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UM LUGAR QUALQUER

Melancholie mode on.


Johnny Marco é um jovem ator de blockbusters de Hollywood no auge de sua fama que leva, fora das filmagens, uma vida totalmente desregrada e vazia, bebendo todos os dias até cair, participando de festas, transando com estranhas, assistindo performances particulares de pole dance com duas gêmeas e por aí vai. Um belo dia, ele acorda e vê sua filha Cleo, de 11 anos, ao seu lado. Enquanto sua mãe viaja, os dois passarão algum tempo junto.

Se ainda existia qualquer dúvida sobre o talento como diretora de Sofia Coppola, ela prova mais uma vez que é capaz de fazer mais um filme com sua marca autoral: visões intimistas de seus personagens descobrindo pequenas coisas da vida. De um ator decadente e uma “namorada de um fotógrafo” perdidos em Tóquio (Encontros e Desencontros, 03), passando por uma rainha arrancada de sua casa na adolescência (Maria Antonieta, 06), agora é a vez de um ator no auge de sua fama e sua filha, que o fará reavaliar o modo como encara sua própria vida.

Um Lugar Qualquer é um filme menor se comparado aos dois anteriores, mas mesmo assim você se deixa levar pelo lirismo e pelos detalhes, seja um simples desenho de uma filha no gesso do braço de seu pai, seja um “chá de panela” fictício em baixo d’água. Sofia não tem pressa em contar a sua história, em certa medida, pessoal, pois ela viveu um bom tempo naquele mesmo hotel, o Chateau Marmont, ao lado do pai, Francis Ford Coppola. Inclusive, o porteiro é o mesmo.

Destaque pelo “piti” de Cleo que, prestes a ser deixada no aeroporto pelo pai, não quer ir à colônia de férias, por se sentir rejeitada tanto pelo pai como pela mãe. As “férias” no acampamento, para ela, seria apenas um lugar onde seria despejada como um objeto qualquer para que ambos pudessem continuar vivendo suas vidas.

A cena final é subjetiva demais. Não dá para interpretá-la literalmente. Ninguém em sua sã consciência faria aquilo. Mas parece perfeito como um “final feliz” onde é apresentado o momento em que aquele astro que movimenta milhões e mexe com o imaginário de tanta gente, mas tem uma vida vazia e sem sentido, muda a forma de viver.


B+
Somewhere (Sofia Coppola, EUA, 2010)
Quando: agosto/11 (Cine São Luiz)
Sítio Oficialsomewherethemovie.com

MARIA ANTONIETA

Uma Maria Antonieta cool, humana e simpática.


Sim, esse foi o filme que foi vaiado no último Festival de Cannes e sim, Sofia Coppola tinha uma baita duma responsabilidade nas costas após o estupendo Lost in Translation (03). Eu, particularmente, não estava muito empolgado em conferí-lo...

... até que eu vi um de seus trailers no Youtube com "Ceremony" do New Order de trilha sonora. Pronto! A obsessão se entranhou no meu ser e fiquei louco de vontade de vê-lo. O medo de uma possível decepção (ora, ele foi vaiado em Cannes e a imensa maioria das críticas foi negativa) não me dominou e eu saí do cinema realizado.

Primeiro, por rever Versailles. Segundo, por ter a oportunidade de novamente ficar encantado pela interpretação da gracinha da Kirsten Dunst. Terceiro porque, afinal de contas, era um filme da mesma diretora de Lost in Translation (03)!

Há pontas soltas, claro, mas compreensíveis, pois o filme resume aproximadamente vinte anos da última rainha francesa antes da Revolução. Achei estranho, a mudança "repentina" do comportamento de Maria e seu marido, Luis XVI. De distantes no dia do casamento aos 7 anos sem a "consumação" do enlace matrimonial, "de repente" eles eram pombinhos apaixonados. No começo, essas elipses narrativas eram legais, mas no final, você fica um pouco perdido (se bem que a forma dela contar o nascimento de dois dos quatro filhos da rainha é fabulosa, mas só entendi aquele enterro quando li a respeito e soube que dois dos seus filhos morreram ainda crianças).

Não espere uma olhar crítico e impessoal de um historiador. Esse é um filme autoral e, acima de tudo, humanizador da rainha que contribuiu efetivamente para a Revolução Francesa. Também achei isso estranho, pois os livros de história pintam a dupla Luis XVI e Maria Antoineta como os demônios na Terra de Danton e Robespierre (tanto que eles perderam a cabeça, bem como seus algozes), mas eles são tão humanos no filme, tão... gente como a gente... Ele gosta de fechaduras e de caçadas, enquanto que ela gosta de colecionar sapatos, vestidos e, depois de virar rainha, passa a ter como hobbie dar festas de arromba até o amanhecer.

A trilha sonora é um deleite à parte e vem se tornando uma marca registrada de Sofia. O que muitos criticaram como sacrilégio, eu achei fantástico um baile de máscaras na Paris do século XVIII ao som de Siouxsie and The Banshees e várias festas da nobreza tendo como trilha sonora o punk-rock inglês da década de 80. Vamos deixar aquelas músicas "da época" para aqueles filmes "caretas", certo?

E falando sobre música, eu não poderia deixar de comentar sobre aquela voz rouca e inconfundível da D.E.U.S.A. alcunhada de Marianne Faithfull. Ela é Maria Tereza, mãe de Antonieta. É com essa voz rouca que a projeção se inicia e, de tempos em tempos, reaparece lendo as cartas que ela enviava à sua filha, se mostrando preocupada com a não consumação de seu casamento, pois de acordo com o código de conduta da época, até ela parir um herdeiro, ela não seria ninguém.

As críticas são compreensíveis, pois o roteiro não proporciona nenhum clímax, seguindo a mesma cadência do começo, quando ela viaja da Áustria para a França (sob a narração da D.E.U.S.A.) até o momento final, quando ela vê Versailles pela última vez, expulsa pelos revolucionários. Entretanto, Kirsten Dunst e A D.E.U.S.A. estão presentes e é impossível não se apaixonar por um filme que conta com suas presenças, assim como é impossível não se apaixonar por um filme de Sofia Coppola.


A
Marie Antoinette (Sofia Coppola, EUA/JAP/FRA, 2005)
Quando: Março/07 (UCI Recife)
Site Oficial: www.marieantoinette-movie.com
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