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A METADE NEGRA

Take a walk on the wild side


Thad Beaumont é um jovem e talentoso escritor livros de ficção. Seus livros são sucesso de crítica, mas fracasso de público. Para sustentar sua família, também escreve livros extremamente violentos sob o pseudônimo de George Stark até ser descoberto e chantageado. Para não ceder à chantagem, Thad decide "matar" seu alter-ego. O problema é que Stark não quer morrer...

CRONOS

Vampirismo latino


Em 1535, um alquimista à procura da vida eterna criou um dispositivo que acreditava ter esse poder. Ao morrer em um desabamento, tem sua macabra coleção de objetos leiloada. Porém, o dispositivo em forma de escaravelho permaneceu desaparecido por séculos até ser encontrado por Jesus Gris, um velho e pacato dono de um antiquário. Ao examiná-lo, várias pontas afiadas do objeto perfuram sua mão. Pronto, foi "picado" pela imortalidade. Seu preço: a busca incessante por sangue.

Em sua essência, Cronos é nada mais nada menos do que uma história sobre vampiros ambientada no México dos anos 1990. Porém, diferente de tantas outras que atualmente infestam o cinema, você mal nota. Para começo de conversa, não há CGI, apenas maquiagem. Não há nada de aversão ao sol, ou descanso em caixões. A imortalidade, ganha através da picada de um aparelho e não de uma mordida, deve ser mantida com sangue e só pode ser tirada se a pessoa tiver seu coração perfurado.

Contribui também o fato de que o protagonista não sabe o que está acontecendo com ele. Ele nem desconfia de onde vem seu desejo por sangue. Vê que está rejuvenescendo, mas não fica tecendo mil e uma teses a respeito. Sua única fonte de explicação é um velho e caquético milionário e seu sobrinho, que também estão à procura do escaravelho.

Para contrapor a parte "hard", há o "soft" da relação entre Jesus e sua neta Aurora, que não emite uma única palavra, mas que vê o rejuvenescimento e a decadência do avô sem questionamentos. Mesmo quando ele começa a adquirir uma aparência grotesca por não se alimentar, ela não sai do seu lado.

Primeiro longa-metragem de Guillermo Del Toro, vale como registro histórico de características que o seguirão em todos os seus trabalhos (inclusive a escalação de Ron Pearlman). Não há gore, apenas uma história digna do cinema fantástico que é contada como se conta uma história da "realidade real".


B
Cronos (Guillermo del Toro, MEX, 1993)
Quando: Abril/11 (Divx)
Sítio Oficial: ficha imdb

AS MÃES DE CHICO XAVIER

"Siga as mães"



Três mães e seus dramas pessoais. Via Negromonte e seu filho viciado em drogas; Vanessa Gerbelli e a morte repentina de seu único filho às vésperas do seu 5º aniversário; e Tainá Müller e uma gravidez indesejada. Em comum, a procura por consolo nas palavras de Chico Xavier.

Parece que o cinema brasileiro abraçou de vez o "filão espírita", pois antes da projeção do filme, foram exibidos o teaser de "O Filme dos Espíritos" (baseado em "O Livro dos Espíritos" e que tem uma premissa bem interessante) e o trailer de "Área Q" (se bem que acho que ele está mais ligado a abduções alienígenas do que a ideias espiritualistas).

Logo no início, As Mães de Chico Xavier mostra a que veio, ao dedicar o filme à vida e condenar o aborto. O médium, figura central em Chico Xavier (10), se torna apenas um coadjuvante. Para Chico, ele é apenas o intermediário. "Siga as mães", diz ao repórter que quer entrevistá-lo sobre as cartas que psicografa.

Enquanto o repórter segue algumas mães (infelizmente, só umas duas ou três), nós seguimos as três protagonistas e o filme não tem a menor pressa em construí-las. Sentimos a angústia de Ruth, que perdeu a vontade de viver por se punir pelo caminho tomado pelo filho; a solidão de Elisa, que, mesmo após a morte do filho, todo dia se senta na praça em frente à escola que ele estudava na hora da saída das crianças na esperança de poder reencontrá-lo; e as dúvidas de Lara frente a um futuro incerto e a difícil decisão sobre ter ou não o filho que carrega.

Diferentemente de Nosso Lar (10) e sua direção horrenda, os diretores sabem muito bem o que estão fazendo aqui. Confesso que me incomodei com alguns truques desnecessários (como a cena em slow motion totalmente exagerada na enfermaria, mas prefiro culpar Joelson Medeiros, que em nenhum momento encontrou o tom certo para o seu personagem), mas já estava embarcado na do filme faz tempo. Cada uma daquelas mães poderia perfeitamente ser a minha ou a sua. Mesmo que não estivesse embarcado, aquele diálogo entre Vanessa Gerbelli (que me surpreendeu por estar perfeita) e Tainá Müller na praça, sobre dar a própria vida pela do filho, a própria definição do que é o amor de uma mãe pelo seu filho, é para destruir o coração mais insensível.

E olha... como eu chorei! Chorei como há muito tempo não chorava no cinema.

Não me considero espírita, mas acredito na comunicação entre os vivos e os espíritos e que estamos aqui apenas de passagem. Portanto, sou o público-alvo perfeito para esse novo "filão". Infelizmente, muitos "espíritas" procurarão indicar esse filme como doutrinação. Com essa crença fervorosa e irracional, eles só se esquecem do básico: cada espírito é único. Você não tem o direito de generalizar sobre nada. A única certeza universal é que para cada ação há uma reação e a única "pessoa" a quem você deve prestar contas é com o juiz universal: a sua consciência.

E daqui a seis meses, estreará "O Filme dos Espíritos". Baseado no livro que vem mudando minha vida há 3 anos.


B
As Mães de Chico Xavier (Glauber Filho e Halder Gomes, BRA, 2011)
Quando: Abril/11 (Cine Rosa e Silva)
Sítio Oficial: asmaesdechicoxavier.com.br

127 HORAS

Nunca se esqueça do seu canivete suíço.



História verídica de Aaron Ralston, aventureiro solitário (e um tanto quanto misantropo), que ficou com o seu braço preso por uma rocha durante 127 horas, até que ele teve que amputá-lo para poder sobreviver.

Danny Boyle é um diretor bastante criticado por suas firulas e excessos na edição. Bem, antes de considerá-los como "defeitos", prefiro encará-los como características.

Apesar da trama linear [em contraponto, por exemplo, a Quem Quer ser Milionário? (09)], o drama das tentantivas fracassadas de Aaron de se libertar é entrecortado com cenas de sua infância, o desejo ardente pelo isotônico que deixou no carro quando sua água acaba, sua punição por ter esquecido seu canivete suíço, a ironia de ter sua mochila um canivete Made in China (que não corta nada) que ganhou da mãe e por aí vai. Da mesma forma, os "momentos mortos" de Aaron e a pedra são quebrados pela fúria, pelo medo e pelas alucinações.

Portanto, o filme não seria possível sem essas estripulias Dannyboyliana e, claro, a James Franco, o que fez valer sua indicação ao Oscar e prova (se é que ainda é preciso) que ele não é apenas o rostinho bonito que veio ao grande público após a trilogia do Homem-Aranha.

A trilha sonora também segue o padrão Danny Boyle e o excesso, novamente desnecessário [(assim como o "5º elemento" de Sunshine (07)], é o grafismo explícito da amputação (com direito à radiografia do osso do braço ao ser quebrado) e a posterior sangreira (o que deixa a boca de James Franco como a de um vampiro após um banquete). É o momento mais tenso do filme, sem dúvida, mas logo após, há a redenção (o que não pode faltar num filme de superação), com uma belíssima música de encerramento (melhor do que a que concorreu ao Oscar, que aparece nos créditos finais).


B
127 Hours (Danny Boyle, EUA, 2010)
Quando: Fevereiro/11 (UCI Recife)
Sítio Oficial: 127horas.com.br

SOB O SOL DA TOSCANA

Porque a água lava tudo.



Após um doloroso processo de divórcio de um marido infiel que fica com a sua casa, Frances passou a morar em um quarto-e-sala num prédio destinado a solteiros. Quando estava prestes a entrar em depressão, ganha de presente de suas amigas lésbicas uma excursão para gays para a Toscana, na Itália. Numa dessas cidadezinhas medievais, ela vê o anúncio de uma villa que estava à venda. No meio da estrada, a excursão passa em frente à villa e ela pede para descer. Ela decide, então, comprá-la e passa não só a reformar a casa, mas também a reformar a si mesma.

QUE FIZ EU PARA MERECER ISSO?

Tragédia Almodóvariana em gestação.


Glória é uma diarista que mora num apartamento minúsculo com o marido machista e bruto, a sogra doida que recolhe pedaços de paus nos parques e os dois filhos, sendo que um deles é traficante e outro vai morar com um dentista pedófilo com o consentimento da mãe. Como se não bastasse, há também um "famoso escritor" alcóolatra que nunca escreveu um livro, sua mulher, também alcóolatra, que bola um plano mirabolante para finalmente escrever um livro ao chantagear uma atriz no ocaso e deprimida, a vizinha prostituta especialista em sexo bizarro e o lagarto adotado pela sogra de Glória que se chama Dinheiro. 

A ÚLTIMA CASA

A vingança é um prato que se serve com sangue


Mary vai passar o final de semana com os pais na casa do lago da família, mas pede para ir à cidade para se encontrar com a amiga. As duas acabam nas mãos de uma família de degenerados e sofrem horrores até a morte. Anoitece, eles se veem presos no meio do nada e, ironia do destino, encontram refúgio junto onde? Na casa dos pais da jovem que eles tinham acabado de estuprar. Eventualmente, a mãe descobre o que aconteceu e aí parte para a vingança com a ajuda do marido.


A Última Casa é mais uma refilmagem do século XXI de um clássico do horror dos anos 1970/80, no caso em questão, de Aniversário Macabro (72), originalmente escrito e dirigido por Wes Craven, que aqui atua na produção. A notícia boa é que esse é um dos poucos casos em que a refilmagem suplanta o original. Com tensão nos momentos certos e gore não gratuito e em doses comedidas, o ponto forte do filme está na ironia do roteiro e não no choque de ver cabeças explodindo espirrando sangue e miolos pela tela. Bem... há uma cabeça que explode -- de uma forma até original, devo dizer --, mas está "dentro do contexto".

O filme peca exclusivamente por não desenvolver bem as personalidades do casal protagonista, pois achei meio forçado esses típicos pais-classe-média-burguesa de repente virarem assassinos vingativos, mas nada disso desabona essa boa diversão. O filme original é facilmente encontrado no youtube caso haja algum interessado na comparação.


B
The Last House on the Left (Dennis Iliadis, EUA, 2009)
Quando: Agosto/2010 (Divx)
Sítio Oficial: universalstudiosentertainment.com/last-house-on-the-left

MAMMA MIA!

Recomendável para fãs do Abba.


Bastou ver o trailer desse filme para decidir não vê-lo. Muita pressão depois, lá vou eu, emburrado, torcendo para não ser a porcaria que tinha certeza que ele era.

Me enganei.

Lá pelos 15 minutos do filme, Merryl Streep começou a cantar Dancing Queen e eu me entreguei e admiti para mim mesmo que eu realmente estava gostando do filme que, em essência, conta a história da garotinha, filha de Merryl, que vai se casar e quer conhecer o seu pai. O problema é que naquele verão de 20 anos atrás, sua mãe se "enamorou" de três rapazes diferentes: um aventureiro, um ex-metaleiro que trabalha num banco e um ex-hyppie que virou arquiteto. Ela convida os três crente que vai reconhecer o pai assim que o ver, mas... se isso acontecesse, o filme não teria história. Como ela não o reconhece, a confusão está armada, salpicada com inúmeras músicas do conjunto sueco Abba.

Me esqueci da luz artificial de estúdio (apesar das belas paisagens gregas) e sublimei a falta de talento musical de alguns atores (a única que salva é a protagonista, Amanda Seyfried). Merryl está fabulosa como a ex-riponga que cuida de uma pousada numa ilha grega, mas não convence muito como cantora.

Perto do final, o filme fica maçante, tedioso, mas após o último número musical, Fernando, tem mais um "bis" com Meryl e suas duas amigas, que foram cantoras lá nos anos 70....


B

Mamma Mia! (Phyllida Lloyd, EUA, 2008)
Quando: Setembro/08 (Box Guararapes)
Sítio Oficial: mammamiamovie.com

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

A liberdade, apesar da clausura.


O filme conta a história (verídica) de Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle francesa que tem um AVC e entra em coma. Quando acorda, consegue entender perfeitamente o mundo externo, mas só tem controle dos movimentos de um único olho.

O mais interessante é a forma como o filme se desenvolve, a partir da perspectiva de Jean-Do (como seu médico carinhosamente o chama, para o seu desgosto). Inicialmente, a imagem é desfocada, trêmula, errática, torta. Somente depois de meia hora é que começaremos a ter noção da imagem de Jean-Do, a partir do reflexo dos vidros de um corredor do hospital. Daí até finalmente darmos de “cara” com o seu rosto refletido pelo espelho acima também se levará um bom tempo.

Inicialmente, Jean-Do deseja morrer a continuar nessa situação, mas com o tempo ele decide não se entregar e, a partir de um método inusitado, escreverá um livro auto-biográfico ditando as palavras apenas com o piscar dos olhos. Esse filme é resultado desse livro. Uma história poderosa contada de uma forma consistente, longe de ser choroso como normalmente são os filmes sobre doenças baseados em fatos reais.

O filme/o livro/Jean-Dominique Bouby também podem ser encarados como uma mensagem para a humanidade. Foi preciso que Jean-Dominique passasse por tudo isso para poder transmitir sua mensagem de que não se pode desistir nunca. Uma vez cumprida a sua missão, Jean-Do pôde descansar.


B
Le Scaphandre et le Papillon (Julian Schnabel, EUA/FRA, 2007)
Quando: Julho/08 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: lescaphandre-lefilm.com

THE MAN FROM EARTH

“Who do you think I am?”


John está de mudança e quer ir sem se despedir de ninguém. Entretanto, seus colegas, professores universitários das mais diversas ciências (da filosofia à biologia, passando pela literatura sacra, psicologia, antropologia e arqueologia), resolvem fazer uma festa de despedida em sua casa.

Lá pelas tantas, John resolve propor uma discussão sobre a possibilidade de um ser humano viver por 14.000 anos. No início, seus colegas pensam que é um jogo, mas depois, John revela que não sabe porque ele parou de envelhecer por volta dos 35 anos, aproximadamente 140 séculos atrás. Nesse período, ele andou pelos quatro cantos do mundo. Conheceu o Buda, esteve na palestina na época de Jesus Cristo, viajou com Cristóvão Colombo, sobreviveu à peste bubônica, ganhou um quadro de presente de um tal de Van Gogh...

É preciso muita concentração para “comprar” a idéia desse filme, pois ele é num tom mais lento, introspectivo, limitado a uma sala de estar com um sofá e algumas cadeiras, com perguntas e respostas e muita especulação entre esses amigos/cientistas, que ficam entre os mais céticos e os mais empolgados com a possibilidade da história de John ser verdade.

Ou não...

Há canastrões entre os atores, a maioria atuante na tv (de onde dá para reconhecer um rosto ou outro), mas o roteiro é envolvente, apesar da pequena derrapada que poderia ter sido evitada ao cortar os últimos 2 ou 3 minutos do filme. Entretanto, nada disso tira o seu mérito, que faz valer a pena sua conferência.


B
The Man From Earth (Richard Schenkman, EUA, 2007)
Quando: Julho/08 (DivX)
Sítio Oficial: manfromearth.com

REC

Uma câmera na mão, um prédio em quarentena, “zumbis”...


Era para ser uma noite tranqüila, uma reportagem burocrática sobre a rotina de trabalho do corpo de bombeiros de Madri até que a repórter e seu cinegrafista seguem dois bombeiros em um chamado sobre ruídos estranhos saindo de um apartamento num prédio no centro da cidade.

No apartamento, os repórteres, os bombeiros e dois policiais perceberem que há algo de errado no comportamento da dona do apartamento. Eles tentam sair do prédio, mas ele foi isolado e posto em quarentena sem que eles saibam o motivo.

Daí é um pulo para descobrirmos que o prédio foi isolado porque as autoridades sanitárias desconfiam que ele é o foco de um vírus que causa um comportamento raivoso em seu portador e, um a um, os moradores acabam sendo expostos ao vírus e viram “zumbis” (na verdade, eles adquirem um tipo de raiva que os tornam agressivos e assassinos e não mortos-vivos).

Um filme com sustos eficazes que alia a claustrofobia do confinamento num único ambiente (o prédio) com o medo do desconhecido (que diabos está acontecendo com todo mundo?). Eu tenho minhas restrições com o final (assustador), mas nada que desabone esse suspense com S maiúsculo.


B
Rec (Jaume Balagueró e Paco Plaza, ESP, 2007)
Quando: Abril/08 (DivX)
Sítio Oficial: ficha imdb

O ORFANATO

Um bom filme de terror.


Laura se muda com o marido e o filho adotivo, Simon, para uma casa onde antigamente havia sido um orfanato com o intuito de reabrí-lo. Porém, seu filho começa a ter um comportamento "estranho", passando a conversar com "amiguinhos imaginários". Na festa de inauguração, o pequeno Simon some.

A partir daí, tem-se a combinação perfeita para filmes de terror: uma casa assustadora e mal iluminada, amigos imaginários (= fantasmas), crianças com ar inocente demais para ser verdade, um filho desaparecido, a dor de uma mãe que não desiste de procurá-lo, uma médium, um jogo infantil...

Um filme mais do que eficiente para quem deseja ficar grudado e não perder um detalhe. E não pode perder mesmo, pois de acordo com o jogo infantil (primeiro, jogado pelo pequeno Simon, depois, pela mãe dele), uma pista leva a outra e se você conseguir achar o tesouro final, você tem direito a um desejo. Simon conseguiu ter seu desejo atendido. A mãe... bem... assista ao filme e descubra.


B
El Orfanato (Juan Antonio Bayona, MEX/ESP, 2007)
Quando: Março/08 (DivX)
Sítio Oficial: theorphanagemovie.com

A LESTE DE BUCARESTE

Uma comédia, mas que serve para o diretor passar a sua mensagem.



Fui ver esse filme com uma única recomendação: prestar atenção na hora da "entrevista". A tal entrevista é um programa de televisão de uma rede de tv meio mambembe de uma cidadezinha ao leste da capital romena, Bucareste, que discute os 16 anos da derrubada do ditador Nicalae Ceausescu.

O mote do programa é: houve ou não houve uma revolução. Nesse caso, a hora de 12h08 é a hora-chave. Foi nesse momento que a TV estatal parou de transmitir um pronunciamento oficial em razão dos protestos que tomavam a praça em frente à sede do governo.

Inicialmente, o filme nos mostra seus três personagens principais: o produtor do programa, que se inspira num dicionário de filosofia grega para os seus pronunciamentos -- ditos -- filosóficos, o professor alcólatra que deve para meio mundo para poder continuar o seu vício e o velhinho simpático da esquerda, que foi escalado de última hora porque o outro entrevistado faltou.

No programa propriamente dito, podemos notar que o idioma romeno não só é parecido com o italiano como os costumes do povo romeno em nada diferem de um típico elenco felliniano. Com direito a xingamentos ao vivo pelo telefone, intromissão na vida alheia (nada mais... "latino") e xenofobia.

Nesse último ítem, interessante a participação do chinês, que foi o único a defender o professor (já que ele foi escorraçado por todos os demais). Quando ele se meteu a falar dos romenos, que deveriam prestar mais atenção às suas próprias vidas do que às vidas alheias, foi uníssona a saraivada de críticas que ele levou (inclusive do próprio professor que ele havia defendido).

No fim, a mensagem. Não foi uma revolução instantânea a que aconteceu naquele dia. Foi como o ascender das luzes de uma cidade. Uma de cada vez, pouco a pouco, até que toda a população foi chamada às ruas para pedir o fim do regime.


B
A Fost Sau N-a Fost? (Corneliu Porumboiu, Romênia, 2006)
Quando: Janeiro/08 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb

XXY

Um filme sobre identidade.


Alex não é uma adolescente comum. A "menina" na foto aí encima nasceu com os órgãos sexuais dos dois sexos. Seus pais resolveram ignorar os conselhos dos médicos que queriam castrá-la(0) ao nascer e se mudaram de Buenos Aires para uma vila de pescadores no Uruguai.

Aos 15 anos, Alex está na fase de descobrimentos e quer transar. Para complicar/solucionar seus problemas, um casal de amigos dos seus pais se hospedam em sua casa. Um deles é médico e tem como objetivo convencer os pais de Alex que a operação de castração deve ser feita e o quanto antes, melhor. O caldo entorna quando junto do casal de médicos vem o filho adolescente deles.

Apesar de os pais de Alex terem visões diferentes sobre o "problema" (o pai quer deixar como está e a mãe quer torná-la "igual às outras meninas"), ela não é complexada com a sua "situação", diferente do filho do casal de amigos de seus pais, que nunca faz nada suficientemente bom para que o pai o considere especial.

Um filme interessantíssimo, mas que, ao terminar de vê-lo, você se pergunta "e daí?". Muito provavelmente eu não entendi direito a mensagem, ou talvez tenha entendido perfeitamente bem e não tenha digerido-a. Mesmo assim, esse é um filme altamente recomedável, já que não é todo dia que se vê um filme de um hermafrodita sem dramalhões.


B
XXY (Lucía Puenzo, ARG, 2007)
Quando: Dezembro/07 (DivX)
Sítio Oficial: xxylapelicula.puenzo.com

THE BUBBLE

Tragédia shakespeareana na Terra Santa.


A "bolha" do título é Tel-Aviv, a capital administrativa e a cidade mais cosmopolita de Israel. Algo como uma Nova York do Oriente. Entretanto, apesar de ser permeável ao "novo", a cidade não pode se desvencilhar totalmente da região e, por causa disso, sofre ataques terroristas de homens-bomba palestinos e tem entre seus habitantes os extremistas israelenses que gostariam de exterminar todos os árabes do planeta.

Nesse ambiente, surge o "amor" entre Noan e Ashraf. O primeiro, um ex-soldado da fronteira entre Israel e os territórios ocupados e esse último, um palestino. Eles se conhecem em mais uma das humilhantes revistas pelas quais os palestinos têm que passar para poderem entrar em Israel e acabam se apaixonando. Ashraf se muda para o apartamento que Noan divide com um casal de amigos e tudo está bem até que descobrem que ele é palestino em seu trabalho. Ele foge de volta para a sua cidade natal e fica por lá para o casamento da irmã.

Até aí, tudo bem, mas o caldo começa a entornar quando o colega de apartamento de Noan está num café que sofre um atentado de um homem-bomba e é seriamente ferido. Ashraf liga para ele para poder saber de notícias, mas Noan deliberadamente não atende.

Pouco tempo depois, a irmã de Ashraf é morta "acidentalmente" por uma bala "perdida" após uma incursão de soldados israelenses nos territórios ocupados. Noan fica sabendo e tenta ligar para Ashraf. Agora é a vez dele não atender ao telefone.

Agora vou falar do final. Se não quiser saber, pare por aqui.

Até o final do dia, instantaneamente, Ashraf virará um homem-bomba para vingar a morte da irmã, rumará a Tel-Aviv, mas encontra Noan no café que ele deveria explodir. Ele hesita e vai para o meio da rua. Noan o segue. Os dois explodem e morrem sozinhos.

Eytan Fox não acredita no amor entre gays e, pela segunda vez, mata seus protagonistas (se bem que em Yossi & Jagger, ele matou apenas um deles). Talvez ele quisesse passar a mensagem que nem mesmo o amor pode superar o ódio de ambos os lados, mas sei lá. Um pouco de fé na humanidade não faz mal a ninguém.


B
Ha-Buah (Eytan Fox, ISR, 2006)
Quando: Dezembro/07 (Cine Rosa e Silva)
Sitio Oficial: thebubble.msn.co.il/eng

MORTE NO FUNERAL

Laços de família.


Trata-se de uma comédia de humor negro que se passa no dia do funeral do patriarca da família, sendo que a mera reunião familiar é o mote para o afloramento das excentricidades de cada um. Do famoso filho caçula que é escritos, do ofuscado primogênito que sonha em escrever, do sobrinho que colocou alucinógenos num frasco de lexotan, da prima que vai apresentar o futuro noivo à família, e que por sua vez tomou os comprimidos de "lexotan". Há também o tio velho e esquecido num asilo que vive reclamando de tudo e de todos, de um sobrinho meio lerdo que vira babá forçado desse tio, do ex da prima que vai apresentar o noivo para a família e que só quer saber de reconquistá-la. Será que esqueci de alguém? Provavelmente...

Ah, tem também "o anão", sua mera presença já é sinônimo de risada, mas o "segredo" que ele está disposto a revelar sobre o patriarca é ainda mais cômico, assim como a forma que os irmãos decidem "resolver" a questão.

No mais, uma comédia "ok", que fica efadonha em alguns momentos, mas que é garantia certa de risos de tempos em tempos, o que assegura o bom divertimento.

B
Death at a Funeral (Frank Oz, ING, 2007)
Quando: Outubro/07 (Box Guararapes)
Site Oficial: deathatafuneral-themovie.com

LADY VINGANÇA

Tenha muito, muito cuidado com uma lady vingativa.


Levei 20 minutos só para entender o que estava acontecendo no filme. Quando dei por mim, ela já tinha cortado o dedo fora e até agora eu não sei o motivo. O final, aparentemente "bobinho" e "surreal", com um clima à la Tarantino, tem um subtexto interessantíssimo sobre como "pessoas acima de qualquer suspeita" podem descer do seu pedestal para vingar a morte de entes queridos.

A jovem Lee Geum-Ja, aos 19 anos, é condenada a 13 anos de prisão pelo seqüestro e assassinato confesso de um menino de 6. No entanto, ela não é a verdadeira culpada pelo crime. O assassino, seu namorado, ameaçou matar sua filha caso ela não confessasse ter cometido o crime. Na prisão, Lee Geum-Ja cria toda uma rede de amizades que serão fundamentais para pôr em pratica o seu plano de vingança.

Esse é o terceiro filme da "trilogia da vingança" de Chan-wook Park e, apesar de não ter visto o primeiro filme, Senhor Vingança (02), posso perfeitamente compará-lo com Oldboy (03). A fotografia é bonita e a história é bem escrita, apesar do processo de filmagem ser complexo, com vários flashbacks e narrações em off. Entrento, achei inferior à Oldboy e me considero incapaz de tecer maiores comentários. Talvez seja necessário faz uma revisão mais tarde. Quem sabe assim eu acabo descobrindo que porra foi aquela dela cortar o dedo fora...


B
Chinjeolhan Geumjasshi (Park Chan-Wook, Coréia do Sul, 2005)
Quando: Setembro/07 (Multiplex Boa Vista)
Site Oficial: ladyvengeancemovie.com

KINSEY

Talvez, convenções sociais sejam feitas para que pessoas não se machuquem umas as outras.


A frase acima é uma das mais poderosas desse filme sobre o pesquisador Albert Kinsey, responsável pelo mega-projeto que resultou no Relatório Kinsey sobre a Sexualidade Humana nos anos de 1950.

Instigado pelos livros sobre sexo até então, que se baseavam em crendices populares (tipo: se você fizer sexo oral em sua parceira, ela terá dificuldades em engravidar), o então especialista em vespas assassinas (que havia coletado mais de 1 milhão delas) decide pesquisar sobre sexo. Consegue aprovar na conservadora Universidade de Indiana, uma disciplina sobre sexo que em pouco tempo se torna concorridíssima. O segundo passo é começar uma mega-pesquisa em vários volumes sobre a sexualidade humana.

O primeiro volume dessa pesquisa, a sexualidade do homem, se torna rapidamente o mais bem sucedido livro derivado de uma pesquisa científica. O segundo, porém, sobre a sexualidade da mulher, faz com que Kinsey passe a ser perseguido, fazendo, inclusive, que ele perca seu patrocínio da Fundação Rockfeller. O motivo: nesse segundo volume, os EUA descobriram que suas mães e suas avós se masturbavam, o que era inconcebível.

O Dr. Kinsey não se furtava a participar ativamente de suas pesquisas. Numa delas, ele comprovou que uma mulher realmente atingia o orgasmo em poucos segundos. Em outra, ele experimento sexo com o seu "número 2". Tudo em nome da ciência. Ao relatar os ocorridos à sua esposa, descobriu que ela não era tão "moderninha" assim ao soltar a frase que inicia essa resenha.

Com a saúde debilitada, a segunda frase poderosa vem de uma mulher no alto dos seus 50 e poucos anos, com filhos na faculdade e que resolveu largar tudo por sentir uma forte atração por uma colega de curso. Ao saber que o sentimento era mútuo, decidiram viver juntas uma história que já durava 3 anos até ser entrevistada pelo próprio Dr. Kinsey como material para o volume sobre a homossexualidade, nunca publicado.

Dr. Kinsey se culpava por não poder ajudar a todos, por não poder responder a todas as cartas que recebia, mas foi a partir do depoimento dessa mulher que ele tomou conhecimento de que realmente ajudou muitas pessoas. Mesmo que anonimamente.


B
Kinsey (Bill Condon, EUA, 2004)
Quando: Setembro/07 (DVD)
Site Oficial: foxsearchlight.com/kinsey

007 - CASSINO ROYALE

O nome dele não é Bond, James Bond.


Eu estava no coro dos descontentes quando foi anunciado o novo intérprete de Bond, James Bond. O cara tem o corpo, mas não tem a beleza e muito menos o "charme" que um aspirante a James Bond demanda. Sean Connery era o charmoso-sacana; George Lazemby não conta; Roger Moore era o adepto do humor negro (e até acredito que tivesse algum charme); Timothy Dalton até hoje não disse a que veio e Pierce Brosnam, apesar de exalar seus ferormônios a quilômetros de distância, se refugiada nessa característica peculiar e no humor sarcástico.

A Guerra Fria acabou, como nos lembra a saudosista M. O mundo não pede mais machos infalíveis no cinema (apesar de Jack Bauer existir na tela pequena) e então, tiveram que reinventar o sr. Bond. Um Bond feio, porém, eficiente. Um Bond que não mede escrúpulos para conseguir o que quer, seja invadindo a embaixada de um outro país ou entrando no computador de sua própria chefe ou até mesmo fechando um acordo moralmente questionável com um espião de uma agência "concorrente". Apesar de não hesitar nesses momentos, ele é humano para duvidar de seus atos. Ele mata, mas se sente desconfortável ao limpar suas mãos cheias de sangue numa pia.

Nesse novo mundo, há novo James Bond, há novo embate. Agora não é o capitalismo contra o comunismo. É o mundo civilizado contra o terrorismo global. James Bond não poderá vencê-lo usando apenas os músculos, é preciso a cabeça. James Bond não é mais infalível. James Bond se apaixona, James Bond cai no blefe de seu oponente. James Bond sofre arranhões, tem uma parada cardíaca, carrega essas chagas ao longo do filme, mas sempre se recupera.... até que se corte novamente numa briga.

James Bond não se apresenta mais como Bond, James Bond. E sim, Daniel Craig é um bom ator.


B
Casino Royale (Martin Campbel, 2006, EUA/ING/TCH )
Quando: Agosto/07 (DVD)
Site Oficial: 007cassinoroyale.com.br

NOITE DE ESTRÉIA

Myrtle Gordon, atriz, alcóolatra e atormentada pela morte de uma fã na noite de estréia de sua mais nova peça.



Definitivamente eu não sou cinéfilo, pois somente depois de assistir a esse filme que eu pude compreender o frisson em torno do curta de Gena Rowlands e Ben Gazarra em Paris, te Amo (06). Como não sou totalmente iletrado na sétima arte, eu sei que John Cassavetes dirigiu alguns filmes (apesar desse ser o primeiro que vejo) e foi o papai do Bebê de Rosemary (68), mas só. Como gosto de experimentar filmes de fora doa mainstream e já tinha perdido Uma Mulher sob Influência (74) no Cinema da Fundação, esse eu não poderia deixa de lado de forma alguma.

Precisei de algum tempo para me acostumar com o ritmo "diferente" desse filme, que conta a história da atriz Myrtle Gordon entre a noite de estréia de sua mais nova peça, quando uma fã ardorosa morre atropelada até a sua estréia em Nova York. Nesse meio tempo, ela enlouquece, primeiro porque sua personagem na peça lida com a crise de idade (uma crise que batia à sua porta na "vida real") e segundo porque na estréia de sua peça, uma jovem fã morre atropelada ao correr atrás de seu carro.

Assustada pelo fantasma da fã e com a possibilidade de ficar marcada por seu papel de "mulher que está envelhecendo", Myrtle se refugia na bebida e tenta, a todo custo, mudar o rumo de sua personagem, até que, na noite de estréia da peça em Nova York, ela "surta" e some, aparecendo "trêbada" na hora do espetáculo. Muito café preto depois, ela sobe ao palco e brilha.

Igualmente brilhantes são a trilha sonora, com um "solo" de piano arrepiante nos momentos de tensão (ou de "loucura" da protagonista, se preferir) e o diretor, com alguns planos magníficos, como aquele onde ele filma uma discussão que ocorre na frente do teatro com uma câmera no interior de uma limousine. Não sou um grande entusiasta pelo teatro, mas as cenas de ensaio e de encenação da peça também são muito bem enquadradas.


B
Opening Night (John Cassavetes, EUA, 1977)
Quando: Agosto/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: ficha imdb
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