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LADY VINGANÇA

Tenha muito, muito cuidado com uma lady vingativa.


Levei 20 minutos só para entender o que estava acontecendo no filme. Quando dei por mim, ela já tinha cortado o dedo fora e até agora eu não sei o motivo. O final, aparentemente "bobinho" e "surreal", com um clima à la Tarantino, tem um subtexto interessantíssimo sobre como "pessoas acima de qualquer suspeita" podem descer do seu pedestal para vingar a morte de entes queridos.

A jovem Lee Geum-Ja, aos 19 anos, é condenada a 13 anos de prisão pelo seqüestro e assassinato confesso de um menino de 6. No entanto, ela não é a verdadeira culpada pelo crime. O assassino, seu namorado, ameaçou matar sua filha caso ela não confessasse ter cometido o crime. Na prisão, Lee Geum-Ja cria toda uma rede de amizades que serão fundamentais para pôr em pratica o seu plano de vingança.

Esse é o terceiro filme da "trilogia da vingança" de Chan-wook Park e, apesar de não ter visto o primeiro filme, Senhor Vingança (02), posso perfeitamente compará-lo com Oldboy (03). A fotografia é bonita e a história é bem escrita, apesar do processo de filmagem ser complexo, com vários flashbacks e narrações em off. Entrento, achei inferior à Oldboy e me considero incapaz de tecer maiores comentários. Talvez seja necessário faz uma revisão mais tarde. Quem sabe assim eu acabo descobrindo que porra foi aquela dela cortar o dedo fora...


B
Chinjeolhan Geumjasshi (Park Chan-Wook, Coréia do Sul, 2005)
Quando: Setembro/07 (Multiplex Boa Vista)
Site Oficial: ladyvengeancemovie.com

NA CAMA

Precisamos conversar... e discutir a relação.


Um casal inicia o filme transando. Logo após o clímax, ele pergunta à sua amante qual seria o seu sobrenome. Isso mesmo, ele não se lembrava do nome de Daniela e essa pergunta era apenas uma estratégia. Por sua vez, Daniela não acabou de transar com Cláudio, primo de um conhecido seu, mas com Bruno, que não tem nenhum grau de parentesco com o conhecido de Daniela.

Um casal, um quarto de motel. No início, você se sente como um deles, você não sabe nada do outro. À medida que a conversa vai rolando, você cria intimidade, você escolhe um lado e passa a torcer: ou para que alguém ligue para o outro no dia seguinte, ou para que aquilo não passe daquela noite.

E isso é tudo que você precisa saber. Alugue o DVD, assista ao filme no cinema, deixe-se levar pelo roteiro e descubra se o lado que você escolheu foi o "vitorioso" no final.


B+
En la Cama (Matías Bize, Chile, 2005)
Quando: Setembro/07 (Cine Rosa e Silva)
Site Oficial: enlacama.cl

ORGULHO E PRECONCEITO

Elas só querem, só pensam em se casarem.



Apesar de ser homem, eu gosto dos romances de Jane Austin. Nesse, que pode ser considerado o "pai" das comédias românticas (pois foi escrito no final do século XVIII), temos o caso clássico de um homem (Sr. Darcy) e uma mulher (Elizabeth) que as circunstâncias farão de tudo para separá-los até o final, quando eles finalmente descobrirão que foram feitos um para o outro, trocarão juras de amor eterno e prometerão viverem felizes para sempre.

O filme começa bobinho, com a sra. Bennet fazendo de tudo para que as suas cinco filhas se casem o mais rápido possível. Elizabeth, a segunda mais velha, não parece muito empolgada com a história, ao contrário, principalmente, de suas irmãs mais novas, que não pensam em outra coisa.

O primeiro baile acontece e a srta. Bennet mais velha, Jane, consegue se enamorar com o rico e meio atrapalhado Sr. Bigley. Elizabeth tenta puxar conversa com o melhor amigo dele, o Sr. Darcy, mas o esnobe aristocrata nem faz o esforço de tentar ser amável. O ódio ainda não está pronto, ele crescerá ao longo do filme.

Num dado momento, o Sr. Darcy finalmente consegue descer do pedestal, mas o ódio de Elizabeth por ele o arrasa. O tempo passa e, aos poucos, todos descobrimos porque numa recente pesquisa entre as súditas de Sua Majestade, ele ficou com o primeiro lugar como o homem ideal para se casar. Tanto que ele consegue até mesmo domar a "rebelde" Elizabeth Bennet.


A
Pride and Prejudice (Joe Wright, ING, 2005)
Quando: setembro/07 (DVD)
Site Oficial: prideandprejudicemovie.net

OBRIGADO POR FUMAR

A arte da retórica num filme politicamente incorreto.


Sou um ex-fumante e de tempos em tempos volto aos "antigos hábitos". A tentação a voltar a fumar é enorme e ver Noite de Estréia (77) há duas semanas não me ajudou em absolutamente nada [para quem não entendeu: antes do banimento do cigarro nos filmes nos anos 80s/90s, era difícil uma cena sem que um ou todos os atores não fumassem em cena]. Eu tenho plena consciência dos males do fumo no organismo, mas mesmo assim, ainda me sinto tentado a voltar ao meu companheiro que me trará câncer de pulmão (ou algo bem pior) caso voltemos a nos encontrar freqüentemente.

Se até mesmo fumantes (ou ex-fumantes, mas que ainda não estão totalmente livres desse vício) condemam o cigarro, como é que se pode conceber a idéia de que um filme cujo protagonista é o lobista das grandes corporações tabagistas dos EUA poderia se tornar economicamente viável? Resposta: fazer um filme cool que pose de espertinho. O lema preferido do salafrário-protagonista é: eu não quero saber se o cigarro faz mal ou não para a saúde, eu só quero que você tenha o direito de escolher se quer fumar ou não. Retórica pura. Ele não defende o cigarro. Ele defende o direito de cada um de, se quiser, poder escolher fumar ou não.

Inicialmente, achei um filme legal, merecedor de um B, mas olhando mais profundamente, ele não é tudo isso. É apenas um bom divertimento, algo acima da média de uma sessão da tarde, mas que no final tanto faz se você o assistiu ou não. Há cenas legais, como a do produtor que aceita vender cigarro no seu filme que se passa no espaço sideral por uma quantidade substancial de dinheiro. Há também o suborno ao Marlboro Man, que desenvolveu câncer e passou a criticar seus antigos empregadores, mas que se cala por uma boa quantidade de verdinhas. O dinheiro compra tudo? Pode ser. Mais um argumento contra o suposto "ineditismo" do filme.


C+
Thank You for Smoking (Jason Reitman, EUA, 2005)
Quando: Setembro/07 (DVD)
Site Oficial: foxsearchlight.com/thankyouforsmoking

ABISMO DO MEDO

Não apenas um filme de terror, mas um dos melhores filmes de terror já feitos.


O filme parte de uma premissa bem simples: seis amigas vão explorar uma caverna para animar uma delas, que tinha perdido o marido e a filha num terrível acidente havia seis meses. Nessa caverna, um desmoronamento as prende e faz com que elas precisem achar uma saída.

A partir de então, a simplicidade do roteiro e a "camaradagem" entre as mulheres vão pro espaço. Nesse segundo ato, as "mulheres-macho-que-não-precisam-de-homens" começam a lutar contra a insanidade que toma conta de algumas delas por estarem metros abaixo da superfície e sem qualquer luz natural. No terceiro e último ato, o encontro com as criaturas que habitam a caverna faz com que as seis despiroquem de vez o cabeção com umas lutando sozinhas pela sobrevivência e outras ainda preservando alguma noção de "grupo".

Traições, amizades não tão fortes assim, loucura, tensão. Há tudo isso e um pouco mais, pois o filme toca num ponto nevrálgico: o medo pelo desconhecido, pelo que não se pode ver, pelo que não se pode compreender. Metros abaixo do solo, no escuro, com criaturas estranhas e com tomadas claustrofóbicas. Se eu consegui ficar desesperado mesmo assistindo a um DVD, nem gosto de imaginar o que perdi ao não vê-lo no cinema (já que, se não me falha a memória, só ficou em cartaz uma única semana aqui no Recife).


B+
The Descent (Neil Marshal, ING, 2005)
Quando: Setembro/07 (DVD)
Site Oficial: thedescentfilm.com

RAINHAS

Mais um diretor espanhol pensando que é Almodóvar.


Espanha, 2004. O governo recém-eleito legaliza o casamento entre pares do mesmo sexo. Um filme político-simpatizante? Não... apenas uma "comédia de costumes" centrado nas mães dos jovens "noivos" que porventura são gays. Há uma ou outra crítica contra a parte da sociedade conservadora espanhola que os abomina, mas ela é acessória. A linha-mestra do roteiro é centrado nas "Rainhas". O filme é feito por e para elas.

É um bom entretenimento e não chega a decepcionar muito. Eu, particularmente, só fiquei decepcionado porque esperava algo mais militante. Até que ri bastante da "falta de noção" de algumas das rainhas, algo bem à la Almodóvar, mas havia um gosto de que algo estava errado. O efeito final é o mesmo que sinto todas as vezes que assisto a um filme de algum diretor espanhol que tenta fazer uma comédia kitsch e "fora do convencional". Eles tentam, mas dificilmente chegarão a ser, verdadeiramente, "um novo Almodóvar".


B-
Reinas (Manuel Gomez Pereira, ESP, 2005)
Quando: Agosto/07 (DVD)
Site Oficial: warnerbros.es/movies/reinas

AS BONECAS RUSSAS

Não é "O Albergue Espanhol 2".



Saí decepcionado na primeira vez que vi esse filme, no 14 Juillet de 2005, em plena Champs Elysées. Esperava algo do tipo "Albergue Espanhol 2" e veio um filme completamente diferente.

Cinco anos após conhecer aqueles personagens peculiares de todos os cantos da Europa em Barcelona, Xavier não é mais um estudante de economia, desistiu de trabalhar na sua área de formação e luta para se firmar na carreira que sempre sonhou, a de escritor. Paralelamente, ele busca uma relação estável, pois ele não tem nada além de casos fortuitos e passageiros desde que se separou de sua namoradinha do primeiro filme (Audrey Tatou, que também está nesse filme, com um filho de outra pessoa e igualmente perdida no campo amoroso).

Wendy, que era a certinha metódica e C.D.F. no "moquifo" espanhol, agora também é escritora, mora em Londres e é designada para trabalhar com Xavier no desenvolvimento de um programa de televisão. Até o final do filme, eles terão um relacionamento cheio de idas e vindas e é dela a frase do filme (que esqueci agora), ao admitir que tem plena consciência de que sempre se apaixona pelas pessoas erradas, ela sabe que o cara não presta, mas mesmo assim, sempre acaba se apaixonando. A belga Cécile (a lésbica) mora em Paris, trabalha com artes plásticas, tem um relacionamento estável e aceita se colocar no papel de noiva de Xavier para que esse pudesse apresentá-la ao seu avô (para que ele pudesse morrer em paz sabendo que o neto estava prestes a se casar). O que une todos os demais ex-residentes numa curtíssima participação é o casamento de Willian, irmão de Wendy, que era contra-regra num teatro londrino quando se apaixonou por uma bailarina russa. Depois de passar um ano aprendendo russo para que pudesse se declarar ao seu amor, ele vai se casar em São Petersburgo e estão todos convidados.

Se em O Albergue Espanhol (02) a identificação está no fato de haver estudantes de vinte e poucos anos se conhecendo e tomando consciência de culturas diferentes num país estranho, a seqüência procura seu público-alvo entre aqueles quase ou já balzaquianos que ainda não se encontraram. Aqueles que tiveram vários sonhos na juventude, mas que descobriram a duras penas que ir atrás do sonho não é fácil. A porralouquice e a falta de preocupação com o futuro em terras hispânicas dá lugar ao comedimento e ao amadurecimento de todos na gelada São Petersburgo, além da "luta contra o relógio" para conseguir um relacionamento estável.


B
Les Poupées Russes (Cédric Klapisch, FRA/ING, 2005)
Quando: Maio/07 (DVD)
Site Oficial: ficha imdb

ALMOST NORMAL

O que é "ser normal"?



O filme tem uma proposta interessante, que é a de discutir o que é "ser normal" numa sociedade "normal" aonde a heterossexualidade é dominante por um gay que insiste em afirmar que é "diferente" pelo fato de ser gay. O protagonista, Brad, é um gay enrustido que queria apenas "ser normal" (palavras dele), algo que não consegue porque, simplesmente, é gay (novamente, palavras dele). Como não pode "ser normal", ele se enterra nos livros, vira doutor, dá aulas de literatura em uma importante universidade estadunidense e, aos 40 e alguma coisa, fica babando pelo físico sarado dos esportistas e vivendo a sua vida solitária...

... até que sofre um acidente de carro e acaba sendo transportado para um mundo aonde está vinte e poucos anos mais novo, o "normal" é ser gay e os heterossexuais são hostilizados por "fugirem do padrão", sendo chamados de "reprodutores" (pejorativamente, é claro).

Uma vez nesse "mundo ideal", Brad está novamente no colegial e finalmente tem a oportunidade de "viver" e de se relacionar com o jogador de futebol americano que era a sua paixão platônica no "mundo real". Ele acaba conquistando-o como namorado, mas somente até se apaixonar por sua melhor amiga no "mundo real". Dessa forma, ele é novamente hostilizado por "não ser normal", mas dessa vez por ter beijado alguém do sexo oposto, sendo obrigado a freqüentar guetos heterossexuais.

A história é interessante, mas a opção por ser uma comédia leve diluiu o debate que o filme se propôs a discutir (se é que ele tinha essa intenção) um tema bem polêmico, principalmente por partir de um gay. Longe de ser um chato panfletário e militante, me diverti com o filme, apenas comecei a torcer por algo mais "profundo", mas a repetição de clichês (invertidos, óbviamente) deixou-o banal e passável.


C+
Almost Normal (Marc Moody, EUA, 2005)
Quando: Maio/07 (DivX)
Site Oficial: ficha imdb

SOB O EFEITO DA ÁGUA

Sobreviver no limite


Cate Blanchett (Tracey) é uma ex-viciada em heroína que está "careta" há quatro anos e trabalha em uma locadora de vídeos. Seu irmão, Martin Henderson (Ray), é um traficante de drogas que perdeu uma perna por causa delas e, às vezes, recebe sua "mercadoria" através de Tracey. Ambos moram com sua mãe, um típica mãe super-protetora. Hugo Weaving (Lionel) é um ex-jogador de rugbi que se droga 24 horas por dia, sete dias por semana e tem uma intensa relação de amizade com Tracey. Sam Neil, é um "empresário" de sucesso que está se aposentando e tem um affair com Lionel. Dustin Nguyen (Johnny), que já esteve na série "Anjos da Lei" ao lado de Jonny Depp, é um grande amigo de Ray que sumiu de repente por muito tempo e volta para trabalhar no mercado de ações.

Lá se foi boa parte do filme e você ainda não tem noção exata da relação entre todos esses personagens. Você sabe que Tracey e Lionel tem um passado em comum e que a mãe dela o odeia, da mesma forma que ela apenas se resigna e "aceita" a amizade entre Johnny e Ray. Com o tempo, é revelado que foi Lionel quem "apresentou" a heroína à Tracey, enquanto tinha com relacionamento com sua mãe. Johnny, se revela como sendo um ex-drogado, responsável pelo acidente que amputou uma perna de Ray, que já namorou Tracey e que não trabalha no mercado de ações.

Tracey tenta levantar um empréstimo para abrir uma lan house, mas o seu crédito nunca é liberado. A cada fracasso, ela vive no limite entre voltar ao mundo das drogas e batalhar por uma nova possibilidade. Na n-ésima tentativa, descobrimos que ela fraudou o cartão de crédito no passado e por essa razão é praticamente impossível conseguir o empréstimo. Terá sido uma fraude para comprar drogas ou em decorrência do uso delas? O roteiro não entrega isso de bandeja, cabe a cada um decidir.

Assim como o destino final de cada personagem, que após uma fracassada negociação de drogas, vão a uma praia, entram na água e, a partir de então, todos têm a possibilidade de sair de lá zerados. Não sabemos o que cada um fará com essa segunda chance, mas a esperança de que o futuro seja melhor existe.


A
Little Fish (Rowan Woods, Austrália, 2005)
Quando: Abril/07 (DivX)
Site Oficial: littlefishmovie.com

SONHOS COM XANGAI

Sonhos não realizados


Como economista, eu fico impressionado com o vigor econômico chinês. Apesar de ter consciência das engrenagens econômicas desse "milagre", minha análise não é completa pois as transformações sociais não são tão amplamente divulgadas quanto as econômicas. Dessa forma, o cinema é uma das alternativas para tentar entender esse fenômeno e me chamou a atenção a sinopse desse filme, que é sobre uma família que antigamente habitava em Xangai, mas que há 10 anos foi para uma distante região no interior do país para trabalhar numa fábrica de peças no início dos anos 80 e que sonha em retornar à sua antiga cidade.

Mais especificamente, a história é sobre uma menina com os seus 15/16 anos e o sonho de seu pai de voltar para Xangai, algo que o governo não permite, e de vê-la numa universidade. O choque de gerações entre a China tradicionalista, representada pelos pais, tanto da protagonista como de sua melhor amiga, e a China moderna, com os rapazes usando calças boca-de-sino bem ao estilo de Elvis Presley e as moças com os cabelos encaracolados e vestidos mais "ousados", ocorre.

O pai da protagonista é um verdadeiro fascista dentro de casa, apesar de fazer parte do sindicado da fábrica. A moça tem que ir de casa para a escola e da escola para casa, pois ela tem que estudar para entrar numa universidade. A marcação cerrada é a tal ponto que eles se encontram na saída da escola para que ele possa "escoltá-la" de volta para casa. A mãe é mais liberal, mas é voto vencido dentro de casa. O contraponto é sua melhor amiga, que tem uma educação mais liberal.

Um outro tema do filme é a denúncia da política chinesa de deslocamento de grandes massas populacionais e a impossibilidade de livre trânsito dos trabalhadores, que são obrigados a ficar aonde foram locados, mesmo contra a vontade deles.

O filme é interessante, as relações são bem construídas, mas o ritmo é de uma monotonia que beira o insuportável na maior parte do filme, entrecortados por dramalhões bem ao estilo mexicano. Na tentativa de se fazer um cinema "de arte", dá-lhe planos longos, abertos e diálogos quase inexistentes em vários momentos.


C-
Sonhos com Xangai (Qing Hong, China, 2005)
Quando: Abril/07 (UCI Recife)
Site Oficial: ficha imdb

CELESTE E ESTRELA

Uma interessante comédia romântica made in Brazil.


Há males que vêm para o bem. Com o horário de verão, a programação da televisão aqui no nordeste fica uma hora mais cedo. Apesar de ter a parte ruim como, por exemplo, o Jornal Nacional às 19h15, pelo menos pude conferir 24 Horas e Lost sem grandes sobressaltos. Numa dada segunda-feira, num dos intervalos de Lost, descubro o filme que ia passar logo após. Tomado por objetivos lascivos, libidonosos e nada nobres, fiquei grudado na telinha esperando seu início.

Enquanto babava pelo objeto do meu desejo, acompanhei a história de Celeste, uma curta-metragista premiada e cineasta iniciante que era a perfeita bicha-grila, adepta do amor livre, fumava maconha, adorava colocar simbolismo em seus curta-metragens e que tinha como objetivo de vida, a denúncia dos abusos da burguesia dominante. Para ela, os pobres de Brasília eram os intestinos da cidade. Seu contraponto era Paulo Estrela, o cinéfilo burocrata do Ministério da Cultura e careta que de repente se vê apaixonado por Celeste.

O "relacionamento" dos dois é apenas o pano de fundo para mostrar o caminho das pedras que um cineasta precisa percorrer para filmar no Brasil. Enquanto Celeste vive mudando de cidade, aceita ser a assistente da assistente da assistente da assistente de direção de um famoso cineasta, faz gato e sapato de Estrela com o seu jeito livre de ser. Esse último, como um perfeito cachorrinho, fica bolando mil e uma idéias sobre como viabilizar longa metragem de sua amada e, assim, conquistá-la. Inicialmente, o filme "Amores Impossíveis" contaria uma história de amor no passado, no presente e no futuro durante 15 gerações. No final, ela acaba focando apenas na época da escravidão. O filme, com 250 espectadores durante sua única semana de exibição só se torna sucesso no exterior, quando ganha um festival na Alemanha. Metaliguagem é pouca, inclusive com os personagens do filme dando pitacos durante todo o processo de filmagem do filme dentro do filme e de um professor de cinema explicando o que um roteiro deve ter e o que não deve ter para criar empatia com o público.



B
Celeste e Estrela (Betse de Paula, BRA, 2005)
Quando: Março/07 (TV)
Site Oficial: www.celesteeestrela.com.br

PINTAR OU FAZER AMOR

Swing à la mode française.


Eu tenho minhas obsessões e uma delas é assistir a todos os filmes de Daniel Auteil entre 2005 e 2006. Explico: durante minha época parisiense, ao lado de casa, um belo dia, acordo com um verdadeiro exército de contra-regras, cabos, refletores, geradores & etc. Eles levaram a manhã inteira para armarem o circo e a cena durou menos de 5 minutos. Não consigo me lembrar do nome do filme, mas a cena em questão era ambientada em Londres, pois ela tinha uma cabine telefônica vermelha e um típico taxi preto londrino.

Cheio de esperanças, fui ao cinema inicialmente assistir a Caché (05) esperando que fosse esse o filme em questão, mas não era. Essa era a minha segunda tentativa e novamente errei de filme. O personagem de Daniel Auteil é um meteorologista aposentado, casado com uma pintora e cuja filha vai estudar na Itália. Num belo dia, sua esposa vai para o campo pintar uma paisagem e acaba conhecendo o prefeito do vilarejo, um cego, que acaba convencendo-a a conhecer uma casa que estava à venda lá perto. Ela se encanta pela casa, convence seu marido a comprá-la e ambos se mudam para o campo. Conversa vai, conversa vem, o prefeito e sua esposa acabam se tornando amigos do casal. Mais conversa que vai e mais conversa que vem, eles acabam fazendo um swing entre si.

O roteiro básico é esse, porém não é nenhum típico filme francês existencialista repleto de diálogos reflexivos e pausas intermináveis. É um filme sobre o que fazer quando se está aposentado e sobre a mudança de rumo de um casal já "acostumado" com a rotina que está apenas esperando a época dos netos chegarem.

Bem, um roteiro assim pode até empolgar alguém que deseja ver os simbolismos (Adão e Eva soltos na natureza para apenas fazer amor, por exemplo), os conflitos (sim, o título do filme não é por acaso) e a transição do casal da "caretisse monogâmica" para o "modernidade" que agora gosta de fazer swing com outros, mas para mim, que já estava frustrado por não ser esse o filme que eu estava procurando, fiquei ainda mais aborrecido com a história que se desenrolava sem um único clímax.


C
Peindre ou Faire l'Amour (Arnaud Larrieu e Jean-Marie Larrieu, FRA, 2005)
Quando: Fevereiro/07 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: ficha imdb

TRANSAMERICA

- We love you.
- But we don't respect you!



Há filmes sobre pais que descobrem que possuem filhos já adultos, há filmes sobre filhos que sonham um dia em encontrar seu verdadeiro pai, há road movies, há filmes sobre preconceito em relação à orientação sexual, há filmes sobre pessoas que não conseguem se sentir satisfeitos com o seu corpo, há filmes sobre transexuais (embora muito raros) e há Transamerica, que reúne todos esses filmes num só.

Bree, que nasceu Stanley, aprende a entonar a sua voz feminina durante os créditos iniciais. Ele está prestes a se tornar definitivamente ela graças à uma operação de mudança de sexo na Califórnia. Tudo está mais ou menos pronto quando ele/ela recebe uma ligação de um reformatório juvenil em Nova York dizendo que um meliante acaba de ser preso por roubar uma rã e que alega ser filho de Stanley.

Bem, apesar de ter um pinto, Bree o considera nojento e se lembra que na época da faculdade teve um sexo "quase lésbico" com uma colega, que vem a ser a mãe de Toby, o delinqüente juvenil, michê e drogado do parágrafo acima. Bree pensa em esquecer essa história, mas sua analista a intima a conhecer o garoto, caso contrário, ela não assinará a autorização para a operação.


A operação está marcada para ocorrer em menos de uma semana. Ela só pode ser submetida à operação se a sua analista lhe der a autorização. A autorização só será concedida se Bree conhecer o seu filho. Solução: os dois partem para A Cidade dos Anjos de carro.

Entre os vários "pequenos detalhes" do roteiro, que transporta para a tela uma história que poderia ser "difícil" aos mais puritanos de uma forma bem natural (tanto que até o meu pai gostou), me chamou a atenção o diálogo acima. O pai, que parece ser amoroso, porém fraco, diz que eles o/a amam. Mas a mãe dominadora fala logo em seguida que eles não o/a respeitam.

Será que Bree terá um final feliz? Assista e descubra.


B+
Transamerica (Dunkan Tucker, EUA, 2005)
Quando: janeiro/07 (DVD)
Site Oficial: www.transamerica-movie.com

A MARCHA DOS PINGÜINS

A natureza dizendo o quanto nós, homo sapiens, somos insignificantes.


Basta dar uma olhada para esse filme para que possamos perceber o quanto as famigeradas "conveções burguesas" tiraram de nossa natureza. Muito antes de criarem a máxima "casai-vos e multiplicai-vos", os pingüins imperadores viajam de todos os cantos do mundo para um certo ponto na Antártica para praticá-la. Eles não fazem isso porque a "sociedade" assim o disse. Eles fazem isso porque os seus antepassados fizeram isso, há séculos e porque seus instintos dizem que é isso que deve ser feito.

Todos os anos, eles enfrentam uma viagem marítima para um determinado local, numa época específica. Não entendi direito o que acontece com os retardatários, se eles morrem ou se voltam para o local de onde vieram, mas se eles tivessem sido pontuais, ainda enfrentariam 20 dias de marcha, um atrás do outro, até um outro ponto específico, aonde ainda teriam que enfrentar um inverno rigorosíssimo, a fome, outra(s) caminhada(s) em busca de alimento, outra(s) caminhada(s) de volta e assim sucessivamente até que os filhotes se fortalecessem, para poderem participar da mesma marcha três anos depois.

Eu só tenho a lamentar não poder ter visto esse filme num cinema, pois a fotografia parece ser espetacular. Tivesse ido ao cinema assistí-lo, talvez eu não teria ficado "constrangido" com a qualidade das falas, que são de uma pieguice ímpar. Achei brilhante a idéia de narrar a saga através de um macho, de uma fêmea e de um filhote ao invés daqueles offs comuns em documentários do gênero, mas ao fazer isso, me lembrei que o diretor é um humano, sujeito às mesmas convenções burguesas do tipo "macho fecunda a fêmea e assim nasce um filhote, que se for macho, vai fecundar uma fêmea e se for fêmea, vai ser fecundada por um macho no futuro". Bem, os pingüins "se casaram" e houve "a multiplicação da espécie", mesmo sem terem noção de céu, inferno, pecado, adultério, divórcio & etc.

B
La Marche de l'Empereur (Luc Jaquet, FRA, 2005)
Quando: Janeiro/07 (DVD)
Site Oficial: www.marchofthepenguins.com

C.R.A.Z.Y.

A história de uma família. Seria essa família uma família como outra qualquer?


Esta é a história da família Beaulieu e seus cinco filhos, Christian, Raymond, Antoine, Zachary e o pequeno Yvan, sob o ponto de vista das relações entre Zachary e o seu pai e entre Zachary e o irmão Raymond.

Zac nasceu no dia de natal e, apesar disso significar receber o maior presente entre todos os primos, ele o odeia. Primeiro, porque isso significa assistir à Missa do Galo, que parece nunca ter fim, e segundo, porque ele nunca recebe dos pais os presentes que quer.

Para Zac, seu pai é o seu grande super-herói, mas tudo muda um dia, quando ele tinha 7 anos e fica responsável pelo pequeno Yvan. Nesse dia, seu pai o pega com as roupas de sua mãe e, a partir de então, a relação entre dois nunca mais foi a mesma. Ele, então, faz uma promessa: nunca faltará à uma missa natalina para ser "curado" e para que o seu pai volte a ser como antes. Ele começa a namorar uma garota, para provar que não é viado. Chega até a morar com ela, mas tudo em vão. Apesar de nunca ter tido nada com homens, ele não conseguia bloquear o desejo que sentia por eles.

Zac entende que o pai se orgulhe de Christian, o estudioso, e Antoine, o esportista (que, infelizmente, aparecem e somem como se nem fizessem parte da família). Yvan é muito pequeno e, apesar de aparecer um pouco mais que os outros dois irmãos, ele é, praticamente, uma parte do cenário. Sobrou Raymond, o "rebelde sem causa" e drogado que, não importa a merda que faça, sempre receberá o amor dos pais. A ciumera entre os dois acabará criando um tabu na família Beaulieu: nunca colocar os dois perto e nem tocar no nome de um na frente do outro.

A Sra. Beaulieu é um achado. Extremamente religiosa, ela parece "aceitar" o que se passa com Zac. Seu sonho era conhecer Jerusalém e, depois de mais uma briga Raymond-Zachary, na festa de casamento de Christian, o protagonista resolve sumir, indo parar no local dos sonhos da mãe, enviando-lhe um cartão postal. (essa "viagem" me pareceu meio forçada, mas, minha interpretação, parece que foi lá que ele finalmente "saiu do armário").


Apesar de parecer, o filme não é sobre Zachary e sua homossexualidade. É a história de uma família ao longo dos anos centrada em Zac. A parte negativa é a estereotipação de quase todos os personagens e a falta de interação dos outros 3 irmãos com o resto da família, que fica centrada apenas no pai, na mãe, em Zac e em Raymond.


B+
C.R.A.Z.Y. (Jean Marc-Valée, CAN, 2005)
Quando: Dezembro/06 (Box Guararapes)
Site Oficial: www.crazyfilm.ca

O TEMPO QUE RESTA

Você recebe a notícia que vai morrer em três meses. E aí? O que você faria com o tempo que te restasse?


Romain é um jovem fotógrafo de moda bonito, gay, arrogante e drogado que desmaia no meio de uma sessão de fotos. Após os exames, ele recebe a notícia que, aos 31 anos, tem um câncer generalizado em vários órgãos do seu corpo e a change de um tratamento bem sucedido é inferior a 5%. O médico lhe dá 3 meses de vida, mas isso é uma estimativa: tanto pode ser 1 mês como 1 ano.

Aí está o ponto de partida para o filme que te faz refletir sobre o que você faria se a você fosse dada tal notícia. Romain procura "seguir o instinto" como confidencia à sua avó (Jeane Moureau, a "moça" da foto acima), a única a quem ele conta sobre a o tumor. Por que? "Porque você também vai morrer em breve", ele responde.

E esse é o Romain "normal". Não espere uma redenção ou algo do tipo, com ele fazendo "o bem" e "consertando" tudo de ruim que ele possa ter feito. No jantar em que ele pretendia contar aos pais e à irmã, depois de cheirar cocaína no banheiro, ele perde a coragem de contar o que está acontecendo e briga mais uma vez com a irmã. Você sente vontade de ter pena do personagem, mas ele não deixa. Mesmo em seus "últimos momentos", ele continua o mesmo.

Mas ele ensaia uma rendenção. Um dia, depois de receber uma carta da irmã perguntando porque eles se separaram, porque ele não lhe dava nenhum tipo de abertura e dizendo que ela sente saudades da época em que eles tinham uma cumplicidade, ele a espiona num parque com seus dois filhos. É a primeira foto que o tio tira de um de seus sobrinhos.

Ele deixa bem claro que era terminantemente contra crianças, no dia do jantar acima, numa conversa com uma garçonete que lhe faz uma "proposta indecente": seu marido é estéril e ambos concordam que, por ele ser bonito, ele daria um ótimo "doador de esperma". Inicialmente ele não aceita a proposta, mas volta atrás, contanto que o marido participasse. [Acho que entendi agora porque os cineastas fazem essas cenas "incômodas" durarem: eu me contorcia na poltrona durante a "proposta" e durante a "concretização do ato", que duraram uma eternidade cada uma]

O fim, bem melancólico, se dá na praia. Uma cena forte com ele estendido na areia (definitivamente, a moda-praia francesa é um horror). Ao entardecer, todos indo embora e ele, ficando....


A
Le Temps Qui Reste (François Ozon, FRA, 2005)
Quando: novembro/06 (UCI Recife)
Site Oficial: ficha imdb

ETHAN GREEN

Uma comédia romântica onde gays procuram pelo amor verdadeiro, sem discursos panfletários ou diálogos de afirmação da orientação sexual.


Ethan Green não tem sorte no amor. Isso nos é dito logo nos créditos iniciais, quando somos apresentados a todos os personagens do filme. Também somos avisados para não sentirmos pena dele, pois ele é o único culpado por não conseguir um relacionamento estável.

Pois bem, na primeira cena, ele está lendo um livro de auto-ajuda, The Boyfriend Within, num parque, é atingido por uma bola de tênis, acaba se apaixonando por seu salvador e é correspondido. Ele acredita ter finalmente conhecido o amor de sua vida, mas sua roomate lésbica, que acabou de levar um pé na bunda, diz que não vai durar. Até que dura um tempo razoável, mas no dia em que o antigo jogador de basebol ultra-sarado e recém saído do armário propõe que eles morem juntos, Ethan decide terminar tudo, para espanto geral do restaurante. Nem mesmo o garotinho gordo acredita que ele fez o que fez.

No dia seguinte, bate o arrependimento, mas é tarde demais por uma questão bem simples: ele nem tenta conversar novamente com o, agora, ex-namorado para ver se a oferta ainda está de pé. Ele fica apenas se lamentando e chorando ao pé do ouvido de sua roomate.

Nisso, o que era ruim se torna mais complicado ainda porque a casa aonde ele e a roomate vivem é de um outro ex-namorado dele que decide vendê-la porque vai se casar com um gay simpatizante do partido republicano. Pensa que acabou? Outro ex, uma bichona latina afetadíssima, mora com a sua mãe, que tem um pequeno negócio de gerenciar casamentos homossexuais.

A galeria de personagens bizarros ainda conta com as "The Hat Sisters", as "tias" bigodudas de Ethan que adoram um chapéu, vivem num casamento estável há séculos, sabem tudo sobre hat style e, nas horas vagas, são terroristas contra políticos homofóbicos (a parte ruim do filme é que "elas" são muito mal aproveitadas). Há também o fuck budy que Ethan conhece numa festa e cuja vida se resume a transar. "The Punch" tem apenas 19 anos e se vangloria de um dia ter transado com um time inteiro de futebol americano quando estava no colegial. No desenrolar do filme, eles acabam se tornando namorados, mas Ethan leva um pé na bunda porque era "imaturo demais". "The Punch" também é o responsável pela apresentação de Sunny Deal a Ethan e sua roomate. Ela era a melhor agente imobiliária do país, mas se tornou depressiva após ter saído de casa um dia e esquecido o forno ligado, o que matou todos os seus gatos. Desde então, ela não vendeu uma única casa e ela é contratada porque Ethan e sua colega não querem que a casa seja vendida.

Agora há o Spoiler! Continua por sua conta e risco. Só não venha me trollar depois.

No final, Sunny Deal sai da depressão depois de encontrar o seu true love. A colega de Ethan também, assim como o próprio protagonista do filme. Onde? No lugar tão óbvio que ele nem procurou direito.

Os atores são canastrões? A maioria é. O roteiro tem algumas falhas? Tem. Os personagens não são bem desenvolvidos? Não, não são. O final é previsível? Sim, totalmente. O filme é divertido? É!


B
The Mostly Unfabulous Social Life of Ethan Green (George Bamber, EUA, 2005)
Quando: novembro/06 (DiVX)
Sítio Oficial: www.ethangreen-themovie.com

CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO

Tudo sobre a minha mãe, versão irlandesa.


Não, esse filme não tem nada a ver com Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre mi Madre, 99), é apenas um jogo de palavras para definir a obsessão de Patrick "Kitten" Braden, o/a protagonista da história.

Patrick foi deixado pela sua mãe na porta da sacristia de uma pequena cidade do interior da Irlanda. Adotado por uma família que mais tarde se arrependeu de tê-lo feito pela constante vontade de Patrick em vestir roupas femininas e em não fazer "o que meninos deveriam fazer", ele acaba criando um mundo particular para fugir dessa realidade. Nesse mundo imaginário, sua mãe se torna a "Dama Fantasma", que foi para Londres, a cidade que nunca pára, e foi engolida por ela.

Um dia, cansado de sua vida, decide sair de casa e ir procurar sua mãe. Na estrada, pede carona à uma banda de rock e se torna uma groopie, com direito a um affair com o vocalista da banda. As coisas não dão muito certo para os dois e então, ele decide ir atrás de sua mãe em Londres.

Na "cidade que nunca pára", ele se encontra com vários personagens pitorescos. Um deles é Bertie, interpretado por Stephen Rea. Bertie é um ilusionista chinfrim e o convida para participar de seus shows. Num dado momento, num pear, Bertie começa a se declarar a Patrick, que o interrompe. Ele precisa revelar um "segredo". Todo constrangido, ele diz que não era uma mulher. Recebe como resposta "I know that". Fui imediatamente lançado para Traídos Pelo Desejo, numa cena com o mesmo tipo de "revelação". Só que naquele filme, Stephen Rea não sabia...

Até então, eu achava o filme confuso, uma sucessão de idas e vindas, gente entrando, gente saindo... Estava começando a ficar entediado. Tudo mudou depois que Patrick foi à uma boate apinhada de soldados britânicos. Como eram os anos 70, o IRA explode a boate e a culpa recai sobre o transexual irlandês. Depois de uma semana apanhando para que confessasse sua participação no atentado, ele é solto por falta de provas. Mas ele não quer ir. Foi aí que eu percebi qual era a essência do filme: Patrick não buscava a mãe, Patrick buscava algum sentido para a sua vida. Ele buscava algo a que pertencer, um grupo, um amor, qualquer coisa.

E chega. Se eu contar o que acontece depois, estragarei a festa de quem ainda não viu o filme. Uma outra cena fundamental, magistralmente realizada, tem Patrick a balançar candidamente numa cabine de peep show dialogando com a pessoa por trás da parede. A partir dessa cena, Patrick, que chegou a se prostituir antes de conhecer essa "cooperativa de garotas" do peep-show, decide dar a volta por cima, rumo ao happy end.

Caso ainda não tenha se decidido se vale a pena ver o filme ou não, tem também a trilha sonora e sobre ela eu tenho um único comentário: tem uma música de Marianne Faithfull (Madame George).

B+Breakfast on Pluto (Neil Jordan, ING/IRL, 2005)
Quando: Outubro/06 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: www.sonyclassics.com/breakfastonpluto

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS

Um road movie especial e único.


Eu morava em João Pessoa quando esse filme chegou pelas bandas de lá. Tão "sem alarde" chegou, foi embora e eu só descobri na semana seguinte ao folhear um jornal antigo. Felizmente, ele foi escolhido como o representante brasileiro ao Oscar e re-estreou em algumas capitais, Recife inclusa.

Na década de 1940, Johan é um alemão que vem parar no Brasil fugindo da guerra. Mais precisamente, ele está no sertão nordestino vendendo "a solução para todos os males": a Aspirina. Enquanto conduz seu caminhão pelas áridas quebradas nordestinas, vai dando carona para quem pede e um desses, Ranulpho, aceita trabalhar para ele para poder seguir o seu sonho: fugir do nordeste com direção ao Rio de Janeiro.

Ranulpho questiona o "patrão" sobre a maneira dele conseguir vender algo novo para um povo avesso ao que é estranho. As "armas" do galego são um projetor de cinema e uma lona, aonde ele passa cenas da cosmopolita São Paulo dos anos 40 entrecortadas com propagandas da pílula que se diz ser a solução de todos os males.

O filme é tão cheio de pequenos detalhes, cada um tão importante quanto o outro que eu poderia fazer um texto enorme e mesmo assim correria o risco de esquecer algum. Seja do cara que vende comida caseira, seja da mulher com a galinha (ela é creditada assim nos créditos finais, juro!). Tem também aquela cena, quando Ranulpho tenta de todas as formas chamar a atenção de uma moça, que só tem olhos para o galego. E a frustração dele no dia seguinte? Impagável!

Também é difícil colocar em palavras o sentimento de Ranulpho de querer fugir da miséria e da falta de perspectiva e o de Johan de não querer voltar para o seu país, pelo medo de morrer numa guerra na qual ele não acredita.

Interessante é uma cena quando os dois já "tomaram todas" e Johan diz que se eles estivessem num campo de batalha, estariam em lados opostos. Aí ele diria para os seus colegas alemães "tá vendo aquele alí? Reclama de tudo". Já Ranulpho, para seus companheiros, diria "tá vendo aquele galego alí? Ele acha que tudo é interessante, tudo é interessante. Ôxi!" E cai de bêbado depois de reclamar que o alemão não sabia brincar por tê-lo matado com uma espiganda imaginária.

No dia seguinte, Johan já decidiu: vai tentar a vida na Amazônia como seringueiro para não ser deportado. O destino de Ranulpho é outro e eles se despendem na estação de trem, cada um rumando para o seu destino.

E você fica com um aperto no coração. Aquele mesmo aperto que você sente quando se despede de um amigo que não verá por um bom tempo.

A+
Cinema, Aspirinas e Urubus (Marcelo Gomes, BRA, 2005)
Quando: Outubro/06 (Cinema da Fundação)
Site Oficial: www2.uol.com.br/urubus

O QUE VOCÊ FARIA?

O que você faria?


Em primeiro lugar, eu mudaria a tradução do título, para algo mais fiel ao original, pois ele se trata do método de escolha do candidato mais preparado para o cargo de uma multinacional entre os 7 pretendentes.

Os cinco candidatos e as duas candidatas, através de um tal "Método Grönhom", precisam eliminar um concorrente por vez. De início, como em toda dinâmica de grupo, todo mundo é amigo de todo mundo, todos têm uma atitude pró-ativa a favor do grupo, mas sabemos que todos querem passar a rasteira nos outros na primeira oportunidade. E isso fatalmente ocorrerá no decorrer do filme.

Enquanto eles ficam nessa guerra não-declarada no ambiente asséptico da sala de reuniões, lá fora, Madrid se torna um cenário de guerra declarada por causa de um protesto contra a globalização e o FMI. O contraponto perfeito entre a "civilização" do mundo dos negócios e a "barbárie" lá fora.

O cenário é basicamente a sala de reuniões, a ante-sala aonde a oitava personagem do filme, a secretária tresloucada, trabalha e o banheiro, aonde algo "interessante" acontece.

A partir desse ponto, descreverei as provas, sem explicitar as consequências. Isso poderá ser considerado spoiler por alguns. Continue por sua conta e risco.

A primeira prova é a tentativa de descoberta do representante da empresa entre eles. A segunda, a escolha de um líder por unanimidade. A terceira, um voto de confiança no líder escolhido ou a sua eliminação. Na quarta, supõe-se que houve uma guerra nuclear e só há lugar para 5 no bunker, ou seja, um tem que ser eliminado. Uma das candidatas tenta comprar sua passagem dizendo que é boa cozinheira. A outra, diz vai ser a mãe da nova humanidade. A que se diz boa cozinheira também aceita ser mãe da nova humanidade, mas a crueldade começa agora: ela tem mais de 40, a probabilidade de sucesso nessa "empreitada" é incerta e ela é trucidada por aquele que sabe contar histórias. Ela é eliminada.

Na prova seguinte, uma disputa entre a Inglaterra, a França e a Espanha e a reafirmação do machismo corporativo (escancarado já na prova anterior). O "macho latino" é encurralado pela representate francesa. Antes de ser eliminado ele faz questão de jogar na cara dela a velha história de executivas de sucesso, mas infelizes por não terem filhos.

Na prova final, um concorrente deve usar de todos os artifícios possíveis para convencer o outro a desistir. Aí entra o título nacional. Você faria como o que ganhou a vaga ou como o que deixou o outro ganhar?

A cena final é o simbolismo mais que perfeito para o momento. Ao vencedor, as batatas, já ao perdedor... a terra devastada.


B
El Método (Marcelo Piñeyro, ARG/ESP/ITA, 2005)
Quando: outubro/06 (Cinema da Fundação)
Sítio Oficial: ficha imdb
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