é de George Romero (The Crazies, 1973) e foi reclicada várias e várias vezes: numa pacata cidade perdida no tempo e do tamanho de um ovo, de repente, os habitantes começam a enlouquecer e a matar uns aos outros. Dias depois, chega o exército e você fica na dúvida entre quem são os mais loucos: os habitantes infectados ou o exército truculento.


A premissa é interessantíssima: do nada, a vida daquelas 1.200 e poucas pessoas é virada pelo avesso sem motivo aparente. Depois, que o primeiro habitante aparece ensandencido com uma arma na mão no meio de um jogo de basebol, descobrimos que um avião com um vírus de laboratório cai no rio que abastece a cidade com água potável. A cidade é isolada do mundo e chegam o exército, truculento, e um time de pessoas (cientistas? médicos?) com roupas antirradiação para separar os que têm febre (infectados) dos saudáveis. Os infectados são isolados e os saudáveis são transportados em caminhões como gado. Tudo sem a menor explicação.

O filme não é de todo ruim, há boas cenas, como a do lava-jato (claustrofóbica) e a que a doutora volta à sua casa e "surta", recolhendo as toalhas do varal e visitando o quarto do futuro bebê (sempre tem que ter um futuro bebê). Também é interessante a cena onde o grilo falante (aquele que vai explicar tu-di-nho para quem ainda não entendeu as inúmeras pistas que já tinham sido expostas) é introduzido e descartado.

Mas esse é um típico filme com foco no "público médio" que não está lá para discutir políticas não ortodoxas do governo. Você não está lá para refletir e sim para ver partes de corpos, corpos empilhados, "zumbis", sangue jorrando e ser assustado (mesmo que da forma mais previsível possível com os sustos-relâmpagos e o "suspense" de que tudo vai dar errado até serem salvos no último segundo). Nesse sentido, eu garanto: você não vai ter do que se queixar.

Só não é a minha praia.


D
The Crazies (Breck Eisner, EUA, 2010)
Quando: Agosto/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: thecrazies-movie.com

A ORIGEM

"Por que tão rocambolesco?"


Em O Cavaleiro das Trevas (08), a pergunta que se fazia para Christopher Nolan é: "por que tão sério?" Por que um filme sobre um homem que se veste de morcego e sai à noite para combater o crime tinha que ser tão verossímil?

Agora, a pergunta que eu faço é: por que você teve que fazer um roteiro tão grandioso? Porque o sonho é um labirinto? Me poupe. Isso para mim tem outra explicação. Aquela que é senso comum: se algo é pequeno, deve-se contrabalanceá-lo com algo "grandioso".


O visual é estupendo, reconheço. A originalidade da história sobre um crime perfeito também é muito boa (sim, essa é uma história sobre um crime perfeito!). Mas... para quê tudo isso? Sonho no sonho no sonho no sonho de alguém? O roteiro tem começo meio e fim, reconheço isso também. Mas é impossível filmá-lo no tempo proposto (e olha que são intermináveis 2h30). Solução: acelerador lá embaixo. Se piscar, fudeu.

Não pisquei. E mesmo que o tivesse feito, os grilos falantes estavam lá de tempos em tempos para nos situar na história e nos preparar para o próximo passo. Se mesmo assim, Morpheus me chamasse, a trilha sonora onipresente, onisciente e onipotente fazia questão de me preparar para o próximo clímax (um atrás do outro e do outro e do outro e ..... ). 

Mas saí do cinema decepcionado. Havia potencial na premissa. Muito, eu diria. O ego do diretor/roteirista não a deixou fluir. Sobre a cena final? Não se preocupe, não há nenhum spoiler. Há duas possibilidades, ambas igualmente possíveis. Há argumentos para corroborá-las e para desacreditá-las, depende de cada um e no seu sistema individual de crenças. Isso eu achei genial: a ideia foi plantada com sucesso.

Estou falando da discussão pós-filme e da vontade de muito em retornar às salas para "esclarecimentos".


B-
Inception (Christopher Nolan, EUA, 2010)
Quando: Agosto/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: br.warnerbros.com/inception

SALT

Quem é Evelyn Salt?


Essa é a pergunta que você se faz durante boa parte do filme. Salt é realmente uma espiã russa infiltrada ou é uma agente da CIA injustamente acusada? O roteiro é dúbio na medida certa e por isso é tão interessante, pois mesmo quando a resposta para a pergunta se torna evidente, você não tem plena certeza que é a resposta correta.

A trilogia Bourne trouxe consigo um novo estilo para os filmes de espionagem, o do "realismo real" de superespiões que, apesar de fazerem coisas aparentemente impossíveis, elas são, ao menos, factíveis. Os novos filmes do James Bond que o digam.

Salt, fica no meio termo. Às vezes, flerta com o "realismo real", mas tem uma queda mesmo é com o James Bond à la Roger Moore ou Pierce Brosnan. Dá para relevar e pensar que alguém supertreinado realmente conseguiria pular de caminhão em caminhão numa autoestrada, mas ou você acha factível alguém descer de um metrô em alta velocidade e não sofrer um único arranhão?

No mais, é um filme que sumirá da sua cabeça no dia seguinte, mas que cumprirá com competência aquilo para o qual foi feito: diversão despretensiosa.


B-
Salt (Phillip Noyce, EUA, 2010)
Quando: Agosto/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: sonypictures.com/movies/salt
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...