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CRONOS

Vampirismo latino


Em 1535, um alquimista à procura da vida eterna criou um dispositivo que acreditava ter esse poder. Ao morrer em um desabamento, tem sua macabra coleção de objetos leiloada. Porém, o dispositivo em forma de escaravelho permaneceu desaparecido por séculos até ser encontrado por Jesus Gris, um velho e pacato dono de um antiquário. Ao examiná-lo, várias pontas afiadas do objeto perfuram sua mão. Pronto, foi "picado" pela imortalidade. Seu preço: a busca incessante por sangue.

Em sua essência, Cronos é nada mais nada menos do que uma história sobre vampiros ambientada no México dos anos 1990. Porém, diferente de tantas outras que atualmente infestam o cinema, você mal nota. Para começo de conversa, não há CGI, apenas maquiagem. Não há nada de aversão ao sol, ou descanso em caixões. A imortalidade, ganha através da picada de um aparelho e não de uma mordida, deve ser mantida com sangue e só pode ser tirada se a pessoa tiver seu coração perfurado.

Contribui também o fato de que o protagonista não sabe o que está acontecendo com ele. Ele nem desconfia de onde vem seu desejo por sangue. Vê que está rejuvenescendo, mas não fica tecendo mil e uma teses a respeito. Sua única fonte de explicação é um velho e caquético milionário e seu sobrinho, que também estão à procura do escaravelho.

Para contrapor a parte "hard", há o "soft" da relação entre Jesus e sua neta Aurora, que não emite uma única palavra, mas que vê o rejuvenescimento e a decadência do avô sem questionamentos. Mesmo quando ele começa a adquirir uma aparência grotesca por não se alimentar, ela não sai do seu lado.

Primeiro longa-metragem de Guillermo Del Toro, vale como registro histórico de características que o seguirão em todos os seus trabalhos (inclusive a escalação de Ron Pearlman). Não há gore, apenas uma história digna do cinema fantástico que é contada como se conta uma história da "realidade real".


B
Cronos (Guillermo del Toro, MEX, 1993)
Quando: Abril/11 (Divx)
Sítio Oficial: ficha imdb

VIDA DE SOLTEIRO

All my life / I'm waiting for somebody / Ah-ha-ha / come and take my hand


O filme tem início e Paul Westerberg já está cantando os versos acima, da belíssima "Waiting for Somebody", enquanto os créditos correm soltos pontuados por imagens de Seatle. Logo mais, o filme não terá nem mesmo 5 minutos e outra música entrará em cena. Pronto: estamos em mais um filme de Cameron Crowe.

Mas não é um filme qualquer. É um filme ambientado em Seatle, no início dos 90's. O que isso quer dizer? É o ápice de "Era Grunge": Screaming Trees, Soundgarden, Pearl Jam, Alice in Chains & Cia. Todas essas bandas estavam em seu auge nessa época e todas estão na trilha sonora do filme, que ainda conta ainda com Smashing Pumpkins e sofre a ausência lastimável da mais famosa banda dessa época, o Nirvana.

Dizem as más línguas que Kurt Colbain não gostou do filme, que conta basicamente a história de Janet e Steve. Eles já foram namorados, mas agora são apenas bons amigos e moram no mesmo pequeno condomínio. Steve, engenheiro de tráfego, acaba conhecendo Linda, que é uma politicamente correta em ecologia, numa boate e Janet, que trancou o curso e arquitetura e agora trabalha num bar, está saindo com Cliff, que mora no mesmo condomínio e tem quatro empregos diferentes, além de ser um rockstar wannabe (e tem como integrantes da sua banda, Eddie Veder, Stone Gossar e Jeff Ament, mais conhecidos quando estão tocando junto como uma tal banda chamada "Pearl Jam").

O enredo básico pode parecer bobinho, e é, mas lá encima eu já disse que esse era um filme de Cameron Crowe, ou seja, esses quatro personagens serão tão bem construídos e críveis que você vai se sentir como se eles fossem seus melhores amigos de infância antes da metade do filme e assim, você vai torcer por eles. Isso também se chama identificação. Seja com os personagens, seja com o tema, ao mesmo tempo particular e ao mesmo tempo universal: a busca de sua alma gêmea.

Caso ainda não tenha se convencido, basta dar uma olhada em quem eram essas quatro pessoas: Bridget Fonda (Janet), Campbell Scott (Steve), Kyra Sedgwick (Linda) e Matt Dillon (Cliff) no início de suas carreiras. Outro motivo é Tim Burton, que faz uma participação especialíssima como um videomaker que, dizem no filme, seria o próximo Scorcese.

Pode-se não gostar do filme, assim como Kurt Colbain, mas uma coisa é certa: quer saber o que foi a cena grunge? Assista a Singles e saberá. E também ficará na sua memória Linda visitando o apartamento de Steve pela primeira vez e passando os olhos no painel de fotos ao som de "Radio Song" (entre vários outros momentos, é claro).


A
Singles (Cameron Crowe, EUA, 1992)
Quando: Junho/07 (TV)
Site Oficial: ficha imdb

L @MOUR EST À RÉINVENTER

10 curtas sobre novas formas de amor GLS no tempo da AIDS


Et Alors? (E agora?) narra a história de duas lésbicas após um jantar. Chega a hora da despedida e enquanto uma das duas se mostra empolgada com a outra, essa outra se mostra reticente. Até o final do curta, descobriremos o porquê. Gostei. Um Moment... (Um Momento) é sobre o fogo de dois amantes (gays) que chegam ao apartamento de um deles. Num dado momento, o que será o ativo da história percebe que está sem camisinha, mas diz para si mesmo que só vai continuar só mais um pouco... só mais um pouco... só mais um pouco... até que eles chegam às vias de fato sem preservativo. O curta é filmado a partir da perspectiva desse que será o ativo da história e tanto esse "olhar" diferente como o enredo me agradaram.

Tout n'est pas en noir (Nem Tudo é Negro) mostra o que um namorado não faz pelo outro ao rodar a cidade inteira atrás de caviar negro para que seu companheiro, que tem uma terrível doença de acordo com a vizinha, possa satisfazer o seu desejo. Também gostei. Tapin du Soir (Michê da Noite) é sobre um rapaz que está carente e dá uma de michê só para transar e não ficar sozinho em casa. Não fedeu e nem cheirou.

Enceite ou Lesbienne? (Grávida ou Lésbica?) é o pior de todos. Sobre uma moça que pergunta aos seus pais se eles preferem saber se ela está grávida ou se é lésbica. Acho que era para ser comédia, mas tem um cuco, um travesseiro de plumas, uma pena desse travesseiro que vai até o cuco e uns ângulos estranhos que provavelmente essa pseudo-cineasta pensava estar fazendo "arte". Ah, a moça não está grávida, ela é lésbica. Ded@ns (Dentro) é um monólogo de um rapaz em frente a uma câmera que conta que amaria ter/ser um monte de coisas. Dentre essas coisas, ele amaria ter alguém. Daí ele conta desde o momento em que eles se conheceriam numa danceteria, passando pelo momento aonde ele o apresentaria aos seus pais e por pequenas brigas que acontecem entre casais. Ele pára de filmar e recebe um telefonema de seu médico, dizendo que os exames que ele havia feito não estavam nada bons. Ele volta a filmar e diz que amaria ficar velho. Que amaria nunca ter encontrado aquele cara. Que gostaria de ter usado camisinha. Que não gosta do lado de fora de seu apartamento. Que prefere ficar lá dentro. Gostei muito desse, um roteiro bem inteligente.

Les Larmes du Sida (As Lágrimas da AIDS) narra a história de um belo rapaz que gosta de nadar nu e encontra um outro cara, num dia desses quando sai da água. A câmera segue a perspectiva desse outro cara, mas ele nunca fala. É sempre o belo rapaz que narra a história e narra o que esse outro diz a ele, que sempre responde à câmera. Bem, esse outro cara é casado e tem AIDS, mas mesmo assim, o belo rapaz aceita transar com ele, pois ele se apaixonou. Eles transam com camisinha e o filme termina com a morte desse outro rapaz. Gostei bastante desse, foi bem lírico, com belas imagens na praia, bons enquadramentos, um bom roteiro. Dans la décapotable (No Conversível) é sobre um casal que parte para um final de semana da praia. Um deles é o nerótico/metódico e o outro é o livre/desencanado. Não bastasse o neurótico já ser neurótico por natureza, ele está ainda mais neurótico porque esqueceu as camisinhas e sabe que o namorado nunca as tem, mas dessa vez é diferente... Essa resenha é ilustrava pelos dois dentro do tal conversível, pois é o que eu mais gostei. Comédia leve, desencanada, despretensiosa e muito legal.

La Mouette (A Gaivota). Esse é outro curta baseado nos delírios de uma pseudo-diretora metida à moderninha que pretende contar a história de uma moça e seu namorado na praia, sendo que a moça acaba se apaixonado por outra, que tem AIDS, e tem várias gaivotas no meio. Passável. Une Nuit Ordinaire (Uma Noite Qualquer) fecha a coletânea de forma simples e bela, com um rapaz apaixonado que sai da balada para dormir com o namorado, num hospital. Eles dormem juntos todas as noites, mesmo com o outro em estado terminal (a doença não é citada, mas é óbvio que se trata da AIDS).


B
L'@mour est à Réinventer - Dix Histoires au Temps du SIDA
(vários, FRA, 1996)
Quando: Junho/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

VELVET GOLDMINE

Um filme purpurinado


Brian Slade teve a premonição de que seria assassinado em uma de suas apresentações. A "visão" se concretiza e, anos mais tarde, descobre-se que foi tudo uma encenação, um puro golpe de marketing de uma carreira que estava em declínio.

Sou über-fã de David Bowie e do glam rock (apesar de nunca ter usado vestidos, maquiagem, purpurina no rosto, perucas ou brincos escandalosos) mas só agora é que eu consegui ver o filme que se passa na época em que Ziggy Stardust reinava absoluto nos palcos e nas vendagens de discos.

A reconstituição da época e o desenvolvimento da história são os pontos positivos do filme, que conta basicamente o redescobrimento da velha paixão de juventude de um repórter na casa dos seus 30 anos, designado para cobrir justamente a história da "morte" de Brian Slade pois ele era inglês e havia migrado para os EUA. Através de entrevistas com o ex-empresário que o descobriu, a ex-esposa (Toni Collette) e um ex-ídolo do rock (Mick Jagger? Iggy Pop?) que teve um "caso" com Brian (David?), ele vai montando o quebra-cabeças da ascenção, queda e "morte" de Brian (Ziggy Stardust?). Ao mesmo tempo, ele se lembra que esteve no show "fatídico", que era fã de Brian, das piadinhas que tinha que ouvir por "ser" daquele jeito e das brigas que tinha com o seu pai, que dizia que ele envergonhava a família se comportando daquele jeito.

Apesar de só ter visto esse filme agora, há males que vêm para o bem, pois tudo o que eu sabia sobre os atores é que eu pensava que o tal ídolo do glam rock era Ewan MacGregor, mas não, ele é o roqueiro, Brian Slade é Jonathan Rhys-Meyers e fechando a trinca, o repórter é o atual Batman, Christian Bale. Ah, tem também Toni Collette!


B
Velvet Goldmine (Todd Haynes, EUA, 1998)
Quando: Março/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

BAILE PERFUMADO

Lampião e Maria Bonita em 35 milímetros.


Eu estava tão louco para ver a estréia da nova temporada de Bauer, Jack Bauer e suas 24 Horas de adrenalina que driblei o sono para poder acompanhá-la. Num dos intervalos, quase tenho uma síncope, com o anúncio de que a seguir seria a vez de Baile Perfumado no Intercine Brasil. Há muito tempo eu queria revê-lo e assim que ele começou, o sono sumiu instantaneamente até o final do filme, pouco depois das 3h.

O filme conta a história (verídica) do libanês Benjamin Abrahão na década de 1930. Ele era uma espécie de marketeiro do Padim Ciço quando Lampião recebeu do pároco cearense a patente de capitão (para lutar ao lado do governo federal contra as forças da Coluna Prestes). Padim Ciço morre logo no começo do filme (1934) e o libanês tem uma idéia: filmar o Rei do Cangaço e seu bando na caatinga. Botando para rodar o seu círculo de favores, Benjamin acaba chegando a Lampião em 1936, que a princípio refuta a idéia, mas no fim, aceita.

O filme tem planos-seqüência originais e criativos, mas a historia também é entrecortada pelas imagens originais do Rei do Cangaço capturadas pelo verdadeiro Benjamin, exibindo um Lampião bem diferente do herói dos pobres, maravilhado com as modernidades como a máquina fotográfica, adorador de cinema, tomando wiskey, banhando-se em perfume francês e bailando juntamente com o seu bando em pleno sertão.

Pesquisando sobre o assunto, descobri que no total são apenas 11 minutos de filmagem das primeiras e únicas imagens do cangaço. Lampião logo se enche da filmagem e foge. O governo não gosta do que o libanês está fazendo e o sufoca financeiramente. Atolado em dívidas, ele se suicida. Só não consegui descobrir se é antes ou depois da morte e dacaptação de Lampião, que ocorreu em 1938.

No mais, o filme como um todo mexeu comigo tamanha a sua criatividade.

A
Baile Perfumado (Lírio Ferreira, BRA, 1997)
Quando: Janeiro/07 (na TV)
Site Oficial: não tem
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