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HOMENS E DEUSES

Vós sois deuses / Todavia morrereis como homens (salmo 82: 6-8)



Os fatos que antecederam a execução de oito monges católicos franceses de um mosteiro na Argélia por rebeldes argelinos em 1996.

A Argélia é a eterna vergonha francesa. Volta e meia há a produção de um novo filme que, se não trata diretamente da guerra civil que culminou no sangrento processo de independência argelina, trata indiretamente desse processo, como a tentativa de integração à “França Livre” dos habitantes da ex-colônia.

Em Homens e Deuses, o tema é a execução de monges franceses por rebeldes fundamentalistas muçulmanos após a recusa do governo de Argel em libertar líderes rebeldes aprisionados, mas não é sobre como se deu a execução, é sobre aqueles oito seres humanos abnegados que abriram mão da própria vida para não quebrarem os votos que fizeram ao aceitarem a missão de servir a Deus naquela região. Para tanto, grande parte do filme trata de humanizar aqueles “deuses” que trazem conforto a um região desolada. Antes de serem padres, eles são pessoas de carne e osso e como tais têm as suas limitações e, volta e meia, têm sua fé (seja ela qual for) testada.

Inicialmente, é mostrada a rotina do mosteiro. A aragem da pequena horta, o atendimento médico precário, as orações, as refeições. Quando o conflito surge, o governo oferece proteção armada ao mosteiro, que é negada pelo líder não declarado, Christian. Os demais monges não concordam com essa decisão e, quando lhes é dada a escolha de ficar ou serem transferidos, uns querem ficar, outros querem sair. Os que desejam ficar fazem suas escolhas pelos mais diversos motivos. Os que querem sair, não têm a certeza de estarem tomando a decisão correta.

Agora vem o aviso de Spoiler! que pode estragar (ou não) sua visão posterior do filme (caso ainda não o tenha visto). Siga por sua conta e risco.

O clímax se dá numa cena montada para emular A Última Ceia (é a foto acima). Com a trilha sonora de “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky, os monges são mostrados individualmente. A aura de deuses não existe mais. São apenas homens que transparecem a paz interna pela certeza de terem tomado a decisão correta. Nessa madrugada, o mosteiro é invadido. O que se segue é apenas história.


B+
Des Hommes et des Dieux (Xavier Beauvois, FRA, 2010)
Quando: Junho/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficialsonyclassics.com/ofgodsandmen

127 HORAS

Nunca se esqueça do seu canivete suíço.



História verídica de Aaron Ralston, aventureiro solitário (e um tanto quanto misantropo), que ficou com o seu braço preso por uma rocha durante 127 horas, até que ele teve que amputá-lo para poder sobreviver.

Danny Boyle é um diretor bastante criticado por suas firulas e excessos na edição. Bem, antes de considerá-los como "defeitos", prefiro encará-los como características.

Apesar da trama linear [em contraponto, por exemplo, a Quem Quer ser Milionário? (09)], o drama das tentantivas fracassadas de Aaron de se libertar é entrecortado com cenas de sua infância, o desejo ardente pelo isotônico que deixou no carro quando sua água acaba, sua punição por ter esquecido seu canivete suíço, a ironia de ter sua mochila um canivete Made in China (que não corta nada) que ganhou da mãe e por aí vai. Da mesma forma, os "momentos mortos" de Aaron e a pedra são quebrados pela fúria, pelo medo e pelas alucinações.

Portanto, o filme não seria possível sem essas estripulias Dannyboyliana e, claro, a James Franco, o que fez valer sua indicação ao Oscar e prova (se é que ainda é preciso) que ele não é apenas o rostinho bonito que veio ao grande público após a trilogia do Homem-Aranha.

A trilha sonora também segue o padrão Danny Boyle e o excesso, novamente desnecessário [(assim como o "5º elemento" de Sunshine (07)], é o grafismo explícito da amputação (com direito à radiografia do osso do braço ao ser quebrado) e a posterior sangreira (o que deixa a boca de James Franco como a de um vampiro após um banquete). É o momento mais tenso do filme, sem dúvida, mas logo após, há a redenção (o que não pode faltar num filme de superação), com uma belíssima música de encerramento (melhor do que a que concorreu ao Oscar, que aparece nos créditos finais).


B
127 Hours (Danny Boyle, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (UCI Recife)
Sítio Oficial127horas.com.br

VÔO 93

Exasperante.


Desde que esse filme chegou às salas de cinema brasileiras, eu esperava ansiosamente o dia em que ele estrearia aqui em Recife. Por uma infeliz coincidência, foi no mesmo dia em que um vôo da Gol caiu em Mato Grosso. Eu fiquei muito abalado e isso me fez querer dar um tempo antes de ir vê-lo, mesmo com o medo dele sair de cartaz em uma semana, ou ficar escondido numa sala de cinema num horário ingrato, como geralmente acontece com esse tipo de filme nessas bandas de cá. No domingo da eleição em primeiro turno, tinha me programado para assistir a O Diabo Veste Prada, mas como eu levei mais tempo preenchendo o comprovante de justificativa do meu voto do que esperando, cheguei mais cedo do que o planejado ao cinema. Dúvida cruel, pois esse filme começava em 10 minutos e o outro ainda demoraria 1h20.

No começo, um típico filme de catástrofe com cenas da vida ordinária e o seu rumo "normal", numa tomada panorâmica das ruas iluminadas de Nova York. O dia amanhece e conhecemos o centro de controle do tráfego aéreo dos EUA. Pensava que o filme se tratava exclusivamente do vôo da United Airlines, mas ele faz uma reconstituição não apenas desse vôo, mas sim de todo o stress que percorreu a sala de controle de tráfego, as informações desencontradas entre eles e o exército, as dúvidas sobre o que estava acontecendo quando eles perderam a comunicação com o primeiro avião e sobre quais vôos teriam sido seqüestrados ou não, a falta de comunicação com o presidente deles e a decisão de pousar todas as 4.200 aeronaves que sobrevoavam os EUA naquele momento.

O desconforto toma conta depois que você vê o rosto daquelas pessoas. Antes, as imagens do inconsciente coletivo eram "apenas" de um avião se chocando contra uma das torres do WTC, a posterior queda das duas torres, o incêndio no Pentágono e os destroços do único vôo que não atingiu o seu alvo: o vôo 93 da United Airlines.

O filme é claustrofóbico. Primeiro, porque você sabe que ele não vai terminar com um final feliz. Segundo, porque você aguarda ansiosamente o próximo passo da cadeia de eventos, que você já conhece a priori. Terceiro, porque assim que o vôo decola, um dos terroristas olha pela janela e vê as duas torres, ainda intactas. No meio de tudo isso, você percebe o caos que se instalou na sala de controle de tráfego e você fica tão perdido quanto eles devem ter ficado.

Não há heróis nesse filme. Não há bandidos. Não há tentativa de explicar o inexplicável. Há apenas a história de como tudo aconteceu, sem que um se sobressaia a outro, há apenas rostos e histórias pessoais. De 96 passageiros, de 6 comissárias de bordo, de 1 piloto e de 1 co-piloto.

O filme se desenrola de tal maneira que você sente vontade de estar lá dentro, de querer participar, de querer mudar a história.

Mas você sabe que não pode.


A
United 93 (Paul Greengras, EUA, 2006)
Quando: outubro/06 (UCI Recife)
Site Oficial: www.united93movie.com
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