.
.
Mostrando postagens com marcador Cine Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cine Brasil. Mostrar todas as postagens

NOSSO LAR

Porque eu acredito.


Nosso Lar, o filme, é baseado numa obra psicografada por Chico Xavier e narra a trajetória e as impressões do médico André Luiz sobre a vida após o desencarne. É preciso deixar isso bem claro: você não é obrigado a acreditar. Nem é obrigado a aceitar cegamente, pois, repetindo, tudo o que é visto é de acordo com as impressões do médico André Luiz, um espírito sujeito a falhas como eu e você. Nesse sentido, não é doutrinário (a doutrina espírita é apenas os 5 livros codificados por Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, A Gênese, O Céu e o Inferno e O Evangelho Segundo o Espiritismo) e muito menos panfletário. É apenas uma história como outra qualquer de acordo com o ponto de vista de alguém escrita para fins de divulgação. "Uma obra de ficção"? Não necessariamente. Prefiro dar-lhe o benefício da dúvida.

Sobre a parte técnica, ou seja, enquanto obra cinematográfica, Nosso Lar é muito ruim. Apesar de super bem produzido (não fazem a menor questão de esconder que foram torrados R$ 20 milhões), falta coesão. Parece mais uma colcha de retalhos ajuntada do que um roteiro com começo, meio e fim.

Extremamente didático em muitos pontos e extremamente truncado em tantos outros, dizem que o objetivo era divulgar uma lição de vida para todas as pessoas, mas o resultado final será completamente diferente. A mensagem acabará dirigida apenas aos que acreditam e que têm alguma iniciação no assunto e nem a melhor política de marketing será capaz de ajudá-lo (apesar dos recordes de público). Culpa do roteirista-e-diretor que tinha um história riquíssima nas mãos e se mostrou incapaz de mostrá-la além dos lugares comuns.

Você acha que André Luiz foi parar no umbral por causa de uma vida frívola e “pecaminosa”? Errado. Ele foi parar lá porque ele se suicidou inconscientemente, pois ele fumou, bebeu e comeu em excesso a vida inteira e morreu em decorrência desses excessos antes do programado. A sobrinha de Lísias passou pouco tempo no mesmo umbral (pois a hora programada dela tinha chegado), mas ela se recusava a acreditar (ou se desvencilhar da matéria, como queiram). Foi por isso que ela voltou ao umbral. Enfim, resumir todas essas implicações em um parágrafo não é fácil e acredito que o roteiro não deve ter sido de fácil elaboração, mas eu tenho medo de cineastas-e-roteiristas. Apenas alguns poucos conseguem ser bons nas duas áreas. Custava uns 30 segundos de didatismo sobre o suicídio de André Luiz? Mais um pouco não faria tanta diferença.

Meu primeiro contato com Nosso Lar, o livro, aconteceu há 3 ou 4 anos, após mais uma reprise da novela A Viagem (que é baseada no livro e que eu vi pela primeira vez). Comecei a leitura por pura curiosidade. Achei engraçado toda a burocracia ("bônus-hora", ministro disso, ministro daquilo, hora para isso, hora para aquilo etc), mas hoje eu entendo os vários porquês, que no filme são apenas jogados ao vento e, uma vez ditos, nunca são retomados. Só para tentar esclarecer sem entrar em muitos detalhes: sabe aquela história de gravidez não planejada? É balela. Você escolheu seus pais, eles te escolheram e todos concordaram com o momento exato da fecundação. Antes de reencarnar, o espírito programa toda a sua vida. Não necessariamente vai acontecer conforme a programação, pois todos estamos sujeitos ao livre arbítrio dos demais, mas já está tudo previamente estabelecido e para gerenciar tudo isso, é preciso uma estrutura organizacional e trabalho, muito trabalho. Se você acha que você trabalha muito por aqui, nem queira saber quando chegar lá "em cima".

Que não é "fisicamente" a tantos kms da crosta terrestra. As colônias espirituais estão em outra dimensão e não vou tentar explicar, pois essa parte eu ainda não entendi direito. Quero apenas fazer um último esclarecimento: o espírito é energia (que está contida na materialidade do corpo). Ele não precisa se alimentar (a sopinha e a água só existem porque você se habitou a comer para alimentar o seu corpo e a transição matéria/energia não é fácil, o cache de sua memória ram não é imediatamente apagado). Já que é energia,  pode assumir a forma que quiser (apesar de que, logo após o desencarne, o espírito dificilmente conseguirá assumir outra forma senão aquela a qual ele está "acostumado") e de "trocar fluídos" (a luzinha verde).

São outras leis que regem o plano espiritual. Leis que não temos a menor condição de compreender com os conceitos que temos a mão aqui nesse plano de existência. Podemos apenas ter alguma noção a respeito. Essa é falha mais gritante do filme. Ele toma tudo como verdade e quer que o público cético aceite sem maiores explicações. Eu me incomodei com as atuações amadoras de muitos atores e as soluções gráficas e de roteiro extremamente simplistas para vários aspectos (mas gostei dos diálogos). Aquele umbral light (no livro é muito mais pesado) só não é pior do que aquele subúrbio carioca de cores berrantes ou a forma com que caracterizou a descrença da sobrinha de Lísias. Ela não foi resgatada pela segunda vez do umbral "porque rezou e se arrependeu". O resgate ocorreu no momento em que ela finalmente tomou consciência.

Eu só lamento a péssima qualidade do filme, mas se ele servir para o despertar de meia dúzia, já vai ter valido a pena. O correto não é "nunca é tarde para se recomeçar" (simplista!), mas sim "cedo ou tarde, você vai despertar". Ficou curioso? Leia o livro, não deve custar mais do que R$ 20. A história de Nosso Lar, o livro, é linda e muito mais rica do que a mostrada no filme (como toda adaptação livro-cinema). Ficou mais curioso ainda? Compre outro livro ou pesquise na internet, informação é o que não falta. Quando você se sentir preparado, passe para um dos 5 livros doutrinários (mas só se você se sentir preparado, pois eles não são de fácil leitura).

Sobre a falta de clímax para a história, volto ao debate crentes x céticos (usado apenas para contrapor um ao outro). Reconheço que o roteiro falha ao se resumir a uma mera descrição (por si só, falha) e que se você não "comprar a ideia", a história será enfadonha, mas na minha percepção, houve vários clímax. Vários. Foram tantos que eu nem senti as 2h da projeção passarem e apenas comecei a lamentar quando tomei consciência que o filme se encaminhava para o fim. Uma pena.

E que foi difícil sair da sala do cinema, ah, isso foi.

Nota (Dez/11): Um ano e quatro meses depois de ter visto esse filme, minha persepção do mundo mudou bastante, mas preferi não alterar o que escrevi. Se fosse assim, daqui um ano terei que voltar para alterar, pois se há algo nessa vida da qual tenho certeza absoluta é que não há verdades absolutas. Tudo muda. Ainda bem!


A
Nosso Lar (Wagner Assis, BRA, 2010)
Quando: Setembro/2010 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: nossolarofilme.com.br

CÃO SEM DONO

Pelo direito de ser feliz.




Infelizmente, perdi esse filme no cinema, o que é realmente uma pena, pois o mesmo filme pode ser completamente diferente dependendo da maneira como você o vê. No computador ou na TV você dificilmente consegue prestar atenção total a um filme, pois fica mais fácil ir ao banheiro, um telefonema facilmente te atrapalha, a fome parece que nunca acaba, enfim, na sala escura, você se preparou, saiu da sua casa, sentou num lugar estranho e, se deixarem, você ficará 100% ligado em cada imagem que aparecer na telona.

Mesmo querendo muito assistí-lo há quase um ano, não acreditava no que estava vendo. Estava morrendo de tédio! Os pontos-mortos e o filme, aparentemente sobre o nada, já tinham torrado minha paciência... até que num dado momento, não sei exatamente qual, fui capturado. A partir desse ponto, fiquei hipnotizado e num crescente estado de emoções conflitantes até o final, esperançoso e aparentemente feliz, mas não sem muita desgraça até ele.

Ciro é um cara que vive para dormir, comer, beber e transar sem qualquer plano para o futuro. É tradutor de russo, portanto, não tem dinheiro para porra nenhuma, dependendo, aos 32 anos, dos pais para comer, beber, pagar o aluguel, transar.... até que conhece Marcela, que fica pouco tempo em sua vida, pois ela descobre que tem câncer e se afasta dele. Num dado momento, há a mudança de atitude de Ciro para com a vida. A sucessão de cenas fortes te esbofeteia de tempos em tempos, para te jogar no chão e te fazer se sentir um lixo (caso você se identifique com o personagem principal, claro).

É complicado terminar essa resenha, pois até agora não digeri direito o filme, que me trouxe tanto sentimentos bons quanto ruins, de coisas que eu percebo estarem erradas na minha vida, mas que, assim como Ciro em boa parte do filme, sou incapaz de resolvê-los.


A+
Cão sem Dono
(Beto Brant e Renato Ciasca, BRA, 2007)
Quando: Agosto/08 (DVD)
Sítio Oficial:
dramafilmes.com.br/caosemdono

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME

Nada como "o jeitinho brasileiro".


A história é simples: num povoado de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, o mal cheiro de um arroio incomoda seus habitantes. Formada uma comissão para levar a reivindicação da construção de uma fossa às autoridades, descobre-se que não há mais dinheiro disponível para saneamento básico no orçamento da prefeitura. Porém, há uma verba já liberada para a filmagem de um curta-metragem que, se não for realizado, será devolvida para Brasília.

Moral da história: os protagonistas resolvem fazer um filme para que, com o dinheiro restante, eles possam construir uma fossa. É o "jeitinho brasileiro" sendo utilizado, nesse caso, "para o bem", pois conforme a burocrata da prefeitura diz mais de uma vez, "pecado é devolver dinheiro para Brasília".

Esperava mais. Me disseram que esse filme era muito engraçado, mas fora uma meia dúzia de piadas óbvias, fiquei mais impressionado pela história de amor entre os personagens de Fernanda Torres e Wagner Moura (ele chega a vender a moto para ajudá-la na realização do curta) do que pela história principal, em si. Ah, o processo de filmagem de "O Monstro do Fosso" (o filme dentro do filme) é super-engraçado. E só.


B-
Saneamento Básico, O Filme (Jorge Furtado, BRA, 2007)
Quando: Setembro/07 (Multiplex Boa Vista)
Site Oficial: saneamento básico, o filme

OS 12 TRABALHOS

A vontade de mudar de vida, de recomeçar, na megalópole esmagadora e insensível.


Heracles vive na periferia de São Paulo e, depois de se misturar com as más companhias de sua comunidade, acaba na Febem. Após sair da instituição, consegue uma ocupação como motoboy na firma em que seu primo trabalha, mas para conseguir o emprego, precisará realizar 12 tarefas ao longo do dia.

Apesar de contar com a simpatia de alguns, Heracles precisará lutar contra a desconfiança, o preconceito e a falta de manejo em sua nova profissão. A seu favor, ele sempre arranjará um jeito de se virar e fazer as suas entregas. Ele encontra tempo para fazer uma entrega não prevista de um gato e um serviço de "mototaxi" ao levar uma moça ao aeroporto para que ela consiga se despedir do namorado que vai tentar a vida como cineasta na França (seria essa cena algum tipo de metáfora?). Infelizmente, o dinheiro extra arrecadado com essas duas tarefas não previstas vão para o "caixinha" do guarda que o multaria por estacionar irregularmente num local.

O dia termina e Heracles não cumpre os 12 trabalhos, pois uma tragédia, a morte de um colega de profissão, ocorre perto do final do expediente. O personagem que morre lhe havia confidenciado que queria sumir de São Paulo para montar uma barraquinha de cachorro-quente na praia. Ele, então, decide fugir da megalópole esmagadora e vai para o litoral, ver o pôr-do-sol na praia. Talvez sonhando com um futuro melhor e com um destino diferente do morto.

A trilha sonora, de André Abujamra, é, como sempre, maravilhosa.


B+
Os 12 Trabalhos (Ricardo Elias, BRA, 2006)
Quando: Maio/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: os12trabalhos.com.br

O CHEIRO DO RALO

Humor negro, ácido, políticamente incorreto e depravado.


Lourenço compra e vende objetos usados e faz questão de avisar a todo mundo que entra em seu escritório que o fedor que eles sentem vem do ralo do banheiro. Lourenço é solitário, amargo e depravado. Solitário porque resolve romper o seu noivado "com os convites do casamento na gráfica" e não obstante não demonstrar nenhum arrependimento, diz que nunca amou a noiva. Amargo porque o show de tipos bizarros que desfila na frente de sua mesa é apenas uma desculpa para ele soltar a sua verborragia, esculaxando pessoas desesperadas por dinheiro pelo simples fato dele possuir dinheiro, tendo a certeza de que pode comprar tudo e todos. A depravação vem do fato de que tudo o que lhe interessa é A BUNDA. Bunda, essa, que pertence a uma garçonete de um botequim xinfrim qualquer, que vende uma comida horrível, mas onde ele bate ponto somente para poder observar o objeto de sua depravação, quando ela se abaixa para pegar o refrigerante.

No meio da história há um olho de vidro que um desavisado lhe vende, mas eu não entendi direito qual a relação entre Lourenço e o olho. "O olho que tudo vê", talvez? Sei lá. No meio também há uma cena engraçada da ex-Tiazinha como instrutora de ginástica de um programa televisivo do qual Lourenço apenas se limita a babar e a repetir as últimas palavras das frases que sua musa pronuncia. Fetichismo puro.

Achei O Cheiro do Ralo um filme "diferente" e, por isso mesmo, interessante. Não há limites para a depravação de Lourenço e, apesar do "truque" fácil de cativar a audiência através do desfile de "gente bizarra" que lhe vende todo tipo de tranqueira, de caixas de música, passando por gramofones e pernas mecânicas japonesas, o filme diverte com o seu humor ácido, negro, escatológico etc. Não conheço o trabalho de Lourenço Mutarelli (de onde esse filme é baseado). Por isso, achei o filme bem original e fora dos padrões atuais do cinema brasileiro.

B+
O Cheiro do Ralo (Heitor Dhalia, BRA, 2007)
Quando: Maio/07 (UCI Recife)
Site Oficial: ocheirodoralo.com.br

O CÉU DE SUELY

Um filme sobre o não-pertencer. E sobre a garupa de uma moto que você torce para que não esteja vazia.


Hermila saiu da pequena e miserável Iguatu para tentar a sorte em São Paulo juntamente com aquele pelo qual estava apaixonada. Embuchou, as coisas em Sumpaulo não deram muito certo e ela volta para o sertão cearense juntamente com o seu filho no colo. O marido viria depois.

Em Iguatu, Hermila tenta se readaptar à uma vida da qual ela quis fugir. Seu único alento é que com a chegada do marido, ela consiga achar um sentido para a sua vida, mas ele a engana e não vem. Ainda lutando para achar o seu lugar naquele fim de mundo, Hermila se encontra com o seu antigo namorado, ainda apaixonado por ela. Mas Hermila não quer se envolver novamente, o que ela quer é sair de lá. Sem dinheiro para a passagem de ônibus, resolve rifar o seu corpo. O feliz ganhador ganhará uma noite no paraíso com Suely. A rifa é um enorme sucesso, ela consegue o dinheiro necessário para sumir de Iguatu e vai embora, deixando o filho aos cuidados de sua avó e de sua tia. João, o ex-namorado, ainda tenta dissuadí-la até a última cena, fortíssima.

A parte técnica eu deixo por conta de pessoas mais capacitadas para analisá-la. Num momento em que eu penso em fazer o meu próprio caminho inverso, retornando às minhas origens com o rabo entre as pernas, resta dizer apenas que esse foi um dos melhores filmes que eu vi em minha vida e que deve ser obrigatório pra todos.


A+
O Céu de Suely (Karin Aïmouz, BRA, 2006)
Quando: Março/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: www.oceudesuely.com.br

CELESTE E ESTRELA

Uma interessante comédia romântica made in Brazil.


Há males que vêm para o bem. Com o horário de verão, a programação da televisão aqui no nordeste fica uma hora mais cedo. Apesar de ter a parte ruim como, por exemplo, o Jornal Nacional às 19h15, pelo menos pude conferir 24 Horas e Lost sem grandes sobressaltos. Numa dada segunda-feira, num dos intervalos de Lost, descubro o filme que ia passar logo após. Tomado por objetivos lascivos, libidonosos e nada nobres, fiquei grudado na telinha esperando seu início.

Enquanto babava pelo objeto do meu desejo, acompanhei a história de Celeste, uma curta-metragista premiada e cineasta iniciante que era a perfeita bicha-grila, adepta do amor livre, fumava maconha, adorava colocar simbolismo em seus curta-metragens e que tinha como objetivo de vida, a denúncia dos abusos da burguesia dominante. Para ela, os pobres de Brasília eram os intestinos da cidade. Seu contraponto era Paulo Estrela, o cinéfilo burocrata do Ministério da Cultura e careta que de repente se vê apaixonado por Celeste.

O "relacionamento" dos dois é apenas o pano de fundo para mostrar o caminho das pedras que um cineasta precisa percorrer para filmar no Brasil. Enquanto Celeste vive mudando de cidade, aceita ser a assistente da assistente da assistente da assistente de direção de um famoso cineasta, faz gato e sapato de Estrela com o seu jeito livre de ser. Esse último, como um perfeito cachorrinho, fica bolando mil e uma idéias sobre como viabilizar longa metragem de sua amada e, assim, conquistá-la. Inicialmente, o filme "Amores Impossíveis" contaria uma história de amor no passado, no presente e no futuro durante 15 gerações. No final, ela acaba focando apenas na época da escravidão. O filme, com 250 espectadores durante sua única semana de exibição só se torna sucesso no exterior, quando ganha um festival na Alemanha. Metaliguagem é pouca, inclusive com os personagens do filme dando pitacos durante todo o processo de filmagem do filme dentro do filme e de um professor de cinema explicando o que um roteiro deve ter e o que não deve ter para criar empatia com o público.



B
Celeste e Estrela (Betse de Paula, BRA, 2005)
Quando: Março/07 (TV)
Site Oficial: www.celesteeestrela.com.br

BAILE PERFUMADO

Lampião e Maria Bonita em 35 milímetros.


Eu estava tão louco para ver a estréia da nova temporada de Bauer, Jack Bauer e suas 24 Horas de adrenalina que driblei o sono para poder acompanhá-la. Num dos intervalos, quase tenho uma síncope, com o anúncio de que a seguir seria a vez de Baile Perfumado no Intercine Brasil. Há muito tempo eu queria revê-lo e assim que ele começou, o sono sumiu instantaneamente até o final do filme, pouco depois das 3h.

O filme conta a história (verídica) do libanês Benjamin Abrahão na década de 1930. Ele era uma espécie de marketeiro do Padim Ciço quando Lampião recebeu do pároco cearense a patente de capitão (para lutar ao lado do governo federal contra as forças da Coluna Prestes). Padim Ciço morre logo no começo do filme (1934) e o libanês tem uma idéia: filmar o Rei do Cangaço e seu bando na caatinga. Botando para rodar o seu círculo de favores, Benjamin acaba chegando a Lampião em 1936, que a princípio refuta a idéia, mas no fim, aceita.

O filme tem planos-seqüência originais e criativos, mas a historia também é entrecortada pelas imagens originais do Rei do Cangaço capturadas pelo verdadeiro Benjamin, exibindo um Lampião bem diferente do herói dos pobres, maravilhado com as modernidades como a máquina fotográfica, adorador de cinema, tomando wiskey, banhando-se em perfume francês e bailando juntamente com o seu bando em pleno sertão.

Pesquisando sobre o assunto, descobri que no total são apenas 11 minutos de filmagem das primeiras e únicas imagens do cangaço. Lampião logo se enche da filmagem e foge. O governo não gosta do que o libanês está fazendo e o sufoca financeiramente. Atolado em dívidas, ele se suicida. Só não consegui descobrir se é antes ou depois da morte e dacaptação de Lampião, que ocorreu em 1938.

No mais, o filme como um todo mexeu comigo tamanha a sua criatividade.

A
Baile Perfumado (Lírio Ferreira, BRA, 1997)
Quando: Janeiro/07 (na TV)
Site Oficial: não tem

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS

Um road movie especial e único.


Eu morava em João Pessoa quando esse filme chegou pelas bandas de lá. Tão "sem alarde" chegou, foi embora e eu só descobri na semana seguinte ao folhear um jornal antigo. Felizmente, ele foi escolhido como o representante brasileiro ao Oscar e re-estreou em algumas capitais, Recife inclusa.

Na década de 1940, Johan é um alemão que vem parar no Brasil fugindo da guerra. Mais precisamente, ele está no sertão nordestino vendendo "a solução para todos os males": a Aspirina. Enquanto conduz seu caminhão pelas áridas quebradas nordestinas, vai dando carona para quem pede e um desses, Ranulpho, aceita trabalhar para ele para poder seguir o seu sonho: fugir do nordeste com direção ao Rio de Janeiro.

Ranulpho questiona o "patrão" sobre a maneira dele conseguir vender algo novo para um povo avesso ao que é estranho. As "armas" do galego são um projetor de cinema e uma lona, aonde ele passa cenas da cosmopolita São Paulo dos anos 40 entrecortadas com propagandas da pílula que se diz ser a solução de todos os males.

O filme é tão cheio de pequenos detalhes, cada um tão importante quanto o outro que eu poderia fazer um texto enorme e mesmo assim correria o risco de esquecer algum. Seja do cara que vende comida caseira, seja da mulher com a galinha (ela é creditada assim nos créditos finais, juro!). Tem também aquela cena, quando Ranulpho tenta de todas as formas chamar a atenção de uma moça, que só tem olhos para o galego. E a frustração dele no dia seguinte? Impagável!

Também é difícil colocar em palavras o sentimento de Ranulpho de querer fugir da miséria e da falta de perspectiva e o de Johan de não querer voltar para o seu país, pelo medo de morrer numa guerra na qual ele não acredita.

Interessante é uma cena quando os dois já "tomaram todas" e Johan diz que se eles estivessem num campo de batalha, estariam em lados opostos. Aí ele diria para os seus colegas alemães "tá vendo aquele alí? Reclama de tudo". Já Ranulpho, para seus companheiros, diria "tá vendo aquele galego alí? Ele acha que tudo é interessante, tudo é interessante. Ôxi!" E cai de bêbado depois de reclamar que o alemão não sabia brincar por tê-lo matado com uma espiganda imaginária.

No dia seguinte, Johan já decidiu: vai tentar a vida na Amazônia como seringueiro para não ser deportado. O destino de Ranulpho é outro e eles se despendem na estação de trem, cada um rumando para o seu destino.

E você fica com um aperto no coração. Aquele mesmo aperto que você sente quando se despede de um amigo que não verá por um bom tempo.

A+
Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes, BRA, 2005)
Quando: Outubro/06 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: www2.uol.com.br/urubus

ZUZU ANGEL

Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho? / Só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar.


Ser crítico de cinema não deve ser fácil. Deve ser difícil se deixar envolver por um filme quando se está mais preocupado com o timming do roteiro e da direção ou então com a iluminação, com o som etc. Talvez por causa disso, os especialistas não teceram muitas críticas favoráveis ao filme.

O meu intuito aqui será fazer algo diferente, pois a história me tocou e eu vi o filme num único fôlego. Quando dei por mim, já estava escutando a canção de Chico Buarque no toca-fitas do carro semi-destruído de Zuzu.

Para quem não conhece a história, Zuleika Angel Jones (1921-76), a Zuzu Angel, era uma famosa estilista de carreira internacional que teve a sua vida virada pelo avesso quando o filho, Stuart Angel, foi preso, torturado, morto e teve o seu corpo jogado ao mar. Antes uma alienada estilista e dona de boutique que costurava vestidos coloridos para as esposas dos generais, Zuzu se transforma com o desaparecimento do filho e o filme é bem sucedido ao retratar a diferença entre a alienação anterior e o engajamento posterior, com suas coleções de tons sombrios, com pássaros enjaulados e anjos feridos.

Ponto para o diretor e para os atores, pois os globais de plantão não parecem estar atuando nas novelas televisivas. Você até consegue esquecer seus rostos e seus trejeitos, especialmente Luana Piovani, que interpreta a compridona e tresloucada Elke Maravilha e está presente numa cena interessantíssima aonde traduz para a protagonista, Patrícia Pilar, a canção que a verdadeira Elke e seus figurinos espalhafatosos canta em russo.

Zuzu não deu sossego aos milicos, tanto que foi silenciada em um "acidente" automobilístico. Infelizmente, a ditadura militar acabou somente 9 anos após a sua morte, depois de uma abertura "lenta, gradual e constante" implementada a partir de 1975 pelo "presidente" Geisel.

Eu me lembro de ter ficado chocado quando vi, ainda pré-adolescente, Pra Frente Brasil (83). Me perguntava se era possível que "eles" tivessem feito tudo aquilo com o personagem de Reginaldo Farias só porque ele dividiu um taxi com um "comunista".

Hoje, eu sei que sim, "eles" fizeram tudo aquilo e muito mais. Agora, basta torcer para que esse filme se torne um blockbuster tupiniquim para que as novas gerações saibam o que fizeram nesse país com várias e várias pessoas.

E que um dia a gente ainda consiga escorraçar os nomes dessa corja de nossas pontes e nossas avenidas.


B-
Zuzu Angel (Sérgio Rezende, BRA, 2006)
Quando: Ago/06 (UCI Recife)
Site Oficial: wwws.br.warnerbros.com/zuzuangel

ÁRIDO MOVIE

Uma viagem. Em todos os sentidos da palavra.


O último filme nacional que eu tinha visto antes dessa viagem alucinógena, entre outros locais, pelo sertão pernambucano tinha sido Irma Vap, O Retorno (06). Me lembro de ter saído desconfortável da sala de projeção, pois o filme foi legal, mas sem "alma". Foi um filme totalmente fechado, pasteurizado. Sabe aqueles acrobatas muito bem treinados que não sorriem? Então, fiquei me perguntando se esse era realmente o cinema nacional que a "sociedade" demandava.

Dando uma olhada nas bilheterias, vi que não. Fiquei um pouco aliviado, mas nem tanto pois o campeoníssimo de audiência desse ano é Se eu Fosse Você (06). Noves fora o casal de protagonistas estar na (então) novela da oito, meu desconforto aumentou ainda mais, assim como o descrédito com a produção nacional.

Felizmente, Árido Movie está aí para me contradizer, assim como seus conterrâneos nordestinos Amarelo Manga, Cidade Baixa, Cinema, Aspirina e Urubus e Madame Satã (só para citar os mais recentes). Longe dos estúdios pasteurizados e das estrelas globais de primeira grandeza, há todo um cinema "pobre" em recursos, mas riquíssimo em idéias.

Divagações à parte, vamos falar a respeito do filme sobre o ilustre filho da cidade de Rocha, no sertão pernambucano, que volta à cidade natal para o enterro do pai. O roteiro básico, ou melhor, o fio condutor da trama esta aí. Agora, a "gordura" que o roteirista impõe ao longo do filme é, por si só, várias viagens.

O road movie é protagonizado pelos três amigos maluquinhos (e maconheiros) do protagonista, responsáveis pelas principais cenas do filme, como aquela no bar do Zé Elétrico (José Dumont) dançando Renato e seus Blue Caps com a luz azul com bolinhas cor de creme. Tem também "O Velho", objeto principal do documentário que Soledad, a personagem de Giulia Gam, está fazendo e é magnificamente interpretado por Zé Celso Martinez Corrêa.

Sim, claro, há também a história do protagonista "principal", Guilherme Weber, do filme e sua viagem interna às suas raízes. À uma cidade da qual ele saiu quando tinha 5 anos e aonde não conhece ninguém. Mas todos o conhecem, pois ele é o "homem do tempo" da televisão e todos os dias entra na casa de seus habitantes.

E é claro que ele também protagoniza uma "viagem" lisérgica, dessa vez providenciado por Zé Elétrico e um chá de sei lá o quê.

Lirinha, o vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado também não sai incólume da "viagem", como ajudante d' "O Velho". Se normalmente ele já tem cara de maconheiro, falas de maconheiro, jeito de maconheiro, imagina nesse filme!

Pensa que acabou?

Pedra do Elevante Semi-Enterrado de um lado, Pedra do Cachorro Sentado de Costas do outro, forquilhas para procurar água, vingança pela morte do patriarca da família, extermínio dos índios, plantações de maconha (numa alusão a Sonhos (90), de Akira Kurosawa, e a um clipe de Legião Urbana), bares em beira de estrada, seitas comandadas por um maluco... cabe de tudo um pouco nessa maravilhosa viagem. Ops! Nesse divertidíssimo filme.


B+
Árido Movie (Lírio Ferreira, BRA, 2005)
Quando: ago/06 (Cinema do Parque)
Site Oficial: http://www.aridomovie.com.br

IRMA VAP - O RETORNO

Uma homenagem a Marco Nanini, a Ney Latorraca e à peça Irma Vap.


Eu fui um dos espectadores da peça Irma Vap. Sim, a peça é tudo isso que falam e os dois atores estavam ótimos. Interessantíssima a "idéia" da troca de roupa em tempo record para os inúmeros personagens que cada um dos dois interpretavam.

Se você espera o mesmo no cinema, então não perca o seu tempo. Marco Nanini e Ney Latorraca interpretam apenas dois personagens cada, dentre eles, os protagonistas da peça original. Nanini ficou paralítico e aos cuidados dele mesmo, ou seja, de sua irmã dominadora. Ney Latorraca, que mora com ele mesmo, ou seja, com a sua mãe, continua atuando, mas em decadentes shows de boites até que é escalado para ser o diretor de uma remontagem de Irma Vap, com uma nova dupla de atores como protagonistas.

Eu gostei de Carlota Joaquina (95) e Copacabana (01). Como tinha gostado da peça, resolvi conferir a nova produção de Carla Camurati. A cena do enterro diz muito do que esperar do cinemão brasileiro para o "povão": vários globais. Dessa vez, não havia apenas os atores de novelas, mas também uma boa parte do elenco de Zorra Total, inclusive aquele estranhíssimo de olhos esbugalhados (Fernando Caruso), que é um dos novos protagonistas da peça. O outro é Thiago Fragoso.

O grande problema do cinema nacional é definir qual o seu público e qual a mensagem que quer passar. Estava desconfortável na cadeira do cinema, pois esse filme não fedia e nem cheirava, apesar da homenagem à O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (62), com Nanini "refazendo" os papéis de Joan Crawford e Bette Davis. Mas no final, descobri qual a mensagem desse filme. É uma homenagem à peça, a Marco Nanini e a Ney Latorraca. E eles merecem. Já o filme, bem... assista-o apenas se não tiver nada melhor.


C-
Irma Vap - O Retorno (Carla Camurati, BRA, 2005)
Quando: Abr/06 (UCI Recife)
Site Oficial: não tem.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...