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POESIA

Tempero agridoce


Mija é uma avó sexagenária que trabalha como diarista para complementar sua pensão para sustentar seu neto adolescente. Um dia, ao descer do ônibus, vê o cartaz de um curso de poesia e decide se matricular, pois sempre teve vontade de escrever poesias, mas nunca conseguiu. Paralelamente, seu neto, juntamente com outros amigos, se envolve no estupro de uma colega de classe que acaba se suicidando.

Para escrever sua poesia, Mija precisa ver o mundo com outros olhos. Uma maçã não é apenas uma maçã. Há a cor, a tonalidade, a forma, o sabor... Ela precisará encontrar algum tipo de beleza no mundo que vive, apesar do neto participar de um estupro que motivou o suicídio de uma pessoa. Para piorar sua situação, ela precisa encontrar inspiração o mais rápido possível, pois foi diagnosticada com Alzheimer e já começa a se esquecer de palavras básicas. Logo, não poderá mais escrever nem mesmo a receita de um bolo.

Um fato curioso é mostrar uma igreja católica encravada no subúrbio de Seul (é onde ocorre a missa de sétimo dia da jovem que se suicidou). Uma instituição tão ocidental e tão diferente dos valores que nos são passados do oriente soa tão estranho...

No final, Mija descobre que poesia não é, necessariamente, sobre o belo. A descrição de um simples banco enferrujado de jardim pode conter muita poesia. Como trabalho de conclusão de curso, Mija entrega como ela acredita que deve ter sido os últimos dias daquela menina. Para fazer chorar o mais insensível ogro.

A poesia não precisa ser sobre o belo, mas o filme Poesia é um belo filme.  


B+
Shi (Lee Chang-dong, Coreia do Sul, 2010)
Quando: Maio/11 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

LADY VINGANÇA

Tenha muito, muito cuidado com uma lady vingativa.


Levei 20 minutos só para entender o que estava acontecendo no filme. Quando dei por mim, ela já tinha cortado o dedo fora e até agora eu não sei o motivo. O final, aparentemente "bobinho" e "surreal", com um clima à la Tarantino, tem um subtexto interessantíssimo sobre como "pessoas acima de qualquer suspeita" podem descer do seu pedestal para vingar a morte de entes queridos.

A jovem Lee Geum-Ja, aos 19 anos, é condenada a 13 anos de prisão pelo seqüestro e assassinato confesso de um menino de 6. No entanto, ela não é a verdadeira culpada pelo crime. O assassino, seu namorado, ameaçou matar sua filha caso ela não confessasse ter cometido o crime. Na prisão, Lee Geum-Ja cria toda uma rede de amizades que serão fundamentais para pôr em pratica o seu plano de vingança.

Esse é o terceiro filme da "trilogia da vingança" de Chan-wook Park e, apesar de não ter visto o primeiro filme, Senhor Vingança (02), posso perfeitamente compará-lo com Oldboy (03). A fotografia é bonita e a história é bem escrita, apesar do processo de filmagem ser complexo, com vários flashbacks e narrações em off. Entrento, achei inferior à Oldboy e me considero incapaz de tecer maiores comentários. Talvez seja necessário faz uma revisão mais tarde. Quem sabe assim eu acabo descobrindo que porra foi aquela dela cortar o dedo fora...


B
Chinjeolhan Geumjasshi (Park Chan-Wook, Coréia do Sul, 2005)
Quando: Setembro/07 (Multiplex Boa Vista)
Site Oficial: ladyvengeancemovie.com

O HOSPEDEIRO

Um tapa com luva de pelica ao imperialismo americano (entre outras críticas).


O início do filme já mostra muito do que se pode esperar até o seu final, com um pesquisador estadunidense ordenando que o seu subalterno jogue dezenas de frascos de um líqüido extremamente tóxico no ralo da pia. O subalterno tenta convencê-lo do contrário, pois isso levaria o líqüido para o rio Han, que corta Seul, e causaria um desastre ecológico. Mesmo assim, o líqüido é despejado.

Na segunda cena, temos a primeira menção ao aparecimento de um "bicho estranho", com várias caudas, quando ele é capturado ainda como um pequeno lambari pela caneca de um pescador, mas é devolvido ao rio.

Na terceira cena, somos apresentados aos protagonistas da história e ao seu herói/anti-herói, um dorminhoco e meio abobalhado, ou seja, se esse fosse um filme indie, ele seria o perfeito looser. Ele, sua filha e seu pai moram e trabalham num trailer às margens do rio Han. Nesse belo dia ensolarado já temos, de sopetão, o primeiro ataque do monstro, que faz uma verdadeira carnificina no parque, levando consigo, Hyun-seo, a filha de Kang-du Park, o nosso herói/anti-herói.

Todos que estavam no parque são isolados em quarentena, pois acredita-se que ele seja o hospedeiro de um vírus que havia matado um "bravo soldado estadunidense em férias". Nesse tipo de hospital, Kang-du recebe uma ligação de Hyun-seo, dizendo que ela estava numa espécie de esgoto. Como ninguém quer escutar o que um "louco em estado de choque" tem a dizer, Kang-du, seu pai, seu irmão, um universitário desempregado que havia participado de protestos contra o governo no passado e sua irmã, uma bem-sucedida arqueira olímpica, resolvem escapar desse confinamento para salvarem a menina.

É um filme político, com pesadasíssimas críticas aos Estados Unidos. É um filme-família, mesmo sendo de uma família meio "capenga", mas que se une para salvar a mais indefesa entre eles. É um filme cômico, com diversas "tiradas" engraçadas para quebrar a tensão. E é um filme de monstro, com um monstro simplesmente espetacular, bem concebido e bem feito, que protagoniza cenas angustiantes.


A
Gwoemul (Joo-ho Bong, Coréia do Sul, 2006)
Quando: Julho/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: hostmovie.com

SONHOS COM XANGAI

Sonhos não realizados


Como economista, eu fico impressionado com o vigor econômico chinês. Apesar de ter consciência das engrenagens econômicas desse "milagre", minha análise não é completa pois as transformações sociais não são tão amplamente divulgadas quanto as econômicas. Dessa forma, o cinema é uma das alternativas para tentar entender esse fenômeno e me chamou a atenção a sinopse desse filme, que é sobre uma família que antigamente habitava em Xangai, mas que há 10 anos foi para uma distante região no interior do país para trabalhar numa fábrica de peças no início dos anos 80 e que sonha em retornar à sua antiga cidade.

Mais especificamente, a história é sobre uma menina com os seus 15/16 anos e o sonho de seu pai de voltar para Xangai, algo que o governo não permite, e de vê-la numa universidade. O choque de gerações entre a China tradicionalista, representada pelos pais, tanto da protagonista como de sua melhor amiga, e a China moderna, com os rapazes usando calças boca-de-sino bem ao estilo de Elvis Presley e as moças com os cabelos encaracolados e vestidos mais "ousados", ocorre.

O pai da protagonista é um verdadeiro fascista dentro de casa, apesar de fazer parte do sindicado da fábrica. A moça tem que ir de casa para a escola e da escola para casa, pois ela tem que estudar para entrar numa universidade. A marcação cerrada é a tal ponto que eles se encontram na saída da escola para que ele possa "escoltá-la" de volta para casa. A mãe é mais liberal, mas é voto vencido dentro de casa. O contraponto é sua melhor amiga, que tem uma educação mais liberal.

Um outro tema do filme é a denúncia da política chinesa de deslocamento de grandes massas populacionais e a impossibilidade de livre trânsito dos trabalhadores, que são obrigados a ficar aonde foram locados, mesmo contra a vontade deles.

O filme é interessante, as relações são bem construídas, mas o ritmo é de uma monotonia que beira o insuportável na maior parte do filme, entrecortados por dramalhões bem ao estilo mexicano. Na tentativa de se fazer um cinema "de arte", dá-lhe planos longos, abertos e diálogos quase inexistentes em vários momentos.


C-
Sonhos com Xangai (Qing Hong, China, 2005)
Quando: Abril/07 (UCI Recife)
Site Oficial: ficha imdb

PARADISE NOW

As motivações de dois homens-bomba palestinos na preparação de um atentado à bomba em Tel-Aviv.


Esse é um daqueles filmes que chegam a te dar um desconforto, pois ao mostrar as motivações que levaram Said e Khaled a participarem como homens-bomba em um atentado, você acaba criando empatia pelo protagonista, Said. Piora ainda mais quando Suha entra na história e mostra que tem "um carinho muito especial" por Said. Pronto, agora você torcerá para que os dois terminem juntos no final.

Entretanto, se eles terminarem juntos, à la Hollywood, qual seria a razão do filme? Num certo momento, Suha descobre o que os dois vão fazer e tenta convencer Kaled, até então o mais propenso dos dois (Said, aparentemente, está em dúvida), de que essa não é a melhor maneira.

O vilão da história, não é Israel. É Jamal, que tem toda a pinta daqueles estudantes de sociais que andam de chinelo, têm Che Guevara como ídolo-mor e são barbudos e cabeludos. Jamal é o equivalente ao general americano que fica em bunkers com ar-condicionando planejando o que a peãozada, ops!, os soldados, fazem no campo de batalha. Num dado momento, Kaled pergunta a ele o que aconteceria depois que eles explodissem. Ele não pensou duas vezes e disse que um anjo viria buscar cada um deles (eu procurei ver se em algum momento haveria menção às 7 virgens, mas não houve nada).

O ponto positivo fica por conta do fato de mostrar uma história que a maioria conhece, a formação dos homens-bomba, do ponto de vista deles, os palestinos. Não é "alguém me disse que é assim". Eles estão lá dizendo como realmente é. Como é viver no meio de ruínas, em um amontoado de casas sem saneamento e sem perspectivas de um futuro melhor. O contraste com Tel-Aviv, que é mostrada, é gritante (talvez... intencional?).

Se Said puxa a corda no final? Bem... essa dúvida perdura até o último segundo do filme... mas não serei eu quem contará isso. Vá ver o filme, oras, pois a cena final é interessantíssima.


B+
Paradise Now
(Hany Abu-Assad, Fra/Hol/Ing/Isr, 2005)
Quando: Abr/06 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: ficha imdb

YOSSI & JAGGER

Dois soldados, a neve, um coelho perdido...


[nota: se não quiser saber do final, não leia essa resenha]

Depois de muito hype, finalmente pude assistir a esse filme sobre o relacionamento de dois soldados israelenses num bunker. Infelizmente, as condições não foram das melhores, uma vez que eu o baixei da internet em espanhol. Para piorar, só conseguir achar legendas... em espanhol.

Mas mesmo assim, a vontade de assistí-lo era grande e fui em frente. A cena dos dois, na neve, chega a dar inveja pelo lirismo e pela leveza. Me diga quem não gostaria de ser aquele coelho voyeur que levou uma bola de neve?

Mas o desenrolar do filme foi me decepcionando. Nem tanto pelo roteiro linear e sem grandes suspenses, ou pelos cenários comuns. O que foi me decepcionando foi o tal "filme de amor entre dois soldados gays israelenses" que andaram propagando por aí. Eles contracenam em apenas 3 ocasiões. A primeira, a mais bonita de todas (que chega a dar inveja por não participar de algo semelhante), é a da neve, que ilustra essa resenha. A segunda, na qual eles discutem a relação, você pode até se identificar com Jagger, o mais livre dos dois e que prioriza o relacionamento, e ficar com raiva de Yossi, o metódico que coloca a carreira em primeiro lugar. A terceira, bem, a terceira é aquela da emboscada, quando Jagger morre e suas últimas palavras foi a pergunta feita a Yossi, "você me ama?"

No funeral, fiquei com pena de Yossi, quando aquela inxirida diz que amava Jagger e acreditava que era recíproco. Vagabunda! Yossi lá, impotente, querendo dizer a verdade, e a outra posando de viúva.

Mas o que me fez perder o chão foi a mãe de Jagger, quando diz que não conhecia o filho, que não sabia nem qual era a música favorita dele. Isso doeu.

No final, eu classificaria o filme como "típido da sessão da tarde", ou seja, aquele que ajuda a distrair, mas eu sei que essa classificação é totalmente viesada pelo fato de ter visto o filme dublado e legendado em espanhol. Quando encontrá-lo numa locadora, prometo rever essa conceituação, pois ele me tocou. E eu não sei direito porque.


C
Yossy & Jagger
(Eytan Fox , Israel, 2002)
Quando: Janeiro/06 (DivX)
Site Oficial: www.yossiandjagger.com
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